Quando até o sorriso encomodar.

791 Words
Passaram-se dez anos. Nesse tempo, tive mais dois filhos. A minha situação com Jorge continuava a mesma. Eu seguia vivendo presa a ele — não por amor, mas por algo que eu mesma não sabia explicar. Talvez medo. Talvez costume. Talvez a voz da minha mãe ecoando dentro de mim, me fazendo acreditar que ela me reprovaria se eu o deixasse. Eu não morria de amor por Jorge. Nunca morri. Mas continuei. Agora eu era doméstica. Saía de casa todos os dias, deixava meus filhos com a minha sobrinha e ia trabalhar das onze da manhã às seis da noite. O corpo cansava, mas a mente cansava mais. Comecei a ir a uma igreja perto da minha casa. Era simples, acolhedora. Eu gostava de estar lá. Levava as crianças comigo. Era o único lugar onde eu respirava um pouco melhor. Mas dentro da minha casa, as coisas não iam bem. Principalmente entre Jorge e Daniel, meu filho mais velho. Jorge tinha uma implicância com o Dani que eu nunca consegui entender. Tudo o que Daniel fazia incomodava. Tudo o que comia era motivo de crítica. Se algo quebrava, a culpa era dele. Se algo dava errado, era porque o Dani estava ali. Às vezes parecia até que ele não era filho dele — mas era. Daniel nunca foi uma criança difícil. Pelo contrário. Era falante, brincalhão, tinha um sorriso largo, bonito. Mas até o sorriso do Daniel incomodava o Jorge. — Não precisa sorrir desse jeito — ele dizia. A casa foi ficando pesada. Um clima r**m, sufocante. Daniel tinha treze anos, ia fazer quatorze no mês seguinte. Eu sempre gostei de fazer um bolo para meus filhos no dia do aniversário deles. Para Jorge, isso era desperdício de dinheiro. — Eu nunca tive isso — ele repetia. — Isso é bobagem. Mesmo assim, eu fiz questão. Consegui comprar uma camisa para o Daniel. Ia ser uma surpresa. Naquele dia, cheguei do trabalho cansada. Dei banho nas crianças, fiz a janta, fui à igreja. Quando voltei, lavei as vasilhas, varri a casa, passei um pano no chão, lavei os uniformes das crianças e coloquei todos para dormir. Já era quase onze horas da noite. Graças a Deus, a igreja ficava a cinco minutos da minha casa. Tomei um banho e fui dormir. Jorge só chegou onze e meia, como sempre.No outro dia, acordei cedo. Fiz café, acordei as crianças e expliquei ao Daniel o que ele precisava fazer para ajudar a prima com os irmãos. Saí de casa mais cedo porque precisava passar no mercado perto do meu trabalho. Era mais em conta. Comprei, aos poucos, as coisinhas do bolo dele. Tudo simples, mas feito com amor. Voltei à rotina. Trabalhei, cuidei da casa, fui juntando o que dava. Meu coração já estava no dia seguinte. No outro dia, o dia do aniversário do Daniel, peguei folga no serviço. Acordei cedo e fiz o bolo. Não era grande, não era caro, mas era dele. Arrumei tudo do meu jeito simples, do jeito que sempre fiz para meus filhos. Jorge não chegou cedo — ele nunca gostou de aniversário. Daniel estava feliz. Todo bobo, falante como sempre. A prima dele estava em casa. Jantamos juntos. Depois, cantamos parabéns. Para o Daniel, aquilo já estava bom. Ele sorria como quem se sentia visto. Mas eu ainda tinha uma surpresa. Entreguei a camisa. Ele pegou, vestiu na hora, se olhou, me abraçou forte e agradeceu. Ficou todo sorridente. As crianças começaram a brincar, fizeram bagunça pela casa. Eu ainda não tinha passado o pano no chão, mas deixei. Era o aniversário do irmão. Foi aí que perdi a noção do tempo. Jorge chegou. Entrou olhando o chão, olhando tudo. As crianças acordadas, fazendo a maior farra. Olhou para a mesa, viu o bolo. Só ali percebeu que era aniversário de alguém — mas nem lembrava de quem. Daniel foi até a geladeira, pegou um refrigerante e colocou no copo para beber. Foi quando Jorge disse, com a voz dura: — Comer é uma maravilha, né? O Daniel murchou na hora. O sorriso caiu. Jorge olhou para a pia e reclamou: — Por que isso tá assim? Eu respondi com calma: — As crianças estão comemorando o aniversário do irmão, mas já vão dormir. Eu limpo depois. — Coloca ele pra limpar — ele disse. — Isso é por causa dele. — Não — eu falei. — Eu mesma limpo. Daniel, tentando evitar confusão, falou baixo: — Eu lavo, mãe. Pra ajudar a senhora, sem problema. Foi quando Jorge virou pra trás e puxou o Daniel com tanta força que rasgou a blusa nova dele. O silêncio caiu sobre a casa. E naquele instante, eu soube: não era só um aniversário que tinha sido quebrado.
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