Episódio 8

1787 Words
Dirigimos em silêncio por alguns minutos. O interior do carro está silencioso, exceto pela música que toca suavemente no rádio. A luz tênue dos faróis tremula no vidro, gotas de chuva correm em filetes finos, e tento me concentrar na estrada à frente. Mas meus pensamentos, assim como o meu coração, batem ansiosamente por dentro. Sempre tive certeza de que nunca seria a primeira a tocar em assuntos antigos. Que é melhor ficar em silêncio, apagar tudo da memória, esconder ainda mais. Mas agora… preciso saber. Preciso ouvir em voz alta. — Escute… Digo baixinho, sem nem olhar para ele. — Então, no casamento… seu pai. Ele não… me reconheceu? Mark não responde imediatamente. Estou até começando a me arrepender de ter perguntado. Mas então ouço a voz dele. Calma, mas com uma leve tensão: — Não. Ele não te reconheceu. Não havia nenhum indício de que ele soubesse quem você era. — Então… ele simplesmente… se esqueceu de mim? Pergunto, sem esconder a minha confusão. — Já se passaram dez anos, Sarah. Ele responde suavemente. – As pessoas mudam. A memória se apaga. Dou um sorriso amargo. Acho que não deveria revelar tanto, mas por algum motivo, agora, ao lado dele, não consigo parar. Talvez seja tudo por causa do álcool que bebi, ou talvez seja outra coisa… — Mas eu não consigo esquecer. A voz dele, os olhos dele… O jeito que ele gritou comigo naquela época… Mark fica em silêncio. Sinto a atmosfera no salão ficar tensa. — Não estou defendendo meu pai. Ele finalmente diz. — Ele estava destruído naquela época. Todos nós estávamos. E sinto muito que você tenha passado por isso. Finalmente me atrevo a olhá-lo. Seu perfil é marcante. A luz dos postes de rua, mas sua voz é tão sincera que algo dentro de mim se aperta dolorosamente. — Então… você realmente não vai ficar bravo comigo? Pergunto bem baixinho. – Depois do que aconteceu? Mark vira a cabeça para mim. Os nossos olhares se encontram. — Não. Ele diz simplesmente. — Não estou bravo. Porque eu sei a verdade. E essas palavras me fazem querer fechar os olhos. Chorar. Ou talvez, pela primeira vez em muito tempo, apenas respirar fundo. O carro para suavemente em frente à minha casa. Ficamos sentados num silêncio que eu não quero quebrar, mas que gradualmente começa a me oprimir. Já estou segurando a maçaneta da porta, quase saindo – mas algo dentro de mim não me deixa. Não posso simplesmente ir embora. Não desta vez. Me viro para ele. Mark está olhando fixamente para frente, mas eu sei – ele está esperando minhas próximas palavras. Os seus dedos repousam calmamente no volante, mas a tensão transparece na linha dos seus ombros, na mandíbula cerrada. Ele pensa. Vou dizer “boa noite” e desaparecer de novo. Mas não desta vez. — Escute. Começo baixinho, obrigando-o a olhar para mim. — Eu… pensei muito. E se você ainda não contratou outra pessoa… — Não. Ele me interrompe rapidamente. — Não contratei ninguém. Assinto levemente, engolindo o nó que se forma na minha garganta. — Vou organizar o seu casamento. Ele me olha como se não tivesse entendido direito o que eu acabei de dizer. — Sério? Ele pergunta, tentando esclarecer. — Sim. Concordo com a cabeça. — Mas não porque eu queira. E não porque seja fácil para mim. É só que… talvez seja exatamente o que eu preciso. Faço uma pausa, depois o encaro nos olhos. — Estou fugindo há dez anos. Me escondendo dos meus próprios medos, mas… Se você apareceu, então talvez o próprio destino esteja me dando a oportunidade de acabar com tudo aqui e agora. Aquela noite me destruiu. Mas talvez seja hora de aprender a deixar a dor para trás, não a conviver com ela. Mark não responde imediatamente. Mas seus olhos... Estão calorosos. E gratos. Pela primeira vez desde que nos conhecemos, não há um pingo de ceticismo ou dúvida nele. Apenas silêncio e uma espécie de entendimento entre nós. — Obrigado. Ele diz finalmente. — Vou dizer à Alice que você concordou. Eu aceno com a cabeça, sentindo algo mudar dentro de mim. Um pequeno passo, quase imperceptível. Mas um passo, mesmo assim. — Boa noite, Mark. Digo baixinho, abrindo a porta e saindo para a garoa fina. Ele não vai embora imediatamente, espera até que eu desapareça no corredor. E eu subo as escadas com a sensação de ter feito algo extremamente importante. Talvez, organizando este casamento, eu finalmente aprenda a aceitar o meu próprio passado. Vou olhar nos olhos do homem que me chamou de assassina e tentar me libertar de toda a dor. Acho que este é um ótimo primeiro passo. E eu também pensei que, depois de tais acontecimentos, não conseguiria dormir, mas, por mais estranho que pareça, dormi muito bem. Apenas acordei bem antes do despertador, porque isso também faz parte da minha vida. Não consigo dormir por muito tempo de manhã. E quase sempre chego ao escritório antes de todos. É a minha pequena rotina: alguns minutos de silêncio antes da loucura do dia de trabalho. Mas hoje, em vez do silêncio habitual, deparo-me com algo inesperado. Perto da mesa da administradora, um grande buquê de rosas brancas. Nada banal, colhido com bom gosto. Volumosas, delicadas, muito perfumadas. Fico paralisada por um instante, sem entender para quem são e por que estão ali. — O que é isso? Pergunto a Alina, minha assistente constante. — O mensageiro trouxe há alguns minutos. Disse que era para Sarah. A moça sorri misteriosamente. — Há também um bilhete. Com cuidado, retiro o cartão de entre os botões. Ainda não o li, mas já consigo adivinhar de quem são as flores. Quero te convidar para jantar. Se não se importar. Denis. Era esperado. E ao mesmo tempo, completamente inesperado. Quase não conversamos desde aquela noite, quando fugi das suas perguntas e consegui não dar uma única resposta. Uma mistura de sentimentos me invade – um leve calor e uma ansiedade excitante. Eu não teria ido antes. Mas depois de tudo o que aconteceu nos últimos dias, algo mudou em mim. Como se eu não quisesse mais me esconder. Fico parada com o celular nas mãos, hesitante. Mas meus dedos digitam uma mensagem sozinhos: Obrigada pelas flores. Não me importo de jantar. Escreva onde podemos nos encontrar. Envio sem hesitar e, um minuto depois, chega uma mensagem com o endereço. Talvez seja bobagem. Talvez eu me arrependa depois. Mas hoje me dou o direito de dar mais um passo à frente. Não por ele. Não por Mark. Mas por mim. Porque estou cansada de viver com medo. E cansei de ficar em silêncio. Na hora do almoço, o escritório está cheio da agitação habitual de reuniões, café, planejamento e esclarecimentos. Já visitei alguns locais para o casamento, conversei com novos clientes e até discutimos a possibilidade de uma cabine de fotos para uma futura pintura ao ar livre. Mas minha atenção ainda retorna ocasionalmente ao relógio na parede. Alice deve chegar em três minutos. A noiva de Mark. A mesma que vi ao lado dele quando ele entrou no escritório pela primeira vez. Francamente, ainda estou um pouco confusa com o fato de que todo o casamento deles não passa de uma farsa. Uma foto perfeita para os convidados, mas não há nada entre os noivos além de negócios. É difícil para mim entender, mas se Mark concorda com isso, quem sou eu para demonstrar o meu descontentamento? Confiro novamente as anotações deixadas pela assistente – ela ligou para Alice com antecedência, marcou um horário com ela e escolheu o próprio horário de chegada. Tudo conforme o planejado. E sabe o que é estranho? Estou calma. Muito calma. Ligeiramente agitada, mas sem pânico ou desespero. Talvez seja um sinal de que finalmente estou pronta para aceitar o passado não como uma ameaça, mas como parte da minha experiência. Talvez seja um sinal de que realmente quero seguir em frente. Viver. Verifico tudo duas vezes. Largo meu caderno e a caneta. Tudo pronto. E eu também. Na verdade, espero sinceramente que este passo não seja um erro, mas o começo de algo novo. Algo de que preciso. A porta se abre exatamente às duas horas, como um relógio. Alice aparece confiante, com um leve sorriso nos lábios, e imediatamente, sem esperar por um convite, entra no escritório. — Sarah, boa tarde! Diz ela, sentando-se na cadeira à minha frente. — Estou tão feliz que você tenha aceitado organizar o nosso casamento. Ainda não consigo acreditar. — Bom, você já está aqui, então acredite. Sorrio timidamente. — Ah, sabe, eu já imaginava que você aceitaria. É que o Mark… meu noivo, ele sabe como persuadir. Ele tem… várias alavancas de influência. Você entende. Aperto o caderno com força, mas não deixo transparecer nenhuma emoção no meu rosto. Essa frase dela soa como uma indireta. Ou talvez seja um aviso cauteloso. Ou talvez seja apenas uma demonstração de autoconfiança. Mas seja lá o que ela queira dizer, ela não faz ideia de quais alavancas me levaram a essa decisão. Ela não sabe do acidente. Daquela ala do hospital. Do grito do seu futuro sogro. Ela não sabe de nada. Então, deixo passar como água e vou direto ao assunto: — Podemos começar definindo o formato do evento? Você já consegue imaginar como será esse dia? Ela pensa por um instante, coloca o telefone à sua frente com confiança e começa a falar. A sua voz é alta, rápida, com um leve tom de exigência. Ela pensa por um momento, coloca o telefone à sua frente com firmeza e começa a falar. Sua voz é alta, rápida, com um leve tom de exigência. — Descobri que o casamento seria para centenas de convidados, com três locais por dia: uma pintura no jardim botânico, uma sessão de fotos no terraço de um dos hotéis da capital e a festa noturna numa propriedade rural. Tudo deveria ser elegante, caro, impecável. Ela me contou tudo, e eu, sinceramente, fiquei um pouco impressionado com a dimensão da celebração. Mas mesmo assim, anotei tudo com atenção, pedi detalhes, esclareci a paleta de cores, os gostos, as nuances. Depois de dez minutos, entendi: seria um casamento grandioso, e fazia tempo que eu não organizava um nessa escala. E embora por dentro eu estivesse ficando ansioso, por fora me mantive calmo e profissional. — Será um evento difícil. Disse ao final da reunião. — Mas farei de tudo para que seja o melhor da sua vida. Alice sorriu. E eu queria acreditar que o sorriso dela era sincero. E, em vez disso, me pego pensando: será que estou realmente pronta para ir até o fim?
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