Episódio 6

1402 Words
— Por quê? Sarah não esconde a surpresa. — Quero saber mais sobre você. Digo sem rodeios. — Você está brincando? Sarah franze a testa. — Você tem uma noiva! — Mas não é disso que estou falando. Sorrio. — Quero saber mais sobre você do que sobre a namorada do meu irmão. — Seu irmão morreu. Diz ela asperamente. — Muitos anos se passaram. O que você quer saber? — É isso. Mantenho a minha posição. — Entendo que seja difícil para você voltar ao passado, mas ele era meu irmão, e talvez eu não soubesse algo sobre ele. — Se você não sabia algo sobre ele, então o problema é seu. Diz ela friamente. Sinto a sua voz tremer. — E eu não quero voltar ao passado. Não quero me lembrar. Aquela noite… Foi terrível. Perdi Timur e… uma parte de mim. Quero perguntar o que ela quer dizer, mas vejo uma lágrima escorrendo pela bochecha da garota e me sinto um completo id*iota. Sarah a enxuga com a palma da mão, abre a porta do carro e entra. Ela olha apenas para frente enquanto liga o motor e sai dirigindo bruscamente. Fiquei parada num estacionamento vazio, com as mãos nos bolsos e essa sensação m*aldita no peito que me impede de respirar ou dar um passo. O carro da Sarah desaparece na curva, e eu ainda consigo ver os olhos dela. Cheios de dor. Talvez eu seja mesmo um id*iota. Eu só queria conversar. Só para saber mais. Mas parece que eu removi a película de uma ferida antiga que ainda não cicatrizou. E só agora percebo que essa garota, essa mulher forte e resiliente, luta todos os dias com uma dor que eu nem sequer consigo imaginar. Por algum motivo, o que me vem à mente não é a imagem dela no casamento, nem as instruções claras que ela deu à equipe, mas os olhos dela – profundos, cansados, com uma sombra de perda. E aquela lágrima. Doeu mais do que qualquer palavra. Eu não tinha o direito de insistir. Eu não tinha o direito de perguntar. Mas eu não podia fazer de outro jeito. Não depois de tudo. Suspiro e passo a mão pelos cabelos. Estão frios. O vento bate no meu rosto, mas continuo ali parado, como se estivesse congelado. Pela primeira vez em muitos anos, não sei o que fazer. Sei de uma coisa com certeza: preciso falar com meu pai. E descobrir a verdade até o fim. Não trechos, não o que era conveniente dizer naquela época, dez anos atrás. E só. Porque agora vejo diante de mim não o inimigo da nossa família, não o "culpado" que meus pais odiavam com tanta veemência. Vejo uma pessoa com dor constante e um vazio no peito. SARAH Passaram-se vários dias desde aquele casamento. Desde aquela noite, depois da qual ainda não consegui dormir por muito tempo. Cada segundo se repetia na minha cabeça: o olhar de Mark, suas palavras, sua presença, ecoando em mim, mesmo quando eu estava sozinha. Mas o pior não era ele. O pior era o pai dele. Ele estava lá. Sentado entre os convidados, rindo, fazendo brindes, beijando a esposa na têmpora, como se nada tivesse acontecido. Como se ele não tivesse, dez anos atrás, invadido o meu quarto de hospital gritando: "É tudo culpa sua!" Um olhar foi suficiente para meu coração afundar. Mas ele não me reconheceu. Ou fingiu não me reconhecer. Talvez os anos realmente apaguem rostos da memória. Ou talvez a minha figura magra da época, as olheiras e os dedos trêmulos fossem tão diferentes que agora eu sou simplesmente diferente. Não sei como teria sobrevivido àquela noite se ele tivesse descoberto. Provavelmente teria desaparecido desta cidade novamente, como sonhei certa vez. Ou talvez eu simplesmente tivesse fugido dali, deixando tudo e todos para trás. Mas as coisas aconteceram de forma diferente, e eu ainda estou aqui. Hoje é sábado. O primeiro sábado em anos, sem nenhum pedido sequer. Chequei duas vezes, porque não conseguia acreditar que a agenda estava vazia. Até respirar ficou mais fácil. Talvez eu devesse ter ficado em casa. Passar o aspirador nos tapetes. Guardar as coisas. Me agarrar ao teto, como sempre. Mas Eva – minha eterna força motriz – insistiu em outra coisa. — Vamos para a balada. Ela disse, e eu concordei. Não porque eu quisesse. Não porque eu goste de música alta, gente bêbada e a agitação do bar. Mas, porque eu não queria ficar em casa com pensamentos que, mais uma vez, começavam a me sufocar. Hesitei bastante sobre qual vestido usar. Analisei as opções, como se isso fizesse alguma diferença. No fim, optei por um vestido preto – simples, de mangas compridas, que deixava à mostra um pouco da minha clavícula, mas nada demais. Eva já me esperava na entrada da boate. Ela sorria abertamente e com ar despreocupado, acenava com a mão e gritava meu nome, como se estivéssemos no recreio da escola. E eu fui até ela, pensando em como eu precisava dessa noite. Ou não precisava. Eu mesma ainda não entendi completamente. Eva e eu entramos na boate, onde uma onda abafada de graves, misturada com aromas de álcool, perfume e tabaco caro, me atingiu imediatamente. Franzi o nariz involuntariamente. Definitivamente, este não é o meu mundo. Mas Eva segurou o meu pulso e me conduziu com segurança pela multidão, como se fosse um mar de corpos e flashes de luz. Felizmente, chegamos ao segundo andar – ao salão superior, onde a música não martelava mais as nossas têmporas, mas simplesmente soava ao fundo. Há bem menos gente aqui, o ambiente é mais intimista e finalmente consigo respirar. Sentamo-nos numa mesinha perto da balaustrada, de onde se vê a pista de dança lá embaixo – um mar colorido de movimentos caóticos. — Finalmente. Eva suspira e chama o garçom. Ela faz o pedido e tenta ajeitar um pouco o vestido curtíssimo. Eu sorrio. Eva é a mais agitada da nossa empresa. Ela adora qualquer emoção, enquanto eu sou mais tranquila. Quando os copos chegam às minhas mãos, fico em silêncio por mais um minuto, examinando a bebida com cuidado, e só então me inclino um pouco para a frente. — Eva… tenho algo para te contar. — Parece sério. Ela fica cautelosa e já não está tão despreocupada como há alguns minutos. — É verdade. Suspiro. — Recentemente conheci o irmão gêmeo do Timur. Ele veio ao escritório com a noiva. Queria que eu organizasse o casamento deles. E então… nos encontramos mais algumas vezes. — O quê? Os olhos de Eva se arregalam em surpresa. — O irmão do Timur? Nossa… Eu aceno com a cabeça, porque não sei o que mais dizer. Enquanto Eva pondera sobre o que acabou de ouvir, tomo um gole do meu drinque. — Espera. Um casamento? Ele… vai se casar? O interrogatório continua. — Formalmente. Ele disse que era um contrato, nada mais. Mas… Tomo outro gole do meu drinque, supostamente para tirar o gosto amargo das palavras. — E o que aconteceu? Ele te reconheceu? — Não. Ele nunca me viu. E então eu mesma contei a ele. Sobre o acidente. Sobre o Timur. Sobre o fato de eu estar com ele naquela noite… Eva fica em silêncio. Digerindo a história. Dou-lhe tempo. — E como ele reagiu? — Calmamente. Sem ódio. Sem reprovações. Apenas ouvindo. Eva toca a minha mão delicadamente. — Sarah, você entende que isso é… bem, não era nada do que você esperava? — Exatamente. Concordo com a cabeça. — Eu esperava um grito. Acusações. E ele simplesmente sentou-se à minha frente e ficou olhando. Eva fica em silêncio por mais um tempo e então suspira: — Me parece que ele não apareceu do nada. E não é só que você não conseguiu ficar quieta. Parece que… algo conecta vocês. — Eva… Quero interrompê-la, mas minha amiga continua: — Não, sério. Ela me interrompe, tocando a mão novamente. — Eu entendo como isso soa estranho. Mas talvez… ele se sinta atraído por você justamente porque você foi a última a ver Timur vivo. Talvez ele precise entender algo, sentir algo, terminar algo. Talvez ele esteja sofrendo como você. Fico em silêncio. O meu olhar se volta para baixo, para um casal apaixonado que circula sob as luzes de neon. Ele a abraça forte, e ela ri. Leve e despreocupadamente. ‍​ ‌
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