capítulo 17—KAELITH

1807 Words
O momento em que os lobos se moveram não foi ataque. Foi alinhamento. Isso era pior. Ataque é instinto. Alinhamento é decisão. Eu senti o ar mudar no exato instante em que eles pararam de reagir e começaram a… coordenar. Como se algo invisível tivesse passado por todos ao mesmo tempo. Elizabeth percebeu também. Ela não recuou. Mas o corpo dela denunciou a tensão imediata. — Isso não é normal… — ela sussurrou. — Não — eu respondi. A elfa observava como se estivesse assistindo algo finalmente sair do controle… do jeito que ela queria. — Agora vocês entendem — ela disse. Eu não tirei os olhos dela. — Isso não é evolução — falei. — É interferência. Ela sorriu. — Chamem do que quiserem. Os lobos avançaram meio passo. Não contra nós. Ao redor. Fechando o espaço. Elizabeth ficou no centro desse movimento sem perceber completamente o quanto isso era estratégico. Não era só cerco. Era moldura. — Kaelith… — ela chamou meu nome baixo. Eu não respondi de imediato. Porque eu estava sentindo algo que não vinha deles. Vinha dela. Elizabeth. Não medo. Não só medo. Algo mais instável. Algo que a floresta estava respondendo de volta. Errado. Perigoso. — Você está chamando atenção demais — eu disse. — Eu não estou fazendo nada! — Esse é o problema. A elfa inclinou a cabeça. — Ela não precisa fazer. Silêncio. Eu dei um passo à frente. Agora completamente entre ela e Elizabeth. — O que você quer? — perguntei. A elfa me observou como se eu tivesse finalmente feito a pergunta certa. — Eu já disse. — Não disse tudo. Ela sorriu. — Ainda. O vento ficou mais pesado. E então eu senti. Algo mais antigo se aproximando por trás da estrutura da floresta. Não era presença comum. Não era matilha. Não era liderança atual. Era memória viva. Os lobos ao redor baixaram levemente a postura. Não submissão. Reconhecimento. Elizabeth percebeu a mudança. — O que está acontecendo agora? — ela perguntou. Eu respirei fundo. — Algo antigo está acordando. A elfa completou, suave: — O que deveria ter sido esquecido. Silêncio. Elizabeth apertou a lâmina. — Isso está ficando pior a cada minuto… — Sim — eu respondi. Ela olhou para mim. — E você continua dizendo isso como se fosse rotina. Eu não respondi. Porque era. Para mim. Mas não para ela. E isso era o problema. O som surgiu antes da forma. Um estalo profundo na floresta. Não de galho. Não de movimento comum. Algo maior se deslocando entre camadas antigas do território. Os lobos pararam completamente. Até a elfa ficou imóvel por um segundo. E isso… dizia muito. Elizabeth engoliu seco. — Kaelith… — Eu estou ouvindo. Então eles apareceram. Não completamente visíveis de imediato. Primeiro a sensação. Depois o peso. Depois a forma. Lobos maiores. Mais antigos. Olhos que não eram só instinto… eram lembrança. Elizabeth deu um passo involuntário para trás. — Esses são… diferentes. — São. — Eles são os mesmos? Pausa. — Eram. Silêncio. A elfa observava como se estivesse satisfeita. — Agora começa a parte interessante — ela disse. Eu não tirei os olhos dos antigos. — Isso não é jogo. — Nunca foi. Os lobos antigos avançaram um passo. E então… pararam. Não por medo. Por avaliação. Eles não estavam olhando para mim. Nem para a elfa. Estavam olhando para ela. Elizabeth. E isso foi o ponto de virada. Eu senti imediatamente. O foco mudou. A pressão mudou. Ela não era mais só humana no meio de conflito. Ela era o centro de reconhecimento. Errado. Completamente errado. — Eles estão olhando pra mim… — ela disse, quase sem voz. — Sim. A elfa sorriu. — Eles estão decidindo. Silêncio. Elizabeth virou o rosto para mim. — Decidindo o quê? Eu não gostei da resposta. Mas dei mesmo assim. — Se você pertence. O ar pareceu congelar. Elizabeth ficou imóvel. — Eu não pertenço a nada disso. A elfa riu baixo. — Ainda insiste nisso. Os lobos antigos deram mais um passo. Mais próximo. Mais lento. Kaelith ao lado dela. Eu me movi imediatamente. Entre eles. Sempre entre. Mas agora… não era mais só proteção. Era contenção. — Ninguém toca nela — eu disse. Um dos lobos antigos inclinou a cabeça. E então… falou. Não com voz humana. Mas com intenção que atravessava pensamento. “Ela já foi tocada pelo território.” Elizabeth deu um passo para trás. — Eu ouvi isso? — ela sussurrou. Eu fechei a mão. — Sim. A elfa parecia satisfeita demais. — Agora está confirmado. Silêncio. Eu senti o limite chegando. — Isso não vai acontecer — eu disse. Mas os antigos não reagiram a mim. Reagiram a ela. Elizabeth. E isso era pior do que qualquer ataque. Porque não era disputa. Era julgamento. E eu já sabia… Ela estava sendo avaliada por algo que eu não controlei. Nem ela entendia. E isso significava que, pela primeira vez… eu não tinha a liderança da situação. A floresta tinha. A floresta parecia diferente naquele dia. Não mais apenas um limite entre vida e morte… mas um lugar que observava. Elizabeth caminhava atrás de Kaelith em silêncio, os dedos ainda firmes na lâmina improvisada. O cansaço pesava no corpo dela, mas havia algo novo também — uma atenção mais afiada, como se agora cada som tivesse significado. Kaelith não falava. Isso era comum. Mas o silêncio dele não era vazio. Era vigilância. Proteção. E algo mais… que ele mesmo parecia evitar nomear. — Você sempre anda assim? — Elizabeth perguntou, sem conseguir sustentar o silêncio por muito tempo. — Assim como? — ele respondeu sem olhar para trás. — Como se estivesse esperando algo te atacar a qualquer segundo. Ele parou por meio segundo. Só meio. — Porque eu estou. Ela soltou um ar pelo nariz, quase um riso. — Isso não ajuda muito. — Não foi feito pra ajudar. Ela revirou os olhos, mas continuou andando. — Você fala como se nada aqui fosse seguro. — Porque não é. O vento mudou. Leve. Mas suficiente para fazer Kaelith parar de vez. Elizabeth percebeu na mesma hora. — O que foi agora? Ele não respondeu. Os olhos dele estavam fixos entre as árvores. Imóveis. A floresta… também parecia ter parado. Como se algo estivesse segurando a respiração do mundo inteiro. Então veio o som. Baixo. Rachado. Um uivo distante. Elizabeth sentiu um arrepio imediato. — Isso foi… um animal? Kaelith finalmente falou, a voz mais baixa do que antes. — Não. Outro uivo respondeu. Mais perto. Mais forte. E então outro. — Eles encontraram a gente — ele disse. — “Eles” quem? Ele virou levemente o rosto. Só o suficiente para ela ver o olhar. — Lobos. O nome não deveria significar tanto… mas significou. Porque não eram só animais. Não ali. Nunca ali. A floresta respondeu com mais uivos. Agora de todos os lados. Elizabeth apertou a lâmina. — Quantos? Kaelith já estava se movendo de novo. — Muitos. — Isso não é resposta! — É a única que importa agora. Ele puxou ela pelo braço. Mais firme do que antes. Mais urgente. — Corre. E ela correu. Mas não porque confiava. Porque entendeu tarde demais que não havia escolha. O chão parecia mudar sob os pés deles. Raízes, lama, sombras — tudo se tornava obstáculo. Os uivos ficaram mais altos. Mais próximos. Até que o primeiro apareceu. Entre as árvores. Enorme. O corpo coberto de pelo escuro, mas não natural — como se a própria escuridão tivesse aprendido a se mover. Os olhos… dourados. Errados. Humanos demais para um animal. Elizabeth travou por um segundo. Só um. Mas Kaelith não. Ele avançou. E o impacto foi brutal. O lobo foi jogado contra o chão antes mesmo de atacar. — Não para — ele disse pra ela. — Eu não tô parando! Mas a voz dela tremeu. Mais outro surgiu. Depois mais dois. Agora não era fuga. Era cercado. Kaelith ficou entre ela e eles. Sempre entre. — Eles não estão caçando por fome — ele murmurou. — Então por quê? Os olhos dele estreitaram. — Ordem. Elizabeth não entendeu. Mas não teve tempo de perguntar. O primeiro voltou a atacar. Rápido. Violento. Kaelith desviou por pouco e acertou o pescoço dele com força suficiente para fazê-lo cair… mas não matar. — Eles não morrem fácil — ele disse. — Isso é ótimo saber AGORA! Ela tentou se mover para o lado, mas outro já vinha. Rápido demais. Instintivo demais. Ela ergueu a lâmina. E acertou. Dessa vez não foi sorte. Foi reação. O lobo recuou. Ferido. Mas vivo. E isso foi pior. Kaelith olhou pra ela por um segundo. Um segundo estranho. Como se estivesse… avaliando. — Você não congelou. — Eu deveria? — Sim. Mais uivos. Mais perto. Kaelith respirou fundo. E então algo mudou nele. O ar pareceu ficar mais pesado. Mais… perigoso. — Fica atrás de mim — ele disse. — Já estou atrás de você! — Mais atrás. Ela obedeceu. Contra vontade. Os lobos avançaram juntos agora. Não era mais ataque desordenado. Era coordenação. Inteligência. Kaelith soltou um som baixo. Não humano. Não totalmente. E então ele se moveu. Rápido demais para acompanhar. O primeiro caiu. O segundo também. Mas não era suficiente. Nunca era. Elizabeth viu um deles mudar de direção. Direto nela. — Kaelith! Mas ele não chegou a tempo. Dessa vez não. O lobo saltou— E foi interrompido no ar. Elizabeth não sabia exatamente o que tinha feito. Só sabia que tinha se movido. E acertado. Forte. Instintivo. Errado. Mas suficiente. O animal caiu ao lado dela, ferido. E a floresta inteira pareceu… reagir. Silêncio. Por meio segundo. Como se tudo tivesse entendido. Ela tinha entrado na conta. Kaelith chegou ao lado dela imediatamente. — Você devia ter recuado. — Eu devia ter ficado parada sendo atacada?! — Sim. — Isso não faz sentido! Ele a encarou. Firme. — Nada aqui faz. Mais uivos. Agora próximos demais. Kaelith ficou mais rígido. — Eles não vão parar. — Então o que a gente faz? Ele olhou ao redor. Calculando. Sempre calculando. — Acabamos com o líder. — Qual deles é o líder?! Silêncio. E então ele respondeu: — O que ainda não apareceu. O vento ficou pesado. E Elizabeth sentiu. Antes mesmo de ver. Alguém observando. Não dos lobos. De algo maior. Kaelith também sentiu. E isso foi o pior sinal de todos. — Corre de novo — ele disse. — Pra onde?! — Pra dentro. Ela arregalou os olhos. — Isso não faz sentido! — Nada aqui faz. E então ele puxou ela. Mais fundo na floresta. Direto para o lugar que parecia menos seguro de todos. E atrás deles… Os uivos mudaram. Como se tivessem recebido uma ordem. Agora não era caça. Era perseguição. E a guerra tinha apenas começado.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD