Episódio 7

1114 Words
Não consigo fazer isso. Não me lembro mais de como é sorrir sinceramente. — Não preciso de novos laços. Digo baixinho. — Ainda não superei os antigos. Além disso, Mark é uma cópia exata do irmão. Só que melhor. — Então, ele é bonito? Eva sorri. — Muito. Concordo com a cabeça. — Mas isso não muda nada. Eu preciso manter distância dele. Eu m*al consegui me recompor. Não quero desmoronar de novo. A música aumenta, o meu coração começa a bater no ritmo do baixo. Eva e eu não estamos mais sentadas. Rimos, nos viramos, dançamos na multidão como se nada mais existisse além deste momento. Me permito relaxar. Mesmo que seja por uma hora. Mesmo que seja por algumas músicas. Depois dos drinques, a minha cabeça está um pouco confusa, mas agradável. As minhas pernas acompanham o ritmo sozinhas, o meu cabelo cai sobre os ombros e, pela primeira vez em muito tempo, sinto que sou apenas uma jovem na pista de dança, não uma sombra do meu passado. Até que… sinto alguém tocando o meu corpo. Viro-me abruptamente, sem nem ter tempo de me surpreender. Diante de mim está um homem alto e robusto. O seu rosto está escondido na penumbra. Ele se inclina muito perto e cheira a álcool. — Oh, linda, não fuja. A sua voz é rouca, como se misturada com fumaça de cigarro. — Você é tão bonita. Vamos tomar um drinque juntos? — Me solta. Digo calmamente, mas com firmeza, afastando a sua mão. — Não tenha tanto medo. Ele ri e tenta me agarrar novamente. — O quê, você bebeu demais? — Me solta! Digo mais bruscamente. Me debato, mas sua mão apenas aperta o meu pulso com mais força. Agora não é mais brincadeira. Um batimento cardíaco alarmante começa a bater no meu peito. Eu me contraio bruscamente, mas o aperto dele só fica mais forte. — Eu disse — não me toque! A voz falha, mas todos ao redor estão ocupados dançando, e o barulho da boate abafa até o grito. Eva também desapareceu em algum lugar e não há onde esperar por ajuda. Tento me soltar e já estou levantando a mão para golpear, quando de repente… — Solte-a. Uma voz baixa e fria soa muito perto. Mas há tanta firmeza nela que até a música parece parar por um instante. Viro-me e congelo, porque Mark está parado na nossa frente. O seu olhar é gélido. O seu maxilar está cerrado, suas mãos nos bolsos, mas em cada músculo há tensão, como antes de um golpe. — Quem é você? O estranho dispara. — Aquele que pergunta pela última vez. Solte-a. Agora. O estranho hesita. Mas algo na expressão de Mark o convence. A sua mão escorrega do meu pulso. Instantaneamente, dou alguns passos para trás, sentindo o meu corpo inteiro tremer. Mark não olha para mim — apenas para aquele homem. Com toda a sua ameaça silenciosa. — Sua to*la. Diz o estranho para mim e caminha em direção à multidão, se misturando a ela. Consigo respirar novamente. Graças a Deus. Mark se aproxima silenciosamente e finalmente encontra o meu olhar. — Você está bem? Pergunta ele baixinho. Eu aceno com a cabeça. Mesmo sabendo que não estou. Não, eu não estou bem. — E o que você está fazendo aqui? Pergunto, minha voz ainda tremendo, assim como as minhas mãos. — Você está me observando? — Não exatamente. Responde ele calmamente. — Estou aqui com meus amigos. Vi você e percebi que precisava de ajuda. — Obrigada. Digo secamente e quero ir embora, mas de repente Mark toca o meu cotovelo. Esse toque não é nada parecido com o daquele estranho. Os seus dedos são gentis e cuidadosos, e os seus olhos estudam o meu rosto. — Talvez eu devesse te levar para casa? Ele pergunta, e eu o encaro um tanto confusa. — Posso chamar um táxi. Respondo. — E você volta para seus amigos. Tiro a mão dele e vou até a mesa pegar as minhas coisas. Acho que é aqui que a noite pode terminar. Nos divertimos muito. Eva não está lá, então escrevo uma mensagem curta para ela e vou em direção à saída. Está garoando lá fora, então me abraço enquanto espero um táxi. E, infelizmente, já é tarde. O asfalto molhado brilha à luz dos postes. As pessoas se movimentam entre os carros estacionados, o som grave e risadas abafadas vêm da boate. E eu estou parada sob o toldo, me abraçando, tentando fingir que não estou com frio. Embora, na verdade, eu esteja tremendo. E não é só por causa da chuva. Esta parece ser a pior noite que tive em anos. E, para ser sincera, só quero ir para casa. Para a minha cama. Para debaixo das cobertas. E que ninguém me toque. Olho para a tela do meu celular – o táxi que deveria ter chegado há alguns minutos simplesmente desapareceu. E nesse instante, uma mensagem chega: Seu pedido foi cancelado. Pedimos desculpas pelo inconveniente.” — Ótimo. Murmuro para mim mesma e suspiro. Aperto o botão de rediscagem, mas o sistema diz que estou esperando há mais de vinte minutos. — Você está mesmo esperando um táxi na chuva? Ouço uma voz atrás de mim. Me viro – e, claro, vejo Mark. Agora não tenho dúvidas de que ele está me seguindo. — Eu já disse, posso ir sozinha. Respondo, mas minha voz já não tem a mesma confiança de alguns minutos atrás. Estou molhada, cansada e emocionalmente exausta. Estou com uma aparência patética, e não adianta me enganar. — Sim, você disse. Ele confirma. — Mas seu táxi acabou de ser cancelado. Desculpe, eu li a mensagem. Eu nem sei o que dizer. Não entendo o Mark de jeito nenhum. Ele deveria me odiar, como os pais dele me odiavam, mas há tudo, menos ódio, nos seus olhos. — Venha comigo. Ele sugere novamente, mais calmo desta vez. — Sem perguntas. Eu só te levo para casa. Prometo. Suspiro. Tento ponderar tudo novamente. Mas a escolha, na verdade, não é tão grande. — Tudo bem. Digo baixinho. — Mas sem conversa. — Combinado. Ele responde secamente e me oferece a mão para me guiar até o carro. Hesito — só por um instante. E então coloco a minha mão na dele. E aquele toque… tão caloroso, tão carinhoso… agradável demais para ser mera formalidade. Caminhamos em silêncio até o carro dele. A chuva encharca as nossas roupas, e tento não pensar em como o meu coração muda a cada gesto dele. Porque há algo nesses gestos que não sinto há muito tempo. Proteção e proximidade. Uma combinação perigosa demais.
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