Capítulo 2

1330 Words
10 anos depois… Naquele ano, Ciara finalmente voltou. Depois de uma década vivendo escondida, mudando de cidade sempre que achava necessário, sempre observando quem entrava e quem saía dos lugares, ela estava novamente no território da própria família. O território dos Bórgia. O lugar que um dia foi sua casa. Seu irmão agora era o chefe. Quando o pai morreu, Damien assumiu tudo. E de uma coisa Adrian tinha se enganado naquela noite: o clã Bórgia não tinha sido totalmente destruído. O que restou foi pouco, mas Damien conseguiu reerguer cada pedaço. Agora a família existia novamente. E, depois de todos esses anos, ele decidiu chamá-la de volta. Ciara ainda não sabia por quê. Damien nunca fez nada sem um motivo. Ele era diferente do pai. Killian era c***l, mas ainda havia algo previsível nele. Damien era mais frio. Mais calculista. Mais paciente. O tipo de homem que esperava anos para fazer um movimento. Durante aquela década Ciara viveu sozinha. Não passou fome, nem precisou implorar por ajuda. O dinheiro que levou quando fugiu garantiu que ela pudesse recomeçar em silêncio, longe do alcance da família e dos inimigos. Mesmo assim, viver sozinha não foi fácil. Dinheiro compra segurança, mas não compra paz. Ela aprendeu a confiar em poucas pessoas. Aprendeu a observar antes de falar. Aprendeu a esconder emoções. E, principalmente, aprendeu a não ser mais aquela adolescente assustada. O vento bagunçou seus cabelos pretos, e ela levou a mão até eles para ajeitar os fios. Em seguida ajustou os óculos escuros no rosto. Usava uma saia justa que terminava logo abaixo do joelho e uma camisa branca com babados discretos. A roupa era elegante, mas criava uma barreira silenciosa entre ela e o mundo. A chuva fina caía sem pressa. Um dos homens de Damien esperava ao lado do carro com uma sombrinha preta. Quando Ciara saiu do veículo, ele se aproximou imediatamente e ergueu a sombrinha sobre sua cabeça. Ela ergueu os olhos e observou a nova casa da família. Não era mais a antiga mansão. A construção diante dela era moderna, feita de vidro escuro e concreto, com linhas retas e frias. Nada ali lembrava conforto. Aquilo parecia mais uma fortaleza do que uma casa. — Senhorita Ciara, seu irmão a espera. Ela assentiu. O homem começou a caminhar, e Ciara o seguiu em silêncio. O som do salto dela batendo contra o chão de pedra ecoava pelo pátio. Era o único ruído além da chuva tocando o vidro da casa. Quando chegaram a uma grande porta de madeira escura, o homem bateu duas vezes. Alguns segundos depois, uma voz masculina respondeu do outro lado. Grave. Calma. Fria. — Entre. Ciara respirou fundo antes de empurrar a porta. A sala era ampla e pouco iluminada. A luz suave vinha de uma grande janela atrás da poltrona onde Damien estava sentado. Ele não tinha mudado muito. A família Bórgia sempre teve uma beleza marcante. Não era uma beleza gentil. Era algo mais perigoso, algo que fazia as pessoas olharem duas vezes. Damien carregava exatamente isso. Cabelos escuros, traços fortes, postura relaxada demais para um homem que comandava uma organização criminosa inteira. Havia algo nele que lembrava um predador descansando. Os olhos castanhos dele percorreram o corpo da irmã com calma. Sem pressa. Sem emoção visível. Então ele falou. — Você cresceu, irmã. Não é mais aquela garotinha que tremia por qualquer coisa. Ciara caminhou até a poltrona em frente a ele e se sentou. Cruzou as pernas devagar. Seu coração batia um pouco mais rápido, mas por fora ela permaneceu tranquila. — Você deve estar curiosa para saber por que eu te chamei. — Sim — respondeu ela. — Achei que você já tinha esquecido que tinha uma irmã. Damien sorriu. Mas aquele sorriso não tinha calor nenhum. Era o tipo de sorriso que aparecia quando alguém lembrava de algo inconveniente. — Ciara, não me faça lembrar que você fugiu levando os documentos da família. As contas. Os registros. E uma boa parte do dinheiro. As palavras dele vieram calmas, mas carregadas de peso. Ciara sentiu os ombros ficarem tensos. — Eu precisei sobreviver. Damien ergueu uma sobrancelha. — E sobreviveu muito bem, pelo que vejo. Por um instante, Ciara pensou em responder. Em lembrar ao irmão que ela tinha salvado parte do patrimônio da família antes da queda. Mas permaneceu em silêncio. Discutir com Damien nunca foi uma boa ideia. Ele pegou uma pasta que estava sobre a mesa ao lado da poltrona e a jogou na direção dela. A pasta caiu em seu colo. — O que significa isso? Damien se inclinou um pouco para frente. — Serei breve, Ciara. Depois de anos vivendo como se nossa família não fizesse parte de você, chegou a hora de retribuir. O olhar dele ficou mais duro. — E isso não é uma opção. Ciara abriu a pasta. Dentro havia documentos novos. Identidade. Registros. Papéis oficiais. No topo estava uma foto dela. Mas o nome escrito embaixo não era o seu. Amaya Sturt. O estômago dela se contraiu. — Você quer que eu seja essa mulher? — perguntou, erguendo os olhos para o irmão. — Para quê? Damien respondeu como se estivesse explicando algo simples. — Você vai se candidatar a uma vaga no governo. Ciara franziu a testa. — E vai trabalhar como secretária do novo chefe da divisão de crimes do país. O corpo dela ficou rígido. Damien continuou falando com a mesma calma. — Você deve conhecer bem esse homem. Graças a ele, você passou dez anos escondida enquanto nossa família era destruída. Ele fez uma pequena pausa. — Adrian Belik. O nome caiu na sala como um golpe. Os dedos de Ciara apertaram a borda da pasta. O coração bateu mais forte dentro do peito. Adrian. O garoto de dez anos atrás. O homem que tinha acabado com sua família. A lembrança veio rápida demais. Os olhos dele. O modo como ele observava tudo. O momento em que tudo começou a desmoronar. — Irmão… esse homem… eu… As palavras ficaram presas na garganta. Ela lembrava muito bem de Adrian. E se ele já era perigoso naquela época, agora devia ser muito pior. Um homem treinado para destruir. Um homem que odiava tudo que os Bórgia representavam. Damien observava cada reação dela. — Ciara, você não tem escolha. Ele apoiou o braço na poltrona. — Então comece a aceitar. Os olhos dele desceram lentamente pelo corpo dela. — Você estudou no exterior. Isso ajuda. E esse rosto bonito… O sorriso dele voltou. — Nenhum homem vai recusar. Ciara apertou a saia sobre as coxas. As unhas cravaram no tecido com força. Uma tensão quente percorreu seu corpo. Raiva. Medo. E uma memória antiga que ela preferia não revisitar. — E se ele lembrar de mim? — perguntou ela, quase em um sussurro. Damien soltou um leve riso. — O que aconteceu foi há dez anos. Ele inclinou a cabeça. — Não se sinta tão importante assim a ponto de alguém lembrar de você. Ciara ficou em silêncio. Talvez ele estivesse certo. Dez anos mudavam tudo. Ela não era mais a garota de antes. Adrian também não seria o mesmo homem. Mesmo assim, a ideia de ficar perto dele fazia seu corpo ficar tenso. Como se o passado estivesse prestes a abrir uma ferida antiga. — O que eu ganho fazendo isso, irmão? Damien se levantou da poltrona. Caminhou lentamente até ela. Parou bem perto. Perto o suficiente para que ela sentisse o perfume frio dele. Perto o suficiente para lembrar que Damien nunca foi apenas seu irmão. Ele era o chefe da família. E chefes não faziam pedidos. — Sua vida, Ciara. Ela ergueu os olhos para ele. — Porque a única coisa que pode te proteger agora… Ele inclinou um pouco o rosto, encarando-a diretamente. — é isso. E, pela primeira vez desde que entrou naquela casa, Ciara percebeu algo com clareza. Ela não tinha voltado para casa. Ela tinha voltado para uma armadilha.
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