capítulo 19—KAELITH

1802 Words
O ar já não era só ar. Era pressão. Algo vivo o suficiente para reagir ao medo deles. Eu sentia antes de ver. Sempre sentia. A floresta não estava em silêncio. Estava em espera. Elizabeth corria ao meu lado, mais lenta do que deveria ser naquele lugar. O corpo dela já começava a pagar o preço de cada escolha que fez desde que entrou aqui. Mas ela não parava. Isso era novo nela. Os olhos dourados ainda estavam lá. Seguindo. Nunca perdendo. — Eles não vão parar… — ela disse, a voz quebrada pela respiração. — Eu sei — respondi. Não havia espaço para suavizar nada. — Você diz isso como se fosse normal! — Aqui é. Ela quis responder, eu vi isso no rosto dela. Mas o chão mudou antes. Eu a puxei. Um segundo de atraso e ela teria caído onde não havia mais segurança. Ela tropeçou, mas ficou de pé. Aprendeu rápido demais para alguém que ainda deveria estar quebrada. — Para onde estamos indo?! — ela perguntou. — Lugar alto. — Isso não explica nada! Eu não respondi. Explicar era perda de tempo. E tempo… aqui matava. O som mudou. Os uivos ficaram mais organizados. Isso não era mais caça. Era cerco. Eu parei. Elizabeth quase bateu em mim. — O que foi agora?! Eu não respondi de imediato. Porque agora eu sentia. Eles não estavam só nos seguindo. Estavam esperando. — Eles estão aqui — eu disse. Ela engoliu seco. — Aqui tipo… aqui? — Ao redor. Isso era pior do que ela imaginava. Eu vi no rosto dela. Ela apertou a lâmina. Instinto fraco, mas real. — Você tem um plano? — Tenho. — Qual? Pausa. — Sobreviver. Ela soltou uma risada sem humor. — Isso não é plano. — Então não morre. Simples assim. Mas nada aqui era simples. E ela ainda não tinha entendido isso. Eles surgiram. Primeiro os olhos. Depois os corpos. Dezenas. Movendo-se entre a neblina como se já fossem parte dela. E no centro… Ele. O líder. Mais próximo agora. Mais consciente. Mais perigoso. — Vocês correram bem — ele disse. Eu não me movi. Não ainda. — Acaba aqui — falei. Ele sorriu. — Não. Um passo à frente. — Aqui começa. Elizabeth ficou atrás de mim. Mas não escondida. Eu senti isso. — Kaelith… — ela chamou. Eu não respondi. O líder circulava. Sempre observando. Sempre calculando. — Ela está ouvindo — ele disse. — Não fala com ela. — Ela sente. Silêncio. Eu deveria ter cortado aquilo antes. Mas já era tarde. Elizabeth virou o rosto para mim. — O que ele está falando?! Eu não respondi. E esse foi o erro. Porque o silêncio respondeu por mim. — Não… — ela disse baixo. — Não começa isso agora. — Não é escolha — eu disse. Ela riu. Quebrado. — “Não é escolha” pra você é resposta pra tudo?! — É verdade. — NÃO PRA MIM! O ar mudou. Os lobos ficaram imóveis. Esperando. O líder ergueu a mão. E então disse: — Ele não contou. Elizabeth travou. — Contou o quê? Eu fechei os olhos por um segundo. Porque agora não era mais sobre esconder. Era sobre atraso. — O vínculo já começou — eu disse. Silêncio absoluto. O mundo parou para ela. Eu vi. — O quê…? — Não é escolha mais. Ela deu um passo para trás. — Não… Não era negação lógica. Era instinto rejeitando algo que já estava lá. O líder sorriu. — Ela sente. Elizabeth olhou para mim. Direto. E aquilo foi pior do que qualquer ataque. Porque ela entendeu. Eu não precisava explicar mais nada. — Isso não é verdade… — ela disse. Mas era fraco. E eu sabia disso. — Ele está segurando isso em você — o líder continuou. — Mas não por muito tempo. — Para — eu disse. Mas não para ele. Para mim mesmo. Elizabeth respirava rápido. O corpo dela tentando lutar contra algo que ainda nem sabia nomear. — Sentir o quê?! — ela perguntou. Eu não respondi. Não consegui. E isso… confirmou tudo. O líder deu um passo. — Ele sabe. Eu avancei. Finalmente. — Chega. Mas Elizabeth levantou a mão. Me parando. Não porque tinha força. Mas porque precisava entender. — Sentir o quê? Silêncio. Eu não devia dizer. Mas já não havia escolha. — O vínculo já começou. E isso foi o ponto de ruptura. Ela recuou. Devagar. Como se o chão tivesse mudado. — Não… Ela não estava só negando a mim. Estava negando o que sentia. O líder observava tudo como se estivesse assistindo algo inevitável. — Ele está acordando — disse. Eu fechei a mão. — Se você encostar nela— — Você não pode impedir. Ele estava certo. E isso era o problema. Os lobos se moveram. Um passo. Só um. Mas suficiente. — Agora — eu disse para ela. Ela me olhou. E ainda não entendia tudo. Mas entendeu o suficiente. Eu vi no olhar. E isso já era tarde demais. Ela não estava só sendo atacada. Estava sendo puxada para algo que já tinha começado. E agora… Ou ela lutava contra isso. Ou lutava comigo. E nenhum dos dois terminava bem. Capítulo 20 — narrado por Kaelith O movimento começou antes do som. Sempre começa assim. Elizabeth ainda estava me olhando quando o primeiro lobo avançou. Não houve aviso real. Só decisão. Eu me movi. Rápido. Entre ela e o impacto. O corpo da criatura colidiu comigo antes de alcançar o alvo. Eu o derrubei no chão com força suficiente para quebrar a intenção dele, não só o osso. Mas isso não era ataque único. Nunca era. Mais vieram. Agora sem hesitação. O líder não precisava mais assistir. Ele já tinha o que queria. Informação. E isso era pior do que ataque. — Eles não vão parar… — Elizabeth disse atrás de mim. — Eu sei — respondi. Eu não olhava para ela. Não podia. Se olhasse, perderia o ritmo. E aqui ritmo era sobrevivência. Outro veio pela esquerda. Eu desviei. Acertou o vazio. Errado. Sempre errado contra mim. Mas não contra ela. Eu vi isso no instante seguinte. Um deles mudou o foco. Não em mim. Nela. Erro. Eu fui mais rápido. Interceptei antes que chegasse perto. Mas agora eles estavam testando. Aprendendo. A floresta ao redor não era mais cenário. Era testemunha. E ela… estava respondendo. Elizabeth se moveu atrás de mim. Não fugindo. Posicionando. Isso era novo. — Fica atrás — eu disse. — Eu estou atrás! — Mais. Ela não discutiu dessa vez. Mas eu senti. Ela não estava mais só sobrevivendo. Estava tentando acompanhar. O problema era exatamente esse. O líder ainda não atacava diretamente. Ele observava. Sempre. E isso significava que o ataque real ainda não tinha começado. Um dos lobos saltou. Mais alto. Mais pesado. Eu agarrei no ar. E o silêncio entre os ossos quebrando foi curto. Mas suficiente. Elizabeth respirou mais forte atrás de mim. Ela estava vendo demais. Sentindo demais. Isso era perigoso. — Kaelith… — ela disse. — Não olha — respondi. Tarde. Ela já tinha olhado. Eu senti. O impacto disso nela não era físico. Era percepção. O mundo mudando de forma. Outro veio. Eu o derrubei. Mas algo mudou. O ar. A pressão. O ritmo. Eles não estavam mais atacando aleatoriamente. Estavam fechando círculo. Cerco. Agora completo. Eu parei por meio segundo. Erro controlado. Os olhos dela encontraram os meus. — A gente não vai sair disso, vai? A pergunta não tinha histeria. Isso era pior. Era aceitação começando cedo demais. — Vai — eu disse. Ela não acreditou. E ela estava certa em não acreditar. O líder apareceu entre as árvores de novo. Sem pressa. Nunca com pressa. — Você está segurando ela como se isso resolvesse — ele disse. Eu não respondi. — Mas ela já sente. Elizabeth apertou a lâmina. — Eu não sinto nada. Mentira fraca. Ele sorriu. — Sente sim. Eu avancei um passo. — Chega. — Você sabe o que acontece quando isso completa — ele continuou. Silêncio. Eu sabia. Mas ela não. Ainda não. Elizabeth olhou entre nós. — Completa o quê?! Eu não respondi. E isso foi suficiente. O rosto dela mudou. Lentamente. — Não… A negação veio antes do entendimento completo. Mas estava vindo. Sempre vem. O líder deu outro passo. — Ele não pode impedir o que já começou. Eu senti o ar mudar de novo. Os lobos se aproximaram mais. Agora não era ataque. Era fechamento. — Agora — eu disse para ela. Mas ela não se moveu. Não de imediato. — Você sabia disso desde o começo? — ela perguntou para mim. Silêncio. Eu devia mentir. Mas não menti. — Sim. Isso quebrou algo no rosto dela. Não medo. Confiança. — Então eu fui trazida pra isso… — Sim. — Sem escolha? — Sem escolha. Ela riu. Curto. Quebrado. — Isso parece muito a minha vida inteira. E então ela levantou a lâmina. Não contra eles. Ainda não. Mas contra o mundo inteiro. — Eu não vou ser levada. Eu senti isso. Não era coragem. Era resistência. Crua. Instintiva. Perigosa. O líder inclinou a cabeça. — Ela está resistindo melhor do que deveria. — Porque ela não entende — eu respondi. — Ou porque entende demais. Silêncio. E então aconteceu. O primeiro impacto coordenado. Não um lobo. Três. Ao mesmo tempo. Eu bloqueei dois. O terceiro passou. Direto nela. Erro. Eu me movi. Mas não fui rápido o suficiente. Elizabeth não congelou. Ela desviou. Raso. Imperfeito. Mas suficiente para não cair. E isso mudou tudo. O lobo recuou. Não ferido o bastante para desistir. Mas surpreso. Eles estavam aprendendo. Ela também. E isso era a pior combinação possível. — Você me ensinou isso… — ela disse sem olhar pra mim. Eu não respondi. Porque sim. Eu ensinei. E agora isso estava sendo usado contra o mundo. O líder observava. Cada segundo. Cada reação. — Interessante… — ele murmurou. Eu avancei de novo. — Agora chega. Mas ele sorriu. — Não. E então a floresta respondeu. Mais lobos. Mais profundos. Mais antigos. Algo dentro deles mudou. Eu senti antes de ver. Isso não era mais matilha comum. Era comando direto. E agora… Elizabeth também sentiu. — O que é isso? — ela perguntou. Eu não respondi imediatamente. Porque eu também estava percebendo. Isso não era só perseguição. Era convocação. E ela… estava no centro disso. — Eles não estão te atacando mais — eu disse baixo. — Então o quê? Silêncio. Difícil. Real. — Estão te reconhecendo. O mundo pareceu apertar. E então o líder falou pela última vez antes de avançar: — Agora ela pertence ao caminho. E tudo desabou de novo em movimento. E dessa vez… Eu não sabia se conseguiria impedir o que vinha junto com ela.
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