— Olá, Sarah! A voz excessivamente alegre de Alice soa pelo telefone. — Tive uma ideia. Quero que você organize um pequeno jantar em família para nós hoje. Tipo um ensaio antes do casamento. Bom, para que todos possam ver o lugar e apreciar o ambiente. O restaurante é o mesmo onde será realizada a cerimônia. O que você acha?
Pisco algumas vezes, pensando que desobedeci.
— Alice, não combinamos nada disso. E, para ser sincera, isso não está na minha lista de responsabilidades. Tenho tantas coisas para fazer esta semana, e hoje…
— Ah, não exagere. Ela ri alegremente. — É só um jantar. E você, claro, receberá um pagamento extra.
Alice não entende que não se trata de dinheiro. Suspiro, enxugando o suor da testa com a palma da mão. Todos os meus músculos se tensionam.
Porque entendo imediatamente: se eu organizar esse jantar, com certeza verei os pais do Mark. E era como se eu estivesse me preparando para isso. Eu até aceitei esse emprego para me livrar dos fantasmas do passado, mas não imaginava que essa reunião aconteceria tão cedo.
Mas eu já prometi a mim mesma que não fugiria. Se eu começar, tenho que ir até o fim.
— Certo. Digo baixinho ao telefone. — Eu organizo tudo. Só me diga quantos convidados serão.
— Ótimo! Exclama Alice, radiante. — Então te vejo à noite. Te mando a lista.
Desligo o telefone e fico sentada na cadeira por um longo tempo, encarando a parede. E, pela primeira vez em muito tempo, estou com medo de verdade.
Mark
Estou sentado no meu escritório, a tela do meu laptop à minha frente, documentos empilhados ordenadamente, mas minha atenção está dispersa. Os meus olhos percorrem o texto, mas não estou lendo nada. Meus pensamentos continuam voltando para Sarah.
Ela... se tornou uma parte excessiva da minha vida ultimamente. Não profissionalmente. Não como organizadora de casamentos. Mas como uma mulher que... fez parte da vida do meu irmão.
Fecho os olhos por alguns segundos e vejo aquela cena novamente — no seu túmulo. E as palavras que consegui ouvir. Quase nada. Mas o suficiente para entender: ela não estava mentindo. Ela é uma vítima das circunstâncias. E, ao que parece, sofreu muito mais do que qualquer um de nós.
Suspiro profundamente. Preciso falar com meu pai.
Essa conversa que venho adiando há dias. Semanas. Para ser honesto, desde o momento em que vi Sarah pela primeira vez. Eu sabia que o nome dela me lembrava de algo. Mas eu esperava... não sei o quê. Não importa agora.
Se ele a reconhecer primeiro, vai ser pior. Sinto isso na pele. E, ao que parece, estou me preparando internamente para um confronto sério.
O telefone toca e, automaticamente, estendo a mão para atendê-lo, sem olhar. Mas assim que vejo o nome, imediatamente quero desligar. É Alice.
Ela sempre liga na hora errada. E sempre com ideias que me dão dor de cabeça. Mas não posso ignorá-la. Não agora, faltando tão pouco para o casamento.
Aperto "atender" e espero por mais uma ideia genial.
— Sim?
— Olá, meu amor! A voz dela é tão doce que cerro os dentes involuntariamente. — Tenho uma surpresa para você!
— Não gosto de surpresas. Tento manter a calma, recostando-me na cadeira.
— Você vai gostar desta! Vai ver! Ela ri, e eu me irrito.
— O que você inventou agora? Pergunto. — Mark, é uma surpresa! Alice finge estar ofendida. — Estou te esperando no restaurante que será nosso casamento hoje às oito.
— Então você está me convidando para jantar? Pergunto.
— Isso mesmo. Até mais.
Depois de falar com ela, não largo o telefone por um bom tempo. Como se estivesse esperando que ele explodisse ou que outra “agradável” surpresa surgisse. Que sorte a minha não gostar de surpresas, não é? Principalmente daquelas com as quais tenho uma relação direta e, ao mesmo tempo, não sei nada a respeito.
Exatamente às oito horas, paro o carro e olho pelas janelas do restaurante, de onde entra uma luz amarela e quente. Parece um jantar comum. Mas eu já conheço bem a minha noiva. Se ela diz “surpresa”, então com certeza alguma coisa vai me surpreender. Provavelmente algo desagradável.
Caminho até a entrada. A recepcionista me cumprimenta imediatamente e me conduz ao salão. Em poucos segundos, vejo Sarah. Ela está de pé junto à mesa, onde o vinho, os pratos e os guardanapos já estão dispostos, conversando com o garçom, coordenando algo. O seu cabelo está preso num coque despojado e o seu vestido é discreto, porém elegante. Ela definitivamente não parece uma convidada. Mas como organizadora, é perfeita.
De repente, sou tomada por uma sensação de desconforto. Nem tenho tempo de encontrar o seu olhar quando Alice surge por trás dela. Um sorriso largo, um abraço, um beijo na bochecha.
— Você veio! Ela exclama alto demais. — Perfeito! Tudo como eu queria!
— Você não disse que este jantar não seria só para nós. Pergunto, um pouco tenso. — O que Sarah está fazendo aqui?
— Claro que não é só para nós. Ela ri. — É um jantar de ensaio com nossos pais, e Sarah me ajudou a organizar tudo.
Não tenho tempo para responder nada quando os pais de Alice entram no salão. Eles parecem oficiais, como se tivéssemos nos reunido não para um jantar, mas para negociações de negócios. Aceno em resposta ao cumprimento, mas um sinal de alerta já começa a soar na minha cabeça.
— E meus pais estarão aqui? Pergunto a Alice cautelosamente.
Ela se vira para mim com o mesmo sorriso presunçoso.
— Claro. Eu os convidei. Queria que todos se conhecessem melhor antes do grande dia. Não precisa agradecer, Marchyk.
Mas eu não ia agradecer.
Olho para Sarah, que está um pouco de lado, e a vejo olhando para a porta. A sua postura é tensa, os braços cruzados sobre o peito. Ela está esperando meus pais aparecerem.
Alice está ocupada conversando com os pais, o que me dá alguns preciosos minutos. Recupero o fôlego e me dirijo imediatamente para onde Sarah está.
Ela está conversando com o garçom, segurando um caderno nas mãos. Mas, pelos seus movimentos, percebo que está mais fingindo do que trabalhando. Os seus ombros estão tensos e o seu olhar se desvia constantemente para a entrada. Ela também está esperando por eles. Ela tem medo desse encontro. E eu entendo isso melhor do que ninguém.
— Sarah. Digo baixinho, parando ao lado dela. Ela estremece como se eu a tivesse assustado.
— O quê? Ela pergunta, tentando parecer calma.
— Escuta… Você ainda pode ir embora. Só larga tudo e vai. Agora.
— O quê?
Estou chegando perto. Não quero que nos ouçam.
— Meus pais ainda não chegaram. Digo rapidamente. — Mas estão a caminho. Se eles te virem, tudo virá à tona. Você não quer isso.
— Vai vir à tona de qualquer jeito. Ela responde. A sua voz é firme, mas seus olhos dizem o contrário. — Não posso me esconder para sempre.
— Eu entendo. Cerro os dentes. — Mas vamos lá, não hoje. Não assim.
— Não é problema seu, Mark. Ela diz bruscamente, e fogo aparece nos seus olhos. — Estou apenas fazendo o meu trabalho.
— Não vou deixar você se machucar. Admito, quase sussurrando. — Mas se você ficar, será difícil para mim te proteger.
Sarah me olha confusa, e eu entendo o porquê. Uma confissão dessas… É franca demais.
E nesse exato momento, enquanto trocamos olhares, outro casal entra na sala. Meus pais.
O meu coração aperta no peito. Sarah também os vê. As suas mãos tremem enquanto seguram o caderno.
Pergunto novamente:
— Você ainda pode ir embora. Por favor.
Mas ela permanece de pé. Não se move do lugar e os encara diretamente nos olhos.