Capítulo 4

1665 Words
Naquela manhã de começo de verão, Ciara chegou à sede do governo. Era ali que o centro do poder vivia e respirava. Um lugar que parecia pulsar com vigilância, regras rígidas e decisões capazes de destruir vidas. O complexo era tão grande que parecia uma cidade. Para chegar até o alojamento destinado a ela, precisou atravessar parte da área de carro. Prédios altos se alinhavam em filas perfeitas, ruas internas cortavam o terreno como veias de concreto e soldados armados caminhavam por todos os lados. Tudo era organizado demais. Controlado demais. Quando o carro parou diante do prédio do alojamento, Ciara pegou sua mala e desceu. Observou o edifício por alguns segundos. Cinza. Frio. Sem nenhuma personalidade. Respirou fundo e entrou. O apartamento ficava no segundo andar. O corredor estava silencioso quando ela chegou. Apenas o eco leve de seus saltos quebrava o silêncio. Ciara parou diante da porta, colocou a mala no chão e tentou abrir a fechadura. A chave não entrou. Ela tentou de novo. Nada. As mãos estavam levemente trêmulas, e aquilo só piorava a situação. Quando já começava a perder a paciência, a porta do apartamento ao lado se abriu. Um homem saiu. Assim que a viu, abriu um sorriso fácil. Ciara tentou mais uma vez encaixar a chave, mas ela escapou de seus dedos. O homem se aproximou e pegou a chave com naturalidade. — Deixa que eu te ajudo. Ela levantou o olhar. Ele era alto e usava farda, mas sem nenhuma medalha no peito. Provavelmente um cadete. Os cabelos castanhos estavam bem penteados e o rosto tinha aquela expressão tranquila de quem ainda não carregava o peso das responsabilidades maiores. Mas o que realmente chamou atenção foram os olhos. Azuis. Claros demais. Ciara percebeu que estava olhando por tempo demais. Quando voltou a si, ele já tinha aberto a porta. O calor subiu ao rosto dela. — Muito obrigada. Ele sorriu de novo e estendeu a mão. — Prazer. Me chamo Rian. Por um segundo, Ciara hesitou antes de responder. — Amaya. Ele apertou a mão dela com firmeza. O gesto foi rápido, mas quando soltou, o olhar dele desceu lentamente pelo corpo dela. Da cabeça aos pés. Aquilo a deixou desconfortável. Ela sempre acreditou que aquele alojamento era apenas para mulheres. Não fazia sentido um homem estar ali. Talvez a dúvida tenha aparecido em seu rosto, porque Rian soltou uma pequena risada. — Estou aqui só para consertar o aquecedor. Como não tinha ninguém disponível, me mandaram. Esse alojamento é exclusivamente feminino. Ciara assentiu. — Entendi. Mais uma vez, obrigada. Ela pegou a mala e entrou no apartamento. Antes de fechar a porta, percebeu que Rian ainda estava olhando para ela. Não era exatamente um olhar invasivo. Parecia mais curiosidade. Talvez algo a mais. Mas ele apenas acenou e seguiu pelo corredor. Quando a porta se fechou, o silêncio tomou conta do lugar. O apartamento era pequeno e simples. Tudo em tons de cinza. Sofá cinza, mesa cinza, paredes cinza. A decoração era tão neutra que parecia apagar qualquer sensação de vida. Ciara caminhou devagar pelo espaço. Havia algo melancólico ali. Como se ninguém realmente vivesse naquele lugar. Ela foi até o quarto. A cama era grande e o guarda-roupa ocupava quase toda a parede. Nada de especial. Abriu a mala e começou a guardar suas roupas. Dobrou cada peça com cuidado, tentando manter a mente ocupada. Quando terminou, fechou o armário e soltou um suspiro baixo. Precisava de ar. Foi até a pequena sacada. Lá embaixo, a sede do governo estava em movimento constante. Homens de farda caminhavam para todos os lados. Armas presas ao corpo. Olhares atentos. A visão fez algo apertar dentro do peito dela. O ar pareceu mais pesado. A respiração encurtou. O coração começou a bater rápido. Não. Não agora. Ciara conhecia aquela sensação. Pânico. Anos de tratamento tinham ajudado, mas as marcas daquele dia nunca desapareceram completamente. O dia em que sua casa foi destruída. O dia em que tudo que ela conhecia deixou de existir. Ela se afastou da sacada e voltou para dentro do apartamento. Fechou os olhos. Inspirou devagar. Contou até três. Soltou o ar pela boca. Repetiu o processo algumas vezes até o peito parar de apertar. Talvez um banho ajudasse. Ciara foi até o banheiro. Assim como o resto do apartamento, tudo ali era cinza. Frio. Impessoal. Tirou a roupa e entrou debaixo do chuveiro. A água quente escorreu pelos ombros e pelas costas. Ficou ali por alguns minutos, deixando o calor aliviar a tensão que ainda permanecia no corpo. Quando saiu, se sentia melhor. Pegou a toalha e começou a secar o cabelo. Foi então que o celular tocou. Ciara franziu a testa. Era um número novo. Na verdade, aquele telefone era novo. Apenas o serviço tinha acesso. Ela atendeu. — Alô. A voz do outro lado era formal. — Senhorita Amaya, o chefe espera você na sala dele. Ciara quase deixou o celular cair. — Agora? — Sim. O coração dela acelerou. Era para começar apenas no dia seguinte. O que tinha acontecido? Mas reclamar não era uma opção. Ela precisava obedecer. — Estarei aí em vinte minutos. Desligou e ficou alguns segundos parada. Precisava se preparar. Não apenas por fora. Principalmente por dentro. Ciara abriu o guarda-roupa e escolheu um conjunto moderno de alfaiataria. Vestiu o blazer, ajeitou a saia e calçou o escarpim. Fez uma maquiagem leve diante do espelho e prendeu o cabelo em um coque firme. Por último, pegou a bolsa. Quando chegou ao térreo, um carro já a esperava. O motorista abriu a porta. — Senhorita Amaya. Meu nome é Alberto. Sou responsável pela sua locomoção aqui dentro. Ela assentiu e entrou no carro. Durante o trajeto, ficou em silêncio. Agora tinha chegado a hora. Adrian. Os dedos dela apertaram a alça da bolsa com força. Quando o carro parou diante do prédio principal, Ciara demorou um segundo para sair. Se pudesse fugir… Mas para onde? Ali dentro, qualquer passo em falso poderia levá-la para a prisão. Ou algo pior. Ela saiu do carro e começou a caminhar. Alguns homens de farda olharam para ela com curiosidade, mas Ciara manteve a cabeça erguida. Quando entrou no prédio principal, quase perdeu o fôlego. O lugar era enorme. Olhou o relógio. Tinha menos de três minutos. Correu até o elevador e apertou o botão. O tempo parecia andar devagar demais. Ela começou a bater o salto no chão, nervosa. Finalmente as portas se abriram. Ciara entrou e apertou o botão do último andar. Quando saiu do elevador, caminhou pelo corredor com passos rápidos. Uma atendente levantou o olhar e sorriu. — Você deve ser a senhora Amaya. O comandante está esperando. Ciara assentiu. Antes de seguir, ajeitou a roupa uma última vez. Então caminhou até a porta. Bateu duas vezes. Uma voz grave veio de dentro. — Entre. O som percorreu a espinha dela como um arrepio. Ciara abriu a porta. A sala era ampla e imponente. No centro, atrás da mesa, estava ele. Adrian. A farda estava perfeitamente alinhada ao corpo. Diferente dos outros militares que ela tinha visto, o peito dele estava coberto de medalhas. Cada uma representava poder. Autoridade. Controle. — Comandante — disse ela, mantendo a voz firme. — Sou sua nova secretária. Amaya Stuart. Quando ele levantou a cabeça para olhá-la, algo dentro dela se contraiu. A mesma sensação daquele dia no sótão. Os olhos escuros dele pareciam atravessar tudo. Como se procurassem algo escondido sob a pele dela. O silêncio se estendeu por alguns segundos. — Sente-se, senhorita. Ciara obedeceu e cruzou as pernas diante da mesa. Sentiu o olhar dele percorrer seu corpo com calma. Frio. Avaliador. Como se estivesse analisando cada detalhe. — Você está um minuto atrasada. Ela respirou fundo. — Me desculpe, comandante. Fui avisada em cima da hora sobre— Ele a interrompeu. — Senhorita Stuart, aqui existe uma regra simples. Eu não aceito atrasos. A voz dele era baixa. Controlada. — Você foi escolhida entre muitas candidatas. Imagino que existam várias pessoas interessadas em ocupar o seu lugar. Ciara ficou em silêncio. Por algum motivo, tinha a sensação de que Adrian já não gostava dela. — Mas vamos ao trabalho — continuou ele. — Há muita papelada acumulada. Quero tudo organizado antes das oito. Ela olhou rapidamente para a pilha de documentos sobre a mesa lateral. Aquilo era impossível. Mesmo assim respondeu: — Farei o meu melhor. O olhar dele endureceu. — Eu não quero o seu melhor. Quero o trabalho pronto. Ela segurou a resposta que quase escapou. — E mais uma coisa — continuou Adrian. — Aqui dentro não permitimos relacionamentos entre os membros da sede. Ciara ergueu uma sobrancelha. O que exatamente ele queria dizer com aquilo? — Pode ir. Ela se levantou e saiu da sala. A quantidade de documentos era absurda. Começou a trabalhar o mais rápido que podia. Relatórios, assinaturas, arquivos antigos. As horas passaram. Quando deu oito da noite, Adrian saiu da sala. Parou ao lado da mesa dela. — Terminou? Ciara levantou os olhos. — Não, comandante. O restante ficará para amanhã. O olhar dele ficou mais frio. — Senhorita Stuart, o que eu disse mais cedo? Ela apertou os papéis nas mãos. — O senhor disse que precisava para hoje. — Exatamente. Ele inclinou a cabeça. — Então você só sairá daqui quando terminar. A raiva subiu rápido dentro dela. Ciara levantou o olhar e o encarou. Adrian percebeu. E sorriu. — Quer dizer alguma coisa? Ela respirou fundo. — Não, comandante. Vou terminar o que o senhor pediu. — Ótimo. Ele virou as costas e saiu da sala. Ciara observou a porta se fechar. A vontade de atravessar a mesa e socar aquele rosto arrogante era quase irresistível. Ela voltou aos papéis. Três anos. Três anos trabalhando diretamente para aquele homem. Ciara apertou os documentos com força. E pela primeira vez desde que chegou àquela sede, teve certeza de uma coisa. Aquilo não seria apenas difícil. Seria uma guerra.
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