Episódio 13

1624 Words
Timur Pavlovich Dagaev Observo a foto dele, um pouco desbotada desde a época em que ele sorria e estava feliz. O meu coração para por um instante, mas respiro fundo e o acalmo. Me ajoelho. Coloco flores num vaso. Apoio a palma da mão numa pedra fria. — Olá. Sussurro. A voz está trêmula. — Desculpe-me por não ter vindo antes. Muito trabalho. Em resposta, silêncio. Apenas o vento murmura em algum lugar no topo das árvores. — Conheci seu irmão. Acrescento baixinho. — Ele se parece tanto com você que o meu coração para de bater quando o vejo. Sabe, parece que o destino me castiga demais, me enviando isso depois de tantos anos. Mas eu vou superar. Sou forte. Dou uma risada. Surda e amarga. E enxugo as lágrimas que nem percebi. — Para ser sincera, sinto muita falta de você. Continuo. — De nós dois. De como você me olhava. De como me apoiava. De como acreditava em mim quando nem eu mesma conseguia. Em resposta, ouço apenas silêncio. Não me surpreendo, pois não acredito em milagres. Timur não vai se levantar. Ele só pode me ouvir, mas nunca mais responderá. Enxugo as lágrimas que escorrem pelo meu rosto e preparo-me para ir embora, mas paraliso de terror, porque a três metros de mim... não, não é Timur. É Mark. As suas mãos estão cerradas em punhos e o seu olhar está fixo em mim. Não tenho ideia de quanto tempo ele está aqui, mas a última coisa que quero é... A cena se cruza ao lado do túmulo do irmão dele... Parece que estou paralisada. Mark está muito perto. No seu olhar, algo misturado. Dor. Culpa. Surpresa. Talvez até raiva. Ou talvez tudo junto. As suas mãos estão cerradas em punhos, como se fosse a única coisa que o impedisse de fazer algo... imprudente. Ele dá um passo na minha direção. Não recuo, embora cada célula do meu corpo queira fugir. Mas fico. Não entendo por quê. — Desculpe. Diz ele baixinho. A voz é rouca, profunda. — Eu não queria... Não pensei que te veria aqui. Só vim visitar Timur. Desculpe por ter me intrometido. Engulo o ar. Seco e doloroso. — Você tem todo o direito de estar aqui. Respondo, inclinando a cabeça para trás, evitando o seu olhar. — Este é seu irmão. Dou um passo para o lado, tentando contorná-lo. Mas ele toca o meu cotovelo. O seu toque é leve, cauteloso, mas meu corpo reage instantaneamente. Uma onda de formigas percorre a pele, esfria em algum lugar abaixo do coração e sobe novamente. Estou congelando. Levanto os olhos lentamente. O seu olhar encontra o meu. Esses olhos são iguais aos de Timur. Só que diferentes. Eles têm algo a mais. Muito mais maduros e profundos. — Sara... Sussurra. — Você está bem? — Não há lugar para conversar. Disse ele, e m*al consigo me ouvir. Mark acena com a cabeça lentamente. Ele não solta a minha mão imediatamente, mas em um segundo a segura. — Bem. Diz ele. — Mas fico feliz que você tenha vindo. Ele gostaria... ele gostaria. Acho que sim. Não respondo. Apenas sigo em frente, tentando manter as costas retas e não girar. E só quando saio do cemitério, permito-me expirar. A cabeça gira, e por dentro é um deserto. Porque nada dói como um encontro com o passado, ao qual não há mais volta. E com um olhar... que pertence a outro, mas que ainda assim, de alguma forma, parte o meu coração. Entro no carro, batendo a porta com um pouco mais de força do que o necessário. Quero ir embora daqui o mais rápido possível. Só quero estar em casa e me esconder debaixo de um cobertor quentinho, como já fiz tantas vezes. Ligo o motor. Nada acontece. Mais uma vez. E ainda assim... Silêncio. Dia*bo. — Bom, vamos lá, murmuro entre os dentes, pisando no acelerador e girando a chave novamente. O motor nem tenta pegar, como se estivesse zombando de mim. — Ótimo. Murmuro, encostando-me no banco, e tento. De novo. Nada de novo. Sou tomada por raiva, frustração e confusão. Não, bem, isso não me basta agora. Saio do carro batendo a porta e ouço passos nesse instante. Levanto a cabeça e vejo Mark. Claro. Como um fantasma do passado. Inoportuno de novo. — O que aconteceu? Ele pergunta, se aproximando. Na voz – nenhum sinal de ironia – pelo contrário, interesse sincero. — O carro não pega. Respondo com cansaço, apesar disso. — Isso é o que eu estou vendo. Deixa eu fazer isso. Hesito involuntariamente, mas ele acena com a cabeça e dá um passo para trás. — Você não vai acreditar em mim. Ficar virando não é bom. Mark está no lugar certo. Observo-o girar a chave – com cuidado, com confiança. Ele está completamente concentrado, como sempre, quando toma uma decisão. Gostaria de vê-lo no meu vídeo divino. Uma mistura de irritação, nostalgia e… gratidão. Então, vamos lá. Fico de lado, com os braços cruzados sobre o peito, observando Mark mexer no capô do meu carro. Ele se inclina, examina algo cuidadosamente, clica e gira alguma coisa. Para mim, tudo sob a cobertura de metal é completa escuridão. Como outro universo, onde eu nem sequer quero mergulhar. Mas a visão de um homem que sabe o que está fazendo é de alguma forma hipnotizante. — O quê, você entende de carros? Pergunto, incapaz de me conter. Mark levanta a cabeça. Há um sorriso no seu rosto. O mesmo sorriso dolorosamente familiar, tão parecido... Algo no meu peito se contrai num espasmo. Desvio o olhar, porque mais um pouco e perderei o controle. — Não, Sarah. Interrompo-me mentalmente. Este não é Timur. É outra pessoa. É o noivo para quem você precisa organizar um casamento grandioso. — Eu sei muitas coisas. Ele finalmente responde, e sinto a ironia na sua voz. — Tente começar de novo. Sento-me ao volante, giro a chave – e… o motor ganha vida. O mundo se ilumina num instante. — Nossa! Quase exclamo, rindo. — Pegou! Sorrio de todo o coração. Um sorriso verdadeiro, sincero. Daqueles que não acontecem com frequência. E nesse exato momento a porta se abre. Mark está ao meu lado, olhando-me atentamente. O seu olhar demora-se no meu rosto, e o sorriso nos meus lábios congela. Os seus olhos, lentamente, como que deslizando, movem-se dos meus lábios para os meus olhos. Ele fica em silêncio. E eu também. É apenas um instante, mas parece mais do que uma hora. Quero dizer algo, fazer uma piada, quebrar essa tensão, mas minha mente está vazia. Mark se afasta da porta e a fecha atrás de mim. Fico sentada em silêncio por um momento, o meu coração se recusando a voltar ao normal. Quando saio do carro, segurando a porta, vejo Mark abaixando o capô. As suas mãos estão um pouco sujas, mas ele parece não se importar. Os nossos olhares se encontram novamente, e desta vez sou eu quem desvia o olhar. Porque se eu o encarar por mais um segundo sequer, vou esquecer como respirar. — Obrigada. Digo, tentando manter a voz firme. — De verdade. — Sempre um prazer ajudar. Ele diz calmamente, mas algo na sua voz muda ligeiramente. Seria suavidade, ou... preocupação? Dou uma olhada ao redor para o céu. Já está escurecendo. O crepúsculo está rapidamente envolvendo tudo ao meu redor, e só agora percebo o quão escuro ficou. A cidade ainda está lá longe, e aqui – a estrada, a faixa de mata... e o cemitério na curva. — Acho que vou indo. Está ficando tarde. Aceno com a cabeça em direção à rodovia. — De alguma forma, não me apetece passar a noite na companhia de túmulos. O seu sorriso desaparece como uma sombra no seu rosto, mas ele não se opõe. — Até logo, Mark. Digo baixinho, entrando no carro. Ligo o carro. Ele não está mais tão instável. Provavelmente graças a ele. Entro na estrada e dirijo lentamente em direção à cidade. Pelo retrovisor, vejo-o caminhando até o carro dele. E um minuto depois, os faróis acendem. Ele me segue. E mesmo com a estrada escura, estou inesperadamente calma. O carro dele fica um pouco atrás. Ele não ultrapassa. Não buzina. Simplesmente dirige ao meu lado, a uma distância segura. Como uma sombra. Como proteção. Como algo indescritível. Isso continua até a entrada da cidade. Lá, em um dos cruzamentos, o carro dele vira à direita. Eu sigo em frente. E só então percebo o quanto me esforcei durante todos esses quilômetros. Volto para casa completamente exausta. Tiro os sapatos no corredor e quase me obrigo a arrasto-me até o banheiro. Fico um longo tempo no chuveiro, deixando a água correr pelo meu corpo, lavando a tensão, o cansaço, as emoções. A água está quente, mas me faz sentir melhor. É como se estivesse levando embora tudo o que é desnecessário, me deixando um pouco vazia. E pela primeira vez em muitas noites, a minha cabeça está tranquila. Sem perguntas. Sem ofensas. Sem dor. Quando me deito na cama, o meu corpo parece mais pesado que uma pedra. E até os pensamentos que normalmente me oprimem até a última gota não conseguem me atingir hoje. Simplesmente fecho os olhos e adormeço. No dia seguinte, trabalho de novo, reuniões de novo e preparativos para as festas. Na verdade, eu amo o que faço. O trabalho me ajuda a me distrair. Mas hoje algo não está certo, principalmente depois da ligação da Alice... Não tínhamos combinado uma reunião e conversamos sobre tudo, com certeza, mas a ligação dela me deixa um pouco nervosa. E com razão. Sei que terei que atender, então atendo no instante seguinte. – Alô?
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