Naquela manhã de começo de verão, Ciara chegou à sede do governo. Era ali que o centro do poder vivia e respirava. Um lugar que parecia pulsar com vigilância, regras rígidas e decisões capazes de destruir vidas.
O complexo era tão grande que parecia uma cidade. Para chegar até o alojamento destinado a ela, precisou atravessar parte da área de carro. Prédios altos se alinhavam em filas perfeitas, ruas internas cortavam o terreno como veias de concreto e soldados armados caminhavam por todos os lados.
Tudo era organizado demais.
Controlado demais.
Quando o carro parou diante do prédio do alojamento, Ciara pegou sua mala e desceu. Observou o edifício por alguns segundos. Cinza. Frio. Sem nenhuma personalidade.
Respirou fundo e entrou.
O apartamento ficava no segundo andar. O corredor estava silencioso quando ela chegou. Apenas o eco leve de seus saltos quebrava o silêncio.
Ciara parou diante da porta, colocou a mala no chão e tentou abrir a fechadura.
A chave não entrou.
Ela tentou de novo.
Nada.
As mãos estavam levemente trêmulas, e aquilo só piorava a situação. Quando já começava a perder a paciência, a porta do apartamento ao lado se abriu.
Um homem saiu.
Assim que a viu, abriu um sorriso fácil.
Ciara tentou mais uma vez encaixar a chave, mas ela escapou de seus dedos. O homem se aproximou e pegou a chave com naturalidade.
— Deixa que eu te ajudo.
Ela levantou o olhar.
Ele era alto e usava farda, mas sem nenhuma medalha no peito. Provavelmente um cadete. Os cabelos castanhos estavam bem penteados e o rosto tinha aquela expressão tranquila de quem ainda não carregava o peso das responsabilidades maiores.
Mas o que realmente chamou atenção foram os olhos.
Azuis.
Claros demais.
Ciara percebeu que estava olhando por tempo demais.
Quando voltou a si, ele já tinha aberto a porta.
O calor subiu ao rosto dela.
— Muito obrigada.
Ele sorriu de novo e estendeu a mão.
— Prazer. Me chamo Rian.
Por um segundo, Ciara hesitou antes de responder.
— Amaya.
Ele apertou a mão dela com firmeza. O gesto foi rápido, mas quando soltou, o olhar dele desceu lentamente pelo corpo dela. Da cabeça aos pés.
Aquilo a deixou desconfortável.
Ela sempre acreditou que aquele alojamento era apenas para mulheres. Não fazia sentido um homem estar ali.
Talvez a dúvida tenha aparecido em seu rosto, porque Rian soltou uma pequena risada.
— Estou aqui só para consertar o aquecedor. Como não tinha ninguém disponível, me mandaram. Esse alojamento é exclusivamente feminino.
Ciara assentiu.
— Entendi. Mais uma vez, obrigada.
Ela pegou a mala e entrou no apartamento. Antes de fechar a porta, percebeu que Rian ainda estava olhando para ela. Não era exatamente um olhar invasivo. Parecia mais curiosidade.
Talvez algo a mais.
Mas ele apenas acenou e seguiu pelo corredor.
Quando a porta se fechou, o silêncio tomou conta do lugar.
O apartamento era pequeno e simples. Tudo em tons de cinza. Sofá cinza, mesa cinza, paredes cinza. A decoração era tão neutra que parecia apagar qualquer sensação de vida.
Ciara caminhou devagar pelo espaço.
Havia algo melancólico ali.
Como se ninguém realmente vivesse naquele lugar.
Ela foi até o quarto. A cama era grande e o guarda-roupa ocupava quase toda a parede. Nada de especial.
Abriu a mala e começou a guardar suas roupas. Dobrou cada peça com cuidado, tentando manter a mente ocupada. Quando terminou, fechou o armário e soltou um suspiro baixo.
Precisava de ar.
Foi até a pequena sacada.
Lá embaixo, a sede do governo estava em movimento constante. Homens de farda caminhavam para todos os lados. Armas presas ao corpo. Olhares atentos.
A visão fez algo apertar dentro do peito dela.
O ar pareceu mais pesado.
A respiração encurtou.
O coração começou a bater rápido.
Não.
Não agora.
Ciara conhecia aquela sensação.
Pânico.
Anos de tratamento tinham ajudado, mas as marcas daquele dia nunca desapareceram completamente. O dia em que sua casa foi destruída. O dia em que tudo que ela conhecia deixou de existir.
Ela se afastou da sacada e voltou para dentro do apartamento.
Fechou os olhos.
Inspirou devagar.
Contou até três.
Soltou o ar pela boca.
Repetiu o processo algumas vezes até o peito parar de apertar.
Talvez um banho ajudasse.
Ciara foi até o banheiro. Assim como o resto do apartamento, tudo ali era cinza. Frio. Impessoal.
Tirou a roupa e entrou debaixo do chuveiro.
A água quente escorreu pelos ombros e pelas costas. Ficou ali por alguns minutos, deixando o calor aliviar a tensão que ainda permanecia no corpo.
Quando saiu, se sentia melhor.
Pegou a toalha e começou a secar o cabelo.
Foi então que o celular tocou.
Ciara franziu a testa. Era um número novo. Na verdade, aquele telefone era novo. Apenas o serviço tinha acesso.
Ela atendeu.
— Alô.
A voz do outro lado era formal.
— Senhorita Amaya, o chefe espera você na sala dele.
Ciara quase deixou o celular cair.
— Agora?
— Sim.
O coração dela acelerou.
Era para começar apenas no dia seguinte.
O que tinha acontecido?
Mas reclamar não era uma opção.
Ela precisava obedecer.
— Estarei aí em vinte minutos.
Desligou e ficou alguns segundos parada.
Precisava se preparar. Não apenas por fora.
Principalmente por dentro.
Ciara abriu o guarda-roupa e escolheu um conjunto moderno de alfaiataria. Vestiu o blazer, ajeitou a saia e calçou o escarpim. Fez uma maquiagem leve diante do espelho e prendeu o cabelo em um coque firme.
Por último, pegou a bolsa.
Quando chegou ao térreo, um carro já a esperava.
O motorista abriu a porta.
— Senhorita Amaya. Meu nome é Alberto. Sou responsável pela sua locomoção aqui dentro.
Ela assentiu e entrou no carro.
Durante o trajeto, ficou em silêncio.
Agora tinha chegado a hora.
Adrian.
Os dedos dela apertaram a alça da bolsa com força.
Quando o carro parou diante do prédio principal, Ciara demorou um segundo para sair.
Se pudesse fugir…
Mas para onde?
Ali dentro, qualquer passo em falso poderia levá-la para a prisão.
Ou algo pior.
Ela saiu do carro e começou a caminhar. Alguns homens de farda olharam para ela com curiosidade, mas Ciara manteve a cabeça erguida.
Quando entrou no prédio principal, quase perdeu o fôlego.
O lugar era enorme.
Olhou o relógio.
Tinha menos de três minutos.
Correu até o elevador e apertou o botão. O tempo parecia andar devagar demais. Ela começou a bater o salto no chão, nervosa.
Finalmente as portas se abriram.
Ciara entrou e apertou o botão do último andar.
Quando saiu do elevador, caminhou pelo corredor com passos rápidos. Uma atendente levantou o olhar e sorriu.
— Você deve ser a senhora Amaya. O comandante está esperando.
Ciara assentiu.
Antes de seguir, ajeitou a roupa uma última vez.
Então caminhou até a porta.
Bateu duas vezes.
Uma voz grave veio de dentro.
— Entre.
O som percorreu a espinha dela como um arrepio.
Ciara abriu a porta.
A sala era ampla e imponente. No centro, atrás da mesa, estava ele.
Adrian.
A farda estava perfeitamente alinhada ao corpo. Diferente dos outros militares que ela tinha visto, o peito dele estava coberto de medalhas.
Cada uma representava poder.
Autoridade.
Controle.
— Comandante — disse ela, mantendo a voz firme. — Sou sua nova secretária. Amaya Stuart.
Quando ele levantou a cabeça para olhá-la, algo dentro dela se contraiu.
A mesma sensação daquele dia no sótão.
Os olhos escuros dele pareciam atravessar tudo. Como se procurassem algo escondido sob a pele dela.
O silêncio se estendeu por alguns segundos.
— Sente-se, senhorita.
Ciara obedeceu e cruzou as pernas diante da mesa.
Sentiu o olhar dele percorrer seu corpo com calma. Frio. Avaliador.
Como se estivesse analisando cada detalhe.
— Você está um minuto atrasada.
Ela respirou fundo.
— Me desculpe, comandante. Fui avisada em cima da hora sobre—
Ele a interrompeu.
— Senhorita Stuart, aqui existe uma regra simples. Eu não aceito atrasos.
A voz dele era baixa. Controlada.
— Você foi escolhida entre muitas candidatas. Imagino que existam várias pessoas interessadas em ocupar o seu lugar.
Ciara ficou em silêncio.
Por algum motivo, tinha a sensação de que Adrian já não gostava dela.
— Mas vamos ao trabalho — continuou ele. — Há muita papelada acumulada. Quero tudo organizado antes das oito.
Ela olhou rapidamente para a pilha de documentos sobre a mesa lateral.
Aquilo era impossível.
Mesmo assim respondeu:
— Farei o meu melhor.
O olhar dele endureceu.
— Eu não quero o seu melhor. Quero o trabalho pronto.
Ela segurou a resposta que quase escapou.
— E mais uma coisa — continuou Adrian. — Aqui dentro não permitimos relacionamentos entre os membros da sede.
Ciara ergueu uma sobrancelha.
O que exatamente ele queria dizer com aquilo?
— Pode ir.
Ela se levantou e saiu da sala.
A quantidade de documentos era absurda. Começou a trabalhar o mais rápido que podia. Relatórios, assinaturas, arquivos antigos.
As horas passaram.
Quando deu oito da noite, Adrian saiu da sala.
Parou ao lado da mesa dela.
— Terminou?
Ciara levantou os olhos.
— Não, comandante. O restante ficará para amanhã.
O olhar dele ficou mais frio.
— Senhorita Stuart, o que eu disse mais cedo?
Ela apertou os papéis nas mãos.
— O senhor disse que precisava para hoje.
— Exatamente.
Ele inclinou a cabeça.
— Então você só sairá daqui quando terminar.
A raiva subiu rápido dentro dela.
Ciara levantou o olhar e o encarou.
Adrian percebeu.
E sorriu.
— Quer dizer alguma coisa?
Ela respirou fundo.
— Não, comandante. Vou terminar o que o senhor pediu.
— Ótimo.
Ele virou as costas e saiu da sala.
Ciara observou a porta se fechar.
A vontade de atravessar a mesa e socar aquele rosto arrogante era quase irresistível.
Ela voltou aos papéis.
Três anos.
Três anos trabalhando diretamente para aquele homem.
Ciara apertou os documentos com força.
E pela primeira vez desde que chegou àquela sede, teve certeza de uma coisa.
Aquilo não seria apenas difícil.
Seria uma guerra.