A mudança no Daniel não veio de uma vez.
Veio em pedaços pequenos, quase invisíveis. Coisas que só uma mãe percebe quando conhece cada gesto do filho.
Ele começou a chegar mais quieto.
Não era rebeldia.
Era ausência.
Antes, falava da escola, dos amigos, da bola, das coisas simples do dia. Agora, respondia com poucas palavras. Às vezes, só com a cabeça. Os olhos já não procuravam os meus com a mesma facilidade.
Foi nessa fase que o nome do Bigo passou a aparecer com mais frequência.
— Vou ali com o Bigo, mãe. Já volto.
Bigo era menor que ele. Estudava na mesma escola. Mas havia algo diferente naquele menino. Um jeito inquieto, apressado demais pra idade. Carregava no olhar uma dureza que não combinava com infância nenhuma.
No começo, eu observei em silêncio.
Não queria acusar sem prova.
Mas o coração avisava.
Daniel começou a sair mais. A atrasar. A chegar com explicações que não se encaixavam direito. Quando eu perguntava onde tinha estado, ele respondia rápido demais, como quem já ensaiou a resposta.
— Só andando por aí, mãe.
Mas ele já não “andava por aí” como antes.
Havia uma tensão nele. Um cuidado excessivo com o que dizia. Um jeito de fechar o corpo quando eu insistia.
O Bigo não vinha mais só da escola.
Vinha da rua.
Vinha carregando histórias que não eram de menino.
Eu via Daniel tentando se encaixar. Tentando pertencer. Não por maldade, mas por influência. Adolescente quer aceitação. Quer não ficar de fora. E o Bigo oferecia isso — ainda que fosse um caminho torto.
Dentro de casa, o clima mudou.
Jorge passou a olhar o Daniel com desconfiança. As conversas viraram cobrança. O acolhimento virou julgamento.
— Esse menino não é mais o mesmo — ele dizia. — Olha as companhias.
Eu tentava intervir. Dizer que ainda dava tempo. Que Daniel não estava envolvido, só perto demais de quem não prestava. Mas já era difícil conversar. Daniel se fechava. Jorge atacava. E eu ficava no meio, tentando segurar uma casa que rangia.
Teve um dia em que chamei Daniel pra conversar. Sentei com ele na cozinha, falei baixo, com cuidado.
— Filho, eu tô percebendo você diferente. Você ainda confia em mim?
Ele demorou a responder.
— Confio, mãe… só não sei explicar.
E aquilo me doeu mais do que qualquer resposta dura.
Porque eu vi ali um menino confuso.
Não um menino mau.
Um menino sendo puxado.
O Bigo já estava envolvido em coisas que eu não queria nem nomear. Era menor, mas andava com gente errada, falava de dinheiro fácil, de respeito imposto. E Daniel, mesmo sem querer, estava perto demais disso tudo.
Eu comecei a orar mais.
A vigiar mais.
A chamar mais.
Quando eu sabia que ele estava com o Bigo, eu ia atrás. Chamava. Mandava voltar. Ele vinha. Às vezes contrariado. Às vezes em silêncio. Mas vinha.
E cada vez que ele entrava pela porta, eu agradecia a Deus em silêncio.
Porque eu sabia: enquanto ele voltasse, ainda havia chance.
Mas também sabia que o tempo estava correndo.
Daniel já não era mais o menino despreocupado de antes.
Ainda não era alguém perdido.
Mas estava no meio de uma travessia perigosa.
E eu sentia, com uma clareza que assustava,
que aquele era o momento decisivo.
Ou a influência venceria,
ou o amor teria que lutar mais forte do que nunca.
E eu estava disposta a lutar.
eu queria saber dele porque tinha visto ele na garupa do morte.
ele disse que foi apenas um favor que ele foi fazer,ele não me escondia as coisas mas eu sabia havia mas coisa ele so não queria falar.