Capítulo 3

1503 Words
— Amaya Sturt… Ciara levou alguns segundos para perceber que estavam chamando por ela. O nome ainda soava estranho em seus ouvidos. Amaya Sturt. Artificial. Frio. Um nome que não parecia pertencer a ela, mas que agora precisava usar como se fosse sua própria pele. Ela respirou fundo antes de se levantar. Ajeitou a saia preta justa que descia até os joelhos, alisando o tecido com cuidado. O salto escarpim de solado vermelho marcava cada passo no chão de mármore do corredor, um som firme e ritmado que ecoava no silêncio pesado do lugar. As outras candidatas estavam ali. Mais de vinte mulheres esperando pela mesma vaga no governo. Algumas conversavam em voz baixa, outras mantinham os olhos presos no celular, mas quase todas ergueram o olhar quando Ciara passou. Olhares avaliando. Comparando. Ciara manteve a postura ereta enquanto caminhava até a porta indicada. Sabia que aquelas mulheres também eram inteligentes, preparadas e ambiciosas. Muitas provavelmente sonhavam com aquela oportunidade há anos. No fundo da mente, uma pergunta insistia. Como o irmão dela tinha tanta certeza de que ela seria escolhida? Ela sabia que era esperta, bonita e disciplinada, mas aquelas mulheres também pareciam ser. Talvez até melhores. Ciara soltou um suspiro discreto quando entrou na sala. O espaço era amplo, porém quase vazio. Havia uma mesa grande de madeira escura, duas cadeiras diante dela e uma estante simples encostada na parede. Nada decorativo, nada que chamasse atenção. O ambiente parecia ter sido criado apenas para uma coisa: avaliar pessoas. E descartá-las. Um homem estava sentado atrás da mesa. Ele escrevia algo em um papel com calma, sem sequer levantar a cabeça quando ela entrou. Ciara caminhou até a cadeira diante dele e se sentou. Esperou. O silêncio na sala era denso, pesado. O homem terminou de escrever, apoiou a caneta e finalmente levantou os olhos. Ele parou por um segundo. A surpresa foi breve, mas clara. — Senhorita Amaya… vejo que seu currículo é excelente. Faculdade em Harvard. Entre as melhores alunas. Ciara sorriu com naturalidade. Aquilo não era mentira. Desde criança ela tinha facilidade para estudar. Aprendia rápido, absorvia informações com facilidade e sempre se destacava nas provas. — Sim. Está correto. O homem voltou a olhar os papéis à sua frente. Folheou algumas páginas com atenção, analisando cada detalhe. Então parou em um ponto específico. — Aqui diz que você é órfã. O estômago de Ciara se contraiu. Ela mordeu o lábio inferior por um instante, tentando parecer apenas pensativa. Por dentro, o corpo inteiro estava em alerta. Ela já tinha ensaiado aquela resposta muitas vezes. Repetido mentalmente até soar natural. Mesmo assim, o medo ainda aparecia. Porque se descobrissem a verdade… Ela iria para a prisão sem direito a condicional. Ou talvez Adrian resolvesse o problema antes. E Adrian não era o tipo de homem que entregava alguém para a justiça. Ela respirou devagar e sustentou o olhar do entrevistador. — Sim. Cresci em um orfanato. O homem levantou levemente a sobrancelha. A dúvida estava ali, evidente. Era compreensível. Uma garota sem família, sem dinheiro, com um currículo como aquele parecia improvável. Mas ele não conhecia o desespero que move alguém que precisa sobreviver. Quando uma pessoa não tem escolha, ela encontra um jeito. — Entendo. Ele virou outra página do currículo. — Mas o que faz você diferente das outras candidatas? Ciara quase riu. A resposta verdadeira surgiu na cabeça dela como um grito. Estou lutando pela minha vida. Se eu não conseguir essa vaga, meu irmão psicopata vai me matar. Mas ela não disse nada disso. Em vez disso, abriu um sorriso suave, calmo, treinado. Mostrou os dentes brancos e perfeitamente alinhados. — Espero poder ajudar o governo no que for possível. Principalmente no combate à corrupção, às gangues que mancham nosso país e às famílias mafiosas que crescem como ervas daninhas. O homem a observou por alguns segundos. Dessa vez havia algo diferente no olhar dele. Um tipo de admiração cautelosa. Ciara sabia que aquele era um dos maiores problemas do país naquele momento. As organizações criminosas estavam se espalhando como uma doença difícil de controlar. E Adrian era um dos homens que lideravam a tentativa de esmagá-las. — Entendo. Ele fechou a pasta lentamente. — A entrevista termina aqui. Entraremos em contato, senhorita. Ciara se levantou. Estendeu a mão para ele. — Foi um prazer. O homem apertou a mão dela com firmeza. — Igualmente. Ciara saiu da sala com o coração acelerado. Cada passo parecia mais pesado que o anterior. As mulheres que aguardavam no corredor levantaram os olhos imediatamente quando ela apareceu. Algumas estavam tensas, outras curiosas, mas todas queriam entender o que tinha acontecido lá dentro. A tensão naquele corredor era quase palpável. Porque ali apenas uma seria escolhida. Ciara seguiu caminhando sem olhar para trás. Quando saiu do prédio, ergueu o rosto para o céu e soltou um longo suspiro. O ar parecia mais leve do lado de fora. Finalmente. Ela pegou o celular e enviou uma mensagem rápida para o irmão. “Entrevista feita. Agora é esperar.” Assim que a mensagem foi enviada, ela retirou o chip do aparelho. Observou o pequeno pedaço de plástico por um instante antes de jogá-lo no lixo mais próximo. Naquele momento, Ciara não existia mais. Agora ela era Amaya. Ela caminhou até o carro, abriu a porta e entrou. Assim que fechou, deixou a cabeça cair contra o volante. O corpo ainda tremia. A entrevista tinha acabado, mas a tensão ainda corria dentro dela como eletricidade. Se apenas aquela conversa já a deixava assim, como seria quando tivesse que encarar Adrian pessoalmente? O pensamento fez o estômago dela se revirar. A imagem daqueles olhos escuros surgiu na mente com uma nitidez incômoda. Um olhar frio, atento, capaz de atravessar qualquer mentira. Ela odiava aquele homem. Odiava com cada parte do corpo. Adrian tinha tirado tudo dela. Tirou o pai. Tirou a casa. Tirou a vida que ela tinha. Quando tinha quinze anos precisou fugir do país com a ajuda de antigos conhecidos do pai. Pessoas que ainda respeitavam o nome dele o suficiente para protegê-la. Se não fosse por isso, talvez estivesse morta. Agora o destino parecia zombar dela. Porque estava voltando. E voltava justamente para trabalhar ao lado dele. Secretária. Uma mulher que deveria ser confiável. Só de imaginar aquilo, a náusea subiu pela garganta. Ela fechou os olhos com força e respirou fundo. — Isso vai acabar… — murmurou para si mesma. Três anos. Esse era o acordo. Três anos trabalhando ali dentro e passando informações para o irmão. Três anos observando Adrian de perto. Se fizesse tudo certo, estaria livre. Poderia ir embora. Poderia desaparecer. Talvez até conseguir a paz que sempre quis. Uma batida no vidro do carro a fez erguer a cabeça. Do lado de fora havia um homem de terno segurando uma pasta preta. Ciara abaixou o vidro devagar. — Senhorita Amaya? — Sim. — O comandante mandou entregar isto. Parabéns. Você foi escolhida. Ciara piscou, surpresa. Por um instante pensou que tinha entendido errado. — Desculpe… como assim? Mas o homem apenas estendeu a pasta para ela. — Bem-vinda à equipe. Ela pegou o objeto automaticamente. Quando levantou o olhar novamente, o homem já estava se afastando. Simples assim. Sem explicação. Sem cerimônia. Ciara ficou parada dentro do carro por alguns segundos. Confusa. Rápido demais. Ela tinha acabado de sair da entrevista. Havia mais de vinte candidatas esperando no corredor. Como aquilo já estava decidido? Um arrepio percorreu sua espinha. Mesmo assim, abriu a pasta. Os documentos estavam organizados com precisão. Orientações, regras e um cronograma detalhado. A primeira informação chamou atenção imediatamente. Ela teria um alojamento dentro da sede. Moraria ali. Ciara franziu a testa e continuou lendo. Os horários eram rígidos. Entrada cedo, saída controlada e regras claras sobre circulação fora do prédio. Nada de ficar fora após as dez da noite. Aquilo parecia menos um trabalho e mais uma prisão. Ela virou outra página. No final do documento havia uma frase destacada em letras grandes. Respeitar a hierarquia acima de tudo. Ciara fechou a pasta devagar e a jogou no banco do passageiro. A missão tinha começado. Agora cada passo dela naquele lugar seria observado. Cada palavra, cada gesto. E tudo que descobrisse sobre Adrian iria direto para o irmão. Três anos. Ela só precisava sobreviver por três anos. Ciara passou a mão pelo rosto e soltou um suspiro cansado. A única coisa que sempre quis na vida foi paz. Uma vida simples, longe de problemas. Mas agora entendia que isso era impossível. Porque havia algo que o irmão dela não sabia. Um detalhe que mudava tudo. O homem que ele queria que ela espionasse não era apenas perigoso. Adrian era algo muito pior. Ele tinha o tipo de poder que destruía vidas sem esforço. E, no fundo, Ciara sabia exatamente quem ele era. O homem que havia arruinado tudo. O homem que ela odiava. O homem que agora controlaria cada minuto da vida dela. Adrian era o próprio demônio usando rosto humano.
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