A corrida não era mais fuga.
Era sobrevivência.
Elizabeth sentia os pulmões queimarem, cada passo virando um esforço consciente, como se o próprio corpo estivesse começando a reclamar daquilo tudo. Mas ela não parava. Não porque era corajosa… e sim porque parar parecia pior.
Kaelith seguia à frente, rápido demais para alguém que parecia tão humano à primeira vista.
E, ainda assim… não era.
Os uivos atrás deles não diminuíam.
Pelo contrário.
Estavam mais organizados agora.
Mais próximos.
— Eles estão nos cercando de novo! — Elizabeth gritou, tentando acompanhar o ritmo dele.
— Eu sei — ele respondeu seco.
— Você SEMPRE sabe e nunca explica nada!
Ele virou apenas o rosto por um segundo.
— Explicar não muda o que vem atrás de você.
Isso a irritou mais do que o medo.
Mas não havia espaço pra discutir.
A floresta começou a mudar.
O ar ficou mais frio.
As árvores mais próximas.
As sombras mais densas, como se o lugar estivesse se fechando ao redor deles.
— Isso é um caminho ou uma armadilha? — ela perguntou.
— Os dois — Kaelith respondeu.
Ela quase tropeçou ao ouvir isso.
— ÓTIMO.
Um som mais pesado veio da direita.
Depois da esquerda.
Agora não era só perseguição.
Era convergência.
Kaelith parou de repente.
Elizabeth quase bateu nele.
— O que foi?!
Ele não respondeu de imediato.
Os olhos dele estavam fixos no chão.
Nas marcas.
Pegadas.
Muitas.
Recentes.
— Eles já passaram por aqui — ele disse.
— Então estamos indo direto pra eles?!
— Sim.
Silêncio.
Elizabeth sentiu o estômago afundar.
— Isso não é plano. Isso é suicídio.
— É estratégia.
— Isso é a pior estratégia que eu já ouvi!
Kaelith se virou para ela de vez.
E pela primeira vez naquela noite… havia algo diferente no olhar dele.
Não calma.
Não controle.
Algo mais bruto.
Mais instintivo.
— Você quer sobreviver?
A pergunta foi simples.
Direta.
Ela hesitou.
Só um segundo.
— Quero.
— Então para de discutir.
Silêncio.
E ela odiou que isso fez sentido.
Um uivo mais próximo.
Muito próximo.
Kaelith puxou ela novamente.
Mas dessa vez não era mais fuga aberta.
Era deslocamento preciso.
Como se ele soubesse exatamente onde pisar.
Como se a floresta fosse… mapa.
Elizabeth tentou acompanhar, mas algo diferente chamou atenção dela.
As pegadas no chão não eram só dos lobos que os perseguiam.
Eram de outros.
Muitos outros.
Mais antigos.
Mais pesados.
— Kaelith… — ela disse mais baixo.
— Eu vi.
— Isso é uma matilha inteira?
Ele não respondeu.
Mas o silêncio foi resposta suficiente.
De repente, ele parou de novo.
Dessa vez, ela não reclamou.
O silêncio ao redor ficou absoluto.
Nenhum uivo.
Nenhum vento.
Até demais.
— Eles sabem que estamos aqui — ela sussurrou.
— Sim.
— E agora?
Kaelith fechou os olhos por um segundo.
Como se estivesse ouvindo algo que ela não podia.
Quando abriu…
O olhar estava mais duro.
Mais decidido.
— Agora eles não estão caçando.
Ela franziu a testa.
— Então o quê?
Ele virou devagar.
— Estão trazendo você.
O mundo pareceu perder um pouco de cor naquele instante.
— Me… trazendo?
— Não para matar.
— Então pra quê?!
Kaelith deu um passo mais perto.
— Para ver.
Silêncio.
Elizabeth sentiu um arrepio profundo subir pela coluna.
— Ver o quê?
Ele não respondeu de imediato.
E isso foi pior do que qualquer resposta.
Porque quando ele falou…
Foi baixo.
Quase um aviso.
— O que você é.
Antes que ela pudesse reagir, o chão tremeu levemente.
Não como terremoto.
Como impacto.
Algo enorme se movendo pela floresta.
Kaelith virou imediatamente.
— Agora.
— Agora o quê?!
Mas ele já estava puxando ela de novo.
Só que tarde demais.
As árvores à frente se abriram.
Não naturalmente.
Algo atravessou.
E então ela viu.
Não um lobo.
Não vários.
Algo maior.
Mais alto.
O corpo parecia humano… mas não era.
Os olhos dourados estavam lá.
Mas havia consciência demais.
Controle demais.
Perigo demais.
Elizabeth travou.
— Isso não é um lobo… — ela sussurrou.
Kaelith ficou na frente dela imediatamente.
— Não.
O ser inclinou a cabeça.
Observando.
Calculando.
E então sorriu.
Como se reconhecesse algo.
— Finalmente… — a voz veio grave, arrastada. — Ela está aqui.
Elizabeth sentiu o sangue gelar.
— Kaelith… quem é isso?
Ele não tirou os olhos da criatura.
E respondeu com uma única frase.
— O que lidera a matilha.
Silêncio.
Denso.
Pesado.
E então o líder deu um passo à frente.
A floresta pareceu encolher.
— Você trouxe ela direto pra nós — ele disse, olhando para Kaelith.
Kaelith não respondeu.
Mas Elizabeth sentiu.
Não era surpresa nele.
Era confirmação.
Como se ele soubesse que isso ia acontecer desde o começo.
A criatura voltou o olhar para ela.
E agora… o sorriso ficou mais evidente.
— Interessante…
Elizabeth apertou a lâmina.
Mas o peso dela pareceu menor de repente.
Quase inútil.
— O que vocês querem de mim? — ela perguntou.
O líder inclinou a cabeça.
— Saber se a marca é verdadeira.
Ela franziu a testa.
— Marca?
Kaelith se moveu levemente.
Mas não falou.
O líder continuou:
— Porque se for…
O sorriso aumentou.
— Então ele não te trouxe aqui por escolha.
Silêncio.
Elizabeth virou lentamente o olhar para Kaelith.
Devagar.
Como se temesse a resposta.
— O que isso quer dizer?
Kaelith fechou os olhos por um segundo.
E quando abriu…
Havia algo diferente.
Algo que ela ainda não tinha visto nele.
Conflito.
— Significa… — ele disse baixo — que você não foi encontrada por acaso.
O líder riu.
E a floresta inteira pareceu rir junto.
— Ela foi chamada.
Silêncio.
E naquele instante…
Elizabeth entendeu.
Não estava sendo caçada.
Não estava sendo protegida.
Ela estava sendo reivindicada.
E Kaelith…
Talvez não fosse o começo disso.
Talvez fosse só a primeira corrente.
O silêncio depois daquelas palavras não era vazio.
Era pressão.
Como se a floresta inteira tivesse prendido o ar esperando a reação de Elizabeth.
Ela não se mexeu de imediato.
Mas o corpo dela mudou.
Pequeno detalhe.
O aperto na lâmina ficou mais firme.
Os olhos mais atentos.
A respiração menos irregular.
Medo ainda estava lá… mas agora tinha algo junto dele.
Raiva.
— Eu não fui chamada por ninguém — ela disse, firme demais para alguém cercada.
O líder dos lobos inclinou levemente a cabeça, como se achasse isso divertido.
— Foi o que todos dizem no começo.
Kaelith não tirava os olhos dele.
Mas falou baixo, para ela:
— Não responde.
— Por quê?
— Porque ele quer isso.
Silêncio.
Elizabeth sentiu um arrepio estranho com aquilo.
Não era só perigo.
Era manipulação.
O líder deu mais um passo.
E o chão pareceu ceder sob o peso dele.
— Você não entende ainda — ele disse, olhando diretamente para ela. — Mas o sangue sempre reconhece o próprio caminho.
Elizabeth franziu a testa.
— Do que você está falando?
Kaelith respondeu antes dele.
— Chega.
A voz dele não era alta.
Mas foi suficiente para fazer o ar endurecer.
O líder sorriu de lado.
— Sempre tão protetor… curioso.
Kaelith deu um passo à frente.
Agora a distância entre eles era mínima.
Perigosa.
— Se encostar nela—
— Você vai fazer o quê? — o líder interrompeu, calmo.
Silêncio.
E por um instante…
Kaelith não respondeu.
Não por falta de força.
Mas por controle.
Controle demais.
Elizabeth percebeu isso.
E aquilo a deixou mais inquieta do que qualquer lobo.
O líder desviou o olhar para ela novamente.
— Você ainda não ouviu… mas vai ouvir.
Elizabeth sentiu um desconforto estranho.
— Ouvir o quê?
A resposta veio lenta.
Quase satisfeita.
— O chamado.
Kaelith se moveu de repente.
Rápido.
A mão dele segurou o braço dela com firmeza.
— Não escuta nada.
— Kaelith—
— Não escuta.
Mas já era tarde.
Porque Elizabeth sentiu.
Não como som.
Não como voz.
Mas como… vibração.
Profunda.
Baixa.
Dentro do peito.
Errado.
Ela levou a mão livre ao próprio peito sem perceber.
— Eu… — ela sussurrou — o que é isso?
Kaelith ficou mais tenso.
E isso era raro.
Muito raro.
— Para — ele disse mais baixo. — Agora.
O líder soltou uma risada curta.
— Você não pode impedir.
— Eu posso tentar.
— E falhar.
O vento parou de novo.
E então…
O som veio.
Mais claro.
Não era externo.
Não vinha da floresta.
Vinha dela.
Ou através dela.
Elizabeth deu um passo para trás sem querer.
— Eu não estou ouvindo nada!
— Está sim — Kaelith respondeu.
A mão dele apertou mais o braço dela.
Não machucando.
Mas segurando como se o mundo dependesse disso.
— Foca em mim.
Ela olhou para ele.
E por um segundo… o som ficou mais baixo.
Mas não sumiu.
— Isso não é normal… — ela disse, a voz falhando um pouco.
— Nada aqui é.
O líder observava aquilo com atenção crescente.
Como se estivesse confirmando algo.
— Interessante… — ele murmurou. — Ele ainda resiste.
Kaelith olhou para ele com frieza.
— Você não entende o que está fazendo.
— Eu entendo melhor do que você.
Silêncio.
E então o líder deu um passo lateral.
Circulando.
— Você acha que pode ignorar o vínculo — ele disse. — Mas ela já está respondendo.
Elizabeth apertou os olhos.
— Vínculo?
Kaelith respondeu imediatamente:
— Não escuta isso.
Mas o dano já estava feito.
A palavra ficou.
Vínculo.
E junto dela… uma sensação.
Como algo puxando.
Não fisicamente.
Mas por dentro.
Ela engoliu seco.
— Kaelith… — ela falou mais baixo — o que ele quer dizer com isso?
Silêncio.
E esse silêncio foi resposta suficiente.
O líder parou.
Satisfeito.
— Ah… ele não contou.
Kaelith soltou o braço dela de repente.
E isso a assustou mais do que o toque.
— Não é hora — ele disse, mas não para ela.
Era para ele mesmo.
Elizabeth olhou entre os dois.
— Alguém pode me explicar o que está acontecendo?!
O líder sorriu.
— Ela vai entender.
Kaelith avançou um passo.
— Chega.
A palavra veio mais dura agora.
Mas o líder não recuou.
Nunca recuava.
— Você sente, não sente? — ele disse, ignorando Kaelith. — Ela sente você.
Silêncio.
Elizabeth ficou imóvel.
— Isso não é verdade…
Mas a voz dela não tinha certeza.
Kaelith fechou os olhos por um segundo.
E quando abriu…
Havia algo perigoso ali.
— Não deixa isso crescer — ele disse baixo para ela.
— Crescer o quê?!
Mas antes que ele respondesse…
O líder ergueu a mão.
E a floresta respondeu.
Sombras se moveram.
Mas não como antes.
Agora eram mais organizadas.
Mais… conscientes.
E então vários olhos dourados apareceram entre as árvores.
Mais.
Muito mais.
Elizabeth deu um passo instintivo para trás.
— Kaelith…
Ele já estava na frente dela de novo.
— Agora você corre quando eu mandar.
— E você?
Pausa.
Curta.
Pesada.
— Eu fico.
Silêncio.
Ela arregalou os olhos.
— Não.
— Não discute.
— Isso não é discussão! Isso é suicídio!
Ele virou levemente o rosto para ela.
E pela primeira vez…
Havia algo cru na expressão dele.
— Eu já morri antes disso.
Aquilo fez o ar congelar por um segundo.
Elizabeth não respondeu.
Porque não sabia como.
O líder observava.
Quase satisfeito.
— Então… vamos ver se ela escolhe te salvar… ou se escolhe o chamado.
Kaelith rosnou.
Simples assim.
Um som baixo.
Animal.
E a floresta inteira pareceu reagir.
Elizabeth sentiu o chão vibrar sob os pés.
— Kaelith… — ela sussurrou.
Mas ele não olhou para ela.
Ainda não.
Os lobos avançaram um passo.
E então outro.
Cercando.
Fechando.
Kaelith respirou fundo.
E disse:
— Agora.
Ela hesitou.
Só um segundo.
Mas foi o suficiente.
O mundo explodiu em movimento.
E dessa vez…
Não havia mais fuga.
Só escolha.