A madrugada passou em silêncio.
Daniel ficou bem durante a noite. soro pingava devagar, e eu fiquei ali com ele, sem fechar os olhos. Cada respiração dele era um alívio. Ainda assim, havia algo estranho no ar. Os médicos pareciam distantes, como se não quisessem se envolver. Atendiam, mas evitavam. lhavam rápido. Saíam rápido.
Daniel dizia que queria ir embora.
Eu hesitei.
Ele ainda estava no soro, fraco, ferido. Eu não o levei. Hoje sei: deveria ter levado.
Pela manhã, um policial apareceu.
Tirou fotos de Daniel. Registrou um boletim. Disse que eu precisava ir à delegacia com meu filho para assinar os papéis. Falou com calma, como se fosse procedimento comum.Quando chegamos à delegacia, tudo mudou. Eles prenderam Daniel. Levaram meu filho baleado para um quartinho fechado. Separaram ele de mim.
Eu fiquei do lado de fora.
Daniel precisava de cuidado. Precisava de mim. Precisava de atenção médica. Mas fui impedida de chegar perto.
Eles me privaram de cuidar do meu filho,
A dor daquela separação foi diferente de tudo que eu já tinha sentido. Não era só medo. Era injustiça. Era impotência. Era ver um filho ferido sendo tratado como culpado.
Eu clamei.
Não em voz alta. Por dentro.
Senhor, não deixa terminar aqui.
Eu não sabia quanto tempo ele ficaria ali,Eu não sabia quanto tempo ele ficaria ali. Não sabia o que fariam com ele. Não sabia como protegê-lo naquele lugar.
Mas eu sabia de uma coisa: se Deus tinha salvado Daniel da morte, não seria para abandoná-lo agora.
E, mesmo separada, continuei orando.Eu fiquei ali, do lado de fora da delegacia.
○ coração apertado, as mãos frias, a mente acelerada. Meu filho estava preso, baleado, precisando de cuidados - e agora estava sob custódia do Estado. Aquilo soava grande demais para um menino ferido numa maca poucas horas antes.
Eu perguntava. Ninguém respondia.
Daniel era menor de idade. Não era
procedimento comum. Não era polícia comum que deveria conduzir aquilo. Ainda assim, eles se movimentavam rápido, cochichavam, organizavam papéis e rotas como quem prepara algo que não quer explicar.
Eles falavam em transferência.
Transferir para onde? Por quê? Em que condições?
Meu medo aumentava porque nada fazia sentido. Não havia urgência médica naquele momento para justificar aquilo. Não havia clareza legal. Havia apenas pressa.
E quando há pressa sem explicação, há intenção.
Eu senti.
Os policiais estavam armando algo. Não era cuidado. Não era protocolo. Era outra coisa algo que eu ainda não conseguia nomear, mas que meu espírito reconhecia como perigo.
Meu filho estava vulnerável.
Baleado. Fraco. Isolado.
Eu tentei me aproximar. Fui barrada.
Ele está sob custódia do Estado - repetiam.Eu olhei ao redor procurando ajuda e não encontrei. Nenhum rosto amigo. Nenhuma explicação justa.
Então fiz a única coisa que ainda podia fazer
Entreguei tudo a Deus
- Senhor, revela o que eles querem de verdade.
Eu não sabia, mas aquela pergunta seria respondida.
E mais uma vez, Deus se levantaria onde ninguém esperava.