Ela ainda não entendia o tipo de silêncio em que estava entrando.
Não era paz.
Era espera.
Eu observei Elizabeth dormir por tempo demais para alguém que ainda fingia não pertencer a este lugar. O corpo dela finalmente cedeu, mas mesmo assim havia tensão nos dedos, na respiração curta, na forma como o peito subia e descia como se esperasse ser atacada até dentro do sonho.
A floresta não dormia.
Nunca dormia.
E isso significava que eu também não.
O cheiro dela ainda estava no ar.
Não só o medo de antes, não só o sangue recente… mas algo novo. Algo que começava a se misturar com ela, como se o próprio lugar estivesse tentando reescrevê-la por dentro.
Errado.
Mas inevitável.
Eu me afastei alguns passos, o suficiente para ver o entorno sem perder ela de vista. As árvores estavam imóveis demais. Isso nunca era bom. Imobilidade na floresta não era descanso — era atenção.
Alguém estava olhando.
Eu senti antes de ver.
A presença dela.
Não tinha forma.
Não tinha som.
Mas tinha intenção.
Ela não estava aqui com o corpo.
Estava com a vontade.
E isso era pior.
— Você está se aproximando demais dela… — a voz veio na minha mente, não no ar.
Eu não respondi.
Não precisava.
— Isso vai te enfraquecer.
Silêncio.
Eu continuei observando Elizabeth.
— Ou já está?
O vento mudou levemente.
Quase nada.
Mas suficiente.
— Ela já marcou você, Kaelith.
Agora eu fechei os olhos por um segundo.
Não por medo.
Por controle.
Quando abri, a presença ainda estava lá.
— Você sempre fala como se isso fosse uma falha — eu respondi, finalmente.
O silêncio respondeu primeiro.
Depois, a voz de novo.
Mais próxima.
Mais calma.
Mais perigosa.
— Porque é.
Eu olhei para o escuro entre as árvores.
— Ela sobreviveu ao primeiro contato.
— Humanos sobrevivem a muitas coisas antes de quebrar.
— Ela não quebrou.
Um silêncio mais longo.
Dessa vez, quase irritado.
— Ainda.
Eu voltei o olhar para ela.
Elizabeth se mexeu levemente no sono.
Como se tivesse ouvido alguma coisa que eu não ouvi.
Ou sentido.
— Você quer testá-la — eu disse.
— Eu quero o que é meu.
Isso fez algo dentro de mim se mover.
Não surpresa.
Confirmação.
— Ela não é sua.
A resposta veio rápida demais.
— Ainda não.
Silêncio.
O ar ficou mais pesado.
A floresta pareceu prender a respiração junto comigo.
Eu dei um passo à frente.
— Se encostar nela…
A presença riu.
Baixo.
Sem humor.
— Você já está ameaçando por ela.
Eu não respondi.
Porque era verdade.
E isso era o problema.
Elizabeth virou levemente no chão.
A mão dela se fechou por um segundo.
Como se estivesse segurando algo que não existia.
Ou alguém.
Errado.
Muito errado.
— Ela está te puxando — a voz disse de novo.
— Não.
— Está.
Eu apertei a mandíbula.
— Você não entende o que está acontecendo aqui.
— Eu entendo perfeitamente.
A presença começou a se afastar.
Não indo embora.
Só recuando o suficiente para observar melhor.
— Isso não vai terminar como você acha.
— Nada termina como eu acho.
— Exatamente.
Silêncio.
E então, mais baixo:
— Eu volto quando ela acordar.
A última coisa que senti foi o sorriso.
Antes do vazio.
O silêncio voltou.
Mas não era alívio.
Nunca era.
Eu fiquei parado por alguns segundos.
Só ouvindo.
Só sentindo.
Elizabeth ainda estava ali.
Viva.
E isso era suficiente.
Por enquanto.
Eu me aproximei devagar dela de novo.
Ajoelhei ao lado.
Observei o rosto dela.
Mais calmo agora.
Menos defesa.
Menos guerra.
Mas não vazio.
Nunca vazio.
Havia algo nela que não apagava.
Mesmo dormindo.
Mesmo quebrada.
Mesmo sendo empurrada para um mundo que não era dela.
Errado.
E perigoso.
Minha mão parou no ar por um segundo.
Eu não devia.
Eu sabia disso.
Mas toquei.
Leve.
Quase nada.
Só o suficiente para sentir o calor dela.
Real.
Vivo.
— Você está complicando tudo… — murmurei.
Ela não respondeu.
Mas o corpo dela reagiu.
Um leve movimento.
Como se reconhecesse.
Como se aceitasse.
Isso era pior.
Muito pior.
Eu retirei a mão.
Devagar.
E levantei o olhar para a floresta novamente.
Ela estava esperando.
Sempre esperando.
E agora não era mais sobre o que eu queria.
Nem sobre o que ela queria.
Era sobre o que viria primeiro.
Acordo.
Ou guerra.
E pela primeira vez…
Eu não tinha certeza de qual eu queria impedir.
Eu fiquei imóvel por mais alguns instantes, como se qualquer movimento pudesse atrair o que ainda rondava por perto.
Elizabeth respirava mais fundo agora, mas o sono dela não era paz. Era fuga. Eu conhecia esse tipo de silêncio. Ele não cura ninguém… só adia o inevitável.
A floresta continuava viva ao nosso redor, mesmo quando parecia parada. E isso era o mais perigoso: aqui, até o que não se mexia estava esperando.
Eu me levantei devagar e fui até a borda das pedras, observando o escuro entre as árvores. Nada visível. Nunca era. Mas presença não precisa de forma para existir.
— Ela vai acordar diferente… — a voz dela voltou, mais distante agora, como se tivesse escolhido ecoar de propósito.
Eu não respondi de imediato.
Porque já sabia.
Quando alguém cruza esse limite aqui dentro, a floresta não devolve igual. Ela ajusta.
— Não é você quem decide isso — eu disse, baixo.
O silêncio respondeu com uma espécie de diversão.
— Engraçado você dizer isso… quando está segurando algo que não te pertence.
Eu apertei a mandíbula.
Elizabeth se mexeu de novo atrás de mim. Um movimento mais inquieto agora. Como se alguma parte dela estivesse tentando voltar antes do tempo.
Errado.
Ela não devia sentir isso ainda.
Eu me virei.
Ela abriu os olhos de repente.
Rápido demais.
Como se tivesse sido puxada de um lugar profundo.
E por um segundo… ela não me viu.
Ela viu a floresta.
— Ei… — minha voz saiu mais firme do que eu pretendia.
Os olhos dela focaram em mim.
Mas não imediatamente.
Como se estivesse escolhendo entre ficar aqui… ou voltar para algo que eu não conseguia ver.
— Kaelith… — ela disse, mas não parecia pergunta. Parecia confirmação.
Eu me agachei.
— Você está aqui.
Ela piscou lentamente.
Uma vez.
Duas.
E então sentou devagar, levando a mão à própria cabeça.
— Eu ouvi… — murmurou.
Eu fiquei atento.
— Ouvi você falando com alguém.
Silêncio.
Isso não era bom.
Ela não devia ter ouvido nada.
Nada daquela conversa.
— Você estava… falando sozinho? — ela perguntou, tentando parecer normal.
Mas não era isso.
Não era dúvida simples.
Era percepção alterada.
A floresta estava entrando nela de novo.
Devagar.
Mas entrando.
— Você estava sonhando — eu respondi.
Ela me olhou.
Longo.
Profundo.
E então soltou um riso curto, sem humor.
— Não parecia sonho.
Eu não respondi.
Porque não era hora de mentir.
E também não era hora de dizer a verdade inteira.
Ela olhou ao redor.
Mais atenta agora.
Mais consciente.
— Isso aqui… mudou — ela disse.
Eu não gostei da forma como ela falou isso.
— Não.
— Mudou sim.
Ela se levantou devagar, ignorando o cansaço.
— Eu consigo sentir.
Eu dei um passo na direção dela.
— Não confia no que sente agora.
— Por quê?
Silêncio.
Porque a resposta não era simples.
Porque a resposta envolvia ela deixando de ser apenas humana… mais rápido do que deveria.
E isso não era algo que eu podia explicar sem piorar tudo.
— Porque a floresta gosta de confundir — eu disse, finalmente.
Ela me observou.
E então assentiu.
Mas não acreditou.
Eu vi.
Ela nunca acreditava totalmente.
E isso era perigoso… e útil ao mesmo tempo.
Um som distante cortou o ar.
Diferente dos anteriores.
Mais alto.
Mais organizado.
Eu virei o rosto na direção dele imediatamente.
Ela também sentiu.
Dessa vez não perguntou.
Só esperou.
— Eles estão mais perto — ela disse.
— Sim.
— E não são como os outros, são?
Eu não respondi de imediato.
Porque não eram.
E isso era o problema.
— Não — eu disse por fim.
Ela apertou os dedos.
Sem lâmina agora.
Sem proteção real.
Só ela.
— Então o que são?
Eu olhei para ela.
Por um segundo longo demais.
— Caçadores.
Silêncio.
O tipo de silêncio que muda o ar.
Ela entendeu rápido.
Rápido demais.
— Não da floresta… — ela completou.
— Não.
— De mim.
Eu não neguei.
Isso foi resposta suficiente.
Ela respirou fundo.
E pela primeira vez naquela noite…
Eu vi algo novo nela.
Não medo.
Decisão.
— Então eles vão me encontrar — ela disse.
— Vão tentar.
— E você?
Pausa.
Curta.
Honesta.
— Eu vou impedir.
Ela me encarou.
E dessa vez não havia dúvida nos olhos dela.
Só aceitação estranha.
Como se estivesse começando a entender o tipo de mundo em que caiu.
— Você sempre diz isso… — ela murmurou.
— E sempre cumpro.
Outro som ecoou.
Mais perto agora.
Eu me movi imediatamente.
— Levanta.
Ela não hesitou.
Isso era novo também.
Ela pegou a lâmina novamente, mesmo cansada, mesmo instável.
E ficou ao meu lado.
Não atrás.
Ao lado.
Errado.
Mas inevitável.
— Se eles vierem… — ela começou.
— Eles vão vir.
— Eu não vou correr.
Eu olhei de canto.
— Eu sei.
Silêncio.
E então, mais baixo:
— Isso é um problema.
Ela soltou um ar curto.
Quase um riso.
— Você fala isso como se eu fosse desobediente.
— Você é.
Ela me olhou.
E por um segundo… quase sorriu.
Quase.
Mas não foi hora de nada disso.
O primeiro deles apareceu entre as árvores.
E o resto… veio junto.
A floresta pareceu prender a respiração.
E eu também parei de pensar.
Porque agora…
Não era mais sobre o que ela estava se tornando.
Era sobre o que estavam vindo fazer com ela.
E isso eu não ia permitir.
Não dessa vez.