capítulo 7 — KAELITH

1979 Words
“Eles sabem seu nome.” Aquilo ficou preso em mim de um jeito estranho. Como se não fosse só uma frase. Mas uma marca. O tipo de coisa que você não escuta… e esquece. Você carrega. O sangue no meu braço ainda estava quente, mas não era isso que incomodava. Era a sensação. De ser percebida. De verdade. Não como na aldeia. Não como objeto. Mas como algo que respira e altera o mundo ao redor. E isso era pior. Muito pior. Kaelith estava em silêncio agora. Mas não era o silêncio de antes. Era atenção. Completa. Como se tudo nele estivesse calculando o que viria a seguir. — Então agora eles vão continuar vindo? — perguntei. — Sim. Simples. Direto. Sem conforto. Eu ri baixo, sem humor. — Ótimo. Ele olhou para mim de lado. — Você está ficando irônica em situações de risco. — Acho que isso é evolução. — Isso é sobrevivência. Silêncio. A floresta parecia diferente depois do que aconteceu. Não mais vazia. Não mais neutra. Agora… expectante. Como se estivesse esperando algo se formar. Algo maior. Continuamos andando. Mais fundo. Mais escuro. Mais longe de qualquer coisa que eu pudesse chamar de normal. — Você disse que eles querem me levar — falei depois de um tempo. — Sim. — E se eu não for? Kaelith parou. Só um segundo. Mas o suficiente. — Você não entende o tipo de “não ir” aqui. Eu parei também. — Então me explica direito. Ele virou devagar. E pela primeira vez desde que tudo começou… ele não parecia apenas frio. Parecia cansado. — Quando a floresta escolhe alguém… não é uma opção social. — Então é o quê? — É transformação. A palavra bateu diferente. Mais pesada. Mais real. Eu engoli seco. — Transformação em quê? Ele demorou para responder. E quando respondeu… não olhou diretamente para mim. — Em parte dela. O silêncio depois disso foi estranho. Não vazio. Cheio demais. Eu apertei a mão ao redor da lâmina. — Eu não vou virar parte de nada. Kaelith deu um passo mais perto. — Você não decide isso sozinha. — Eu decido meu corpo. — Não aqui. Aquilo me irritou. Mais do que eu esperava. — Então por que você está me ajudando? Ele não respondeu de imediato. E isso já era resposta demais. — Porque você ainda está inteira — ele disse finalmente. — E isso importa? — Importa pra mim. Silêncio. Aquilo deveria ter soado estranho. Mas não soou. Soou… perigoso. Porque parecia verdadeiro. O vento mudou de novo. Mais frio. Mais baixo. E Kaelith ficou imóvel. — Tem mais vindo — ele disse. Eu respirei fundo. — Quantos “mais”? — Não conte. — Isso não é uma resposta útil. — Não precisa ser útil. Precisa ser rápido. Antes que eu pudesse responder, ouvi. Passos. Mas diferentes dos anteriores. Mais organizados. Mais pesados. Mais… conscientes. Não eram como os primeiros. Não eram como os lobos. E isso era o pior sinal possível. — Kaelith… — minha voz saiu mais baixa. — Eu sei. Eles apareceram devagar. Não cercando ainda. Entrando como se já soubessem o espaço que tinham direito de ocupar. Três. Depois cinco. Depois mais. Eu perdi a conta rápido demais. Mas não perdi o detalhe. Eles não estavam confusos. Estavam certos. Sobre nós. Kaelith ficou na frente de novo. Mas dessa vez… não parecia suficiente. — Eles são diferentes — falei. — Sim. — Mais fortes? — Mais conscientes. Aquilo não ajudou. O primeiro deles falou. A voz mais clara que antes. Mais humana. Quase. — Ela está marcada. Silêncio. Eu senti o olhar dele em mim. Não como antes. Agora era fixo. Direto. Reconhecimento. — Não — eu disse automaticamente. Kaelith não me corrigiu. Isso foi pior. — O ciclo começou — o segundo falou. — Que ciclo? — perguntei. Kaelith finalmente respondeu. — O ciclo deles. Isso não significava nada pra mim. Mas parecia significar tudo pra eles. O grupo começou a se mover. Devagar. Sem pressa. E isso era pior do que ataque. Era certeza. — Kaelith… — eu sussurrei. — Fica atrás de mim. — Eu já tô cansada dessa frase. — Vai ouvir mais. Os primeiros avançaram. Kaelith foi mais rápido do que antes. Mais violento também. Não parecia mais controle. Parecia contenção quebrando. E isso me assustou mais do que qualquer criatura. Um deles veio em mim. Eu reagi. Sem pensar. A lâmina subiu. Errado. Mas suficiente. Ele recuou. Só isso já era… impossível. Eu tremi levemente. — Eu acertei… — murmurei. Kaelith nem olhou. — Não se acostuma. Mas era tarde demais. Outro veio. Mais rápido. Eu consegui desviar. Mas não completamente. Meu braço foi puxado. E pela primeira vez… eu senti de verdade. Força diferente. Não humana. Não animal comum. Algo entre. Kaelith apareceu antes do impacto completar. E arrancou ele de mim com violência. O som que veio depois não foi só luta. Foi aviso. Definitivo. Quando olhei de novo, o grupo já não parecia testar. Parecia decidir. — Eles não vão parar — falei. — Não. — Por quê? Kaelith olhou para mim. E dessa vez… a resposta veio mais pesada. — Porque agora você já foi reconhecida duas vezes. Silêncio. Eu entendi só parcialmente. — Isso significa o quê? Ele hesitou. Só um segundo. Mas eu vi. — Que você não é mais só humana pra eles. O vento passou. E a floresta respondeu junto. Como se concordasse. E pela primeira vez… eu senti algo que não era medo. Era começo. De algo que eu não tinha escolhido… mas já estava dentro de mim. Eu não gostei daquilo. Do “não é mais só humana”. Porque soava como se eu já tivesse perdido algo sem perceber. E eu odeio perder coisas que ainda são minhas. Kaelith estava mais rígido agora. Não só atento. Ele estava… contido. Como se qualquer movimento errado pudesse fazer tudo desabar de uma vez. Os seres ao nosso redor não atacavam ainda. Isso era o pior. Eles estavam esperando. Como se já soubessem o final e só estivessem cumprindo o tempo até ele chegar. — Eles estão te cercando de novo — eu disse. — Eu sei. — E você sempre sabe e ainda assim parece que não muda nada. Ele me lançou um olhar rápido. — Muda. — O quê? — Você ainda está viva. Aquilo me fez travar por meio segundo. Porque não era resposta bonita. Era real. Crua. Incômoda. Outro deles deu um passo à frente. Mais perto do que os outros. Mais… consciente. Os olhos dele não eram vazios. E isso me incomodou profundamente. — Ela está instável — ele disse. Eu franzi a testa. — Instável? Kaelith respondeu antes de mim. — Não fala com ela. Mas o outro continuou olhando. Como se eu fosse algo que ele pudesse entender lendo. — O vínculo não está completo — ele disse. Silêncio. Kaelith ficou imóvel. E isso… isso foi a primeira vez que eu vi ele não reagir imediatamente. Só escutar. Isso não era bom sinal. — Que vínculo? — perguntei. Kaelith fechou os olhos por um instante. Curto. Controlado. Quando abriu de novo, parecia mais frio. — Não responde. Mas ele respondeu tarde demais. O ser já tinha visto minha reação. E isso bastou. — Ela não sabe — disse o outro. — Não precisa saber — Kaelith respondeu. Mas agora o tom dele mudou. Mais baixo. Mais perigoso. O ar ficou pesado. Como se a floresta tivesse prendido o próprio som. — Você está segurando algo incompleto — o ser continuou. — Isso não dura. Eu dei um passo para o lado de Kaelith. Não atrás. Ao lado. Ele percebeu. Eu vi. Mas não comentou. — O que isso significa? — perguntei de novo. Dessa vez mais firme. Kaelith me olhou. E havia algo diferente ali. Não confusão. Não dúvida. Algo mais… antigo. — Não agora. — Kaelith— — Não agora. A voz dele cortou. Não alta. Mas definitiva. E isso me irritou. Mas antes que eu pudesse insistir, os outros começaram a se mover novamente. Mais próximos. Mais sincronizados. E o que antes parecia observação virou decisão. Eles não estavam mais esperando. Estavam vindo. Kaelith reagiu imediatamente. Mas dessa vez… não foi só defesa. Foi algo mais brutal. Mais rápido. Mais… desesperado. E isso me fez engolir seco. — Kaelith… — falei baixo. — Fica comigo. — Eu estou. — Não atrás. — Eu estou DO LADO. Ele olhou rápido. E não discutiu. Isso foi estranho. Muito estranho. O primeiro veio direto. Rápido demais. Kaelith interceptou no meio. O impacto foi forte o suficiente para fazer o chão vibrar. Mas outro já vinha. E outro. E outro. E eu percebi. Isso não era ataque. Era pressão. Eles estavam empurrando ele para quebrar. — Eles querem você fora de posição — eu disse. — Eu sei. — E você ainda está aqui sozinho contra isso?! — Não estou sozinho. Ele disse isso sem olhar pra mim. Mas senti. Não como frase. Como decisão. Eu não sabia o que isso significava exatamente. Mas entendi uma coisa. Ele estava me incluindo nisso. E isso mudava tudo. Um deles passou. Rápido demais. Direto pra mim. Eu reagi. Mas não foi limpo. Foi instinto. A lâmina subiu. Ele desviou parcialmente. Mas não completamente. O impacto me jogou meio passo para trás. E antes que ele avançasse de novo— Kaelith já estava ali. E o que aconteceu depois não parecia mais defesa. Parecia algo quebrando dentro dele. Rápido. Violento. Definitivo. Quando o silêncio voltou por um segundo, o ar estava diferente. Mais pesado. Mais… quente. Eu respirei fundo. — Isso tá ficando fora de controle — eu disse. Kaelith não respondeu imediatamente. Quando respondeu, a voz estava mais baixa. — Já está. Silêncio. Os seres ainda estavam ali. Mas agora hesitavam. E isso foi novo. Eles não estavam mais certos. Isso era importante. O líder deles virou o rosto para mim novamente. E dessa vez… não parecia apenas reconhecimento. Parecia decisão. — Ela foi aceita parcialmente — ele disse. Kaelith deu um passo à frente. — Não. Mas o outro continuou. — Isso não depende de você. Meu estômago apertou. — Kaelith… o que ele quer dizer com isso? Ele não respondeu. E isso foi resposta demais. O grupo começou a recuar lentamente. Não derrota. Não fuga. Processo. E isso me fez sentir pior do que antes. Porque parecia que algo tinha sido decidido. Sem nós. Quando eles desapareceram entre as árvores, o silêncio voltou. Mas agora era diferente. Menos pesado. Mais… observador. Eu olhei para Kaelith. — Eles vão voltar. — Sim. — E da próxima vez? Ele demorou um pouco mais para responder. — Da próxima vez não será pergunta. Aquilo ficou. E eu não gostei de como ficou fácil imaginar o que isso significava. Eu abaixei a lâmina lentamente. A mão tremia levemente. Eu não tinha notado antes. — Eu não gosto dessa floresta — murmurei. Kaelith me olhou. E dessa vez… não foi frio. Foi honesto. — Ela não gosta de ninguém. Silêncio. Eu respirei fundo. — Então por que eu ainda estou aqui? Ele se aproximou um passo. Não muito. Mas o suficiente. — Porque você foi vista. Aquilo não respondeu minha pergunta. Mas explicou algo pior. E antes que eu pudesse falar de novo, senti. O vento mudou. Mas não como antes. Dessa vez… era familiar. Kaelith também sentiu. E pela primeira vez naquele dia, ele não parecia apenas preparado. Parecia… alertado de verdade. — Tem mais vindo — ele disse. Eu apertei a lâmina de novo. — Quantos dessa vez? Ele olhou para a floresta. E respondeu algo que fez meu estômago afundar. — Não são eles. Pausa. — São outros. E quando o primeiro som distante ecoou entre as árvores… eu entendi. Isso ainda estava longe de acabar.
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