A campainha continua tocando e eu abraço Maddie com força. Meu desespero toma conta de mim, e eu não sei o que poderia fazer diante disso. Se for eles novamente, eu não terei muito tempo. Olho para minha menina que está com os olhos bem abertos.
— Titia, são os caras maus? Me dói vê-la com medo, me dói colocar esse medo nela.
— Titia não sabe, mas vamos fazer o seguinte. Vamos sair pela saída de emergência e comer a nossa pizza lá na pizzaria, tudo bem? Peço tentando passar tranquilidade para ela.
— Eba. Ela fala saindo dos meus braços. Suspiro em alívio. Tenho medo que algum dia ela fique traumatizada com tantos problemas que estamos passando. A campainha cessa, e eu fico com mais medo ainda. Me levanto e vou no quarto dela pego dois casacos e visto nela. Volto para o meu e coloco meu casaco também. Eu terei que procurar outro lugar. Isso não é vida. Ainda mais para uma criança. Me faz lembrar de como eu tinha realmente uma vida, de como eu era feliz.
Eu estava feliz e realizada. Tinha acabado de concluir meu curso de medicina e agora era começar a fazer a minha especialização. Queria ser pediatra. E faria tudo para isso.
Eu morava em New York a alguns anos. Deixei Washington para fazer minha faculdade de medicina aqui. Minha mãe estava viajando com seu sexto marido, então eu estava por conta própria. Tinha um apto de dois quartos. Tinha tudo que eu queria.
Não tinha muitos amigos aqui. A maioria morava em Washington, então minha vida era monótona, não saia de casa, afundava minha cabeça nos livros de medicina. Não tinha uma vida sociável.
Conheci Lanna, que fazia faculdade junto comigo, porém depois de três anos a pequena Maddie nasceu e assim Lanna largou seus estudos para se dedicar a sua filha e família. E Lanna também não tinha com que se preocupar. John Martinez, era um magnata. Um bilionário, que tinha uma empresa de construção civil conjunta com seus irmãos. Eles dominavam tudo em New York, e algumas cidades próximas, como New Jersey. Então, Lanna poderia ficar um tempo fora para cuidar da sua família.
Maddie é um doce de menina, muito esperta, bem falante. Era um sonho de menina. Lanna e John estavam apaixonados a cada dia por ela. E eu também era apaixonada por ela. Convivia muito com eles. Ás vezes Lanna deixava Maddie comigo para ter uma noite romântica com seu marido. Não que ela não pudesse pagar uma babá, mas eu gostava de ficar com a minha loirinha de olhos verdes.
Já tinha enviado meu currículo para o hospital Colin Medic. Estava esperando para fazer minha especialização lá. Trabalhar neste hospital seria a realização de um sonho. Ele é um dos mais conceituados, e tem tudo que um profissional quer. Eu mandei também para outros hospitais aqui perto, mas esperava mesmo minha aceitação aqui em New York, esperava trabalhar no renomado hospital Colin Medic.
Infelizmente a faculdade arrumou um hospital pequeno para eu fazer minha residência. Fiz durante quatro anos no hospital em Portland, então era uma viagem todos os dias, mas valeu o sacrifício, só não fiquei lá, porque era um hospital pequeno, onde não teria muitas chances, sendo assim, rejeitei a proposta deles e estou aqui
Acordei em um belo dia que minha vida iria mudar e eu nem sabia. Fiz minha corrida matinal, fui ao supermercado com a esperança de ser chamada para trabalhar no hospital, e não ter tempo para nada. Então eu tinha que abastecer minha geladeira e dispensa.
Porém como um passe de mágica, meu telefone tocou e a notícia da morte de John e Lanna me deixou muito abalada. A primeira coisa que pensei foi na pequena Maddie. Ela tinha os tios, mas não era nada comparado com os pais. Deixei tudo que estava fazendo e fui para casa dela.
— Titia. Maddie me tira das minhas lembranças. Já estávamos na pizzaria, e ela estava se esbaldando.
— Oi linda!Indaguei olhando para ela.
— Podemos ver o papai e a mamãe daqui de fola? Sorrio.
— Claro que sim. Titia vai te levar na pracinha e lá podemos ver melhor. Ela me dar um enorme sorriso. Sair pela escada de emergência e olhei na portaria se tinha carros parados. Não tinha nada. Eu não sei se eles haviam ido embora, ou se estavam esperando. Mas eu não iria ficar lá para ver tudo acontecer de novo.
Ao chegar na casa de Lanna e John já fui perguntando sobre Maddie. Um dos seus Tios já estava na casa e me olhou de baixo a cima. Não os conhecia muito. Sabia o pouco que Lanna contava, e ela não gostava dos cunhados. Não sabia o motivo e nem cheguei a questionar.
— O que faz aqui? Hugo Martinez me questiona ríspido e eu cruzo meus braços em desafio.
— Soube do que houve com Lanna e John. Queria saber de Maddie.
— Ela está no quarto com uma das empregadas. E não sabe ainda o que houve com os pais.
— Eu quero vê-la.
— Eu não acho que seja uma boa ideia. Isso é assunto de família. Seu tom de voz é de raiva.
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— Maddie, Lanna e seu irmão eram como se fosse da minha família. E você não pode me impedir de ver Maddie. Ele suspira.
— Veja a, por favor não conte nada. Queremos nós da família dar a notícia.
— Ok. Espero que vocês saibam dar a notícia com jeito, pois ela é uma criança de três anos. Ele vira as costas para mim, não dando a mínima. Eu não iria deixar Maddie desamparada, eles querendo ou não, eu participaria da vida dela.
Meu contato com Maddie foi muito triste. Ela não sabia o que estava acontecendo, mas sentia. Ficou horas no meu colo sem dizer nada, e eu também não. Eu tinha medo que seus tios não soubessem dar a notícia a ela. Tinha medo do futuro dela ao lado deles.
— Acabei, Titia. Podemos ver o papai e a mamãe agora? Olho para os olhinhos verdes pidões.
— Claro, minha menina. Vamos lá. Levantamos e eu vou até o caixa fazer o pagamento.
— Chocoate, chocoate. Maddie pede no meu colo.
— Me dar dois chocolates. Maddie bate palma toda meiga e sorridente.
Fomos para a pracinha e ficamos ali olhando as duas estrelas mais brilhantes. Maddie não tirava os olhos delas.
— Papai e Mamãe vão sempre cuidar da gente, Titia? Sua inocência me faz crê que um dia tudo isso terá fim.
— Sim meu amor. Eles vão sempre estar com a gente. Aperto ela em meus braços.
— Eu fiz um pedido. Ela fala e eu olho para a mesma.
— E qual foi meu amor?
— Que você seja minha mamãe e eu tenha um outro papai. Meus olhos encheram de lágrimas.
— Maddie, eu sou sua mãe. Independente se você nasceu de mim ou não. Eu te considero minha filha.
— Posso te chamar de mamãe? Deixo as lágrimas caírem.
— Sim. Como você quiser, amor.
— Plomete que não me deixar igual a mamãe Lanna? Aperto ela mais em meus braços.
— Prometo que vou sempre estar com você. Nada vai te acontecer. Vamos ficar unidas sempre. Ela não fala mais nada e fica olhando para as estrelas. Meu coração dói demais por ver um serzinho como ela passar por tudo que está passando. Ela não tinha que passar por nada. Merecia ser feliz, curtir sua infância.
Maddie acaba dormindo no meu colo. Vou andando até o ponto de táxi. Vou procurar um outro lugar para nós duas ficarmos, pelo menos até amanhã. Assim que amanhecer vou no apto sem ela. Preciso pegar nossas coisas.
Eu nunca pensei que seus tios fossem tão gananciosos. Achava que eles tinham os mesmos valores em dinheiro que John tinha, porém, eu fui descobrir depois que Hugo, Salvador e Andrew, não tem dinheiro algum, já que quem fez fortuna foi John.
Eu acreditei que os quatro irmãos eram herdeiros de uma fortuna deixada pelos pais, mas não, eu estava enganada mais uma vez. Os pais deles deixaram uma empresa quase falida, onde John trabalhou arduamente e erguei a mesma construindo assim um império e a sua fortuna. E hoje é por isso que me vejo assim. Perdida, triste ao ver um pequena sofrer tanto com a maldade do ser humano. Maldade dos seus. Seu sangue. Custei a entender o motivo de tentar matar Maddie e a mim. Custei a entender que se eu não fugisse, eu perderia esse doce de menina e também não viveria mais.
Coloco Maddie na cama após chegar no hotel. Ás vezes tudo que eu queria era que nada disso estivesse acontecendo.
Vou para o banheiro e me sento no chão. Choro em desespero. Não quero demonstrar minha fraqueza para Maddie. Ela já está assustada demais para que eu coloque mais uma pressão em cima dela. Mas a verdade é que me sinto desesperada, me sinto m*l, me sinto sem forças para lutar.
Não posso me deixar abater, porém eu não sei o que fazer mais diante disso. Não posso recorrer a ninguém. Não posso falar com a polícia. Todos corrompidos por animais que só pensam no dinheiro. Minha mãe, essa eu nem sei como está. Não falo com ela a meses e tenho medo de ligar para ela e os tios de Maddie rastrear onde nós estamos.
Limpo minhas lágrimas e resolve descansar minha cabeça. Eu preciso reunir forças para amanhã enfrentar seja lá o que for. Preciso ter forças para continuar lutando pela vida dessa menina que não tem culpa de nada. Preciso lutar por mim. Só assim poderei dar a ela um futuro melhor.
Amanheceu e antes de ir para o apto deixo Maddie na escolinha. Ela foi sem nada. Sem sua mochilinha, sua merendeira. Passei somente em algum lugar e comprei algo para ela levar e não ficar com fome. Ainda bem que ela não ligou. Achou até legal levar seu lanche em saco de papel.
Eu tinha que trabalhar também, mas liguei para o hospital e falei que iria atrasar. Não dei muitas justificativas, pois sabia que teria que me justificar na direção. Fui para o apto e não tinha nenhum carro estranho, mesmo assim eu não poderia confiar. Subir cautelosa e já entrei no meu apto. Não tinha nada fora do lugar, pelo menos na sala. Adentrei mais e tudo estava do jeito que deixei. Suspiro e me sento na cama.
— O que faço meu Deus? Me ajude. Falo alto para mim mesma. Levanto já querendo pegar minha mala, mas novamente escuto a campainha tocar. Fico estática e com medo que a porta seja arrombada. Eu estou cansada disso. Tão cansada que se houvesse alguém para me ajudar eu me apoiaria nessa pessoa.