Episódio 5

1742 Words
Mark Estou entre os convidados, ouvindo o anfitrião ler solenemente as palavras do juramento ao microfone. A minha noiva ri ao lado dela, suas amigas batem palmas, alguém atrás dela filma com o celular. Tudo parece normal. Lindo, perfeito, como deveria ser. Mas meu olhar volta repetidamente para aquela que está de pé ao lado com um tablet nas mãos, como se estivesse guardando este dia. Sarah. Notei-a imediatamente. Ela não olha na minha direção, mas vejo-a encolher os ombros levemente assim que os nossos olhares se cruzam. As suas costas estão tensas, seu rosto, sereno. Ela parece querer desaparecer. E eu a entendo. Tudo virou de forma tão estranha. Literalmente de cabeça para baixo. Eu sabia desde o início que Timur estava dirigindo naquela noite. Fiz meu pai me mostrar tudo: o protocolo, os laudos periciais, os registros. Foi terrível – ver como o erro do meu irmão lhe custou a vida. Ele estava bêbado. Bêbado e teimoso. E então começou a chover – visibilidade zero, sem controle. Mais tarde, li que havia uma garota no carro com ele que sobreviveu. Mas então… eu não a procurei. Não quis. Só havia um pensamento na minha cabeça: Timur se foi. Então me isolei. E voltei para outro país – para terminar os meus estudos, para me manter firme, para não desmoronar. E agora – aqui estou eu. Dez anos se passaram. Morei com meus pais por quase um ano, me acostumei novamente com o meu país natal, com o fato de meu irmão não estar mais lá. Mas eu não imaginava que um dia, assim, de repente, no escritório iluminado de uma agência de casamentos, eu a encontraria. A garota daquele carro. Meus pais a consideraram culpada. É por isso que ela tem tanto medo de encontrá-los. Foi tão conveniente para eles. Precisavam apontar o dedo para alguém. Os pais não conseguiam admitir que o filho era o culpado. Que ele dirigiu bêbado e destruiu não só a si mesmo, mas também a vida da mulher que agora está diante de mim com os dedos trêmulos. E quando ela me contou tudo no escritório, fiquei atônito. Sim, simplesmente sentei e permaneci em silêncio. Não porque não tivesse nada a dizer, mas porque não senti raiva. Não havia raiva. Havia surpresa. E algo como culpa. Por não ter sabido por tanto tempo. Por não tê-la encontrado antes. Por não ter olhado nos seus olhos. Por não ter ouvido o seu choro. O seu ataque de pânico me convenceu mais uma vez de que essa garota era simplesmente uma vítima das circunstâncias. E por mais que eu amasse o meu próprio irmão, de alguma forma eu não o entendia. Porque naquele dia ele morreu e quase mandou essa garota para o outro mundo. E agora eu a olho – uma mulher que carrega dentro de si há décadas algo que não deveria carregar. E vejo como é difícil para ela sequer ficar aqui perto de mim. E, droga, não entendo por que isso me incomoda. Por que não consigo tirar os olhos dela? Por que quero me aproximar e dizer que não sou como elas? Que não quero odiá-la? E talvez eu queira... algo completamente diferente? Mas fico parada. E olho. E penso que o mundo não é apenas pequeno. É também um brincalhão cru*el, porque nos proporciona encontros tão incríveis. A cerimônia termina e todos os convidados se dirigem para cumprimentar os recém-casados. A minha noiva já está um pouco à frente – conversando animadamente com os parentes, inclinando-se para as amigas, sorrindo para a câmera. Ela está no seu elemento agora, então tenho um tempinho para me distrair. E dou um passo para o lado e vou na sua direção. Sarah está parada junto às colunas com um tablet nas mãos, como se estivesse fingindo consultar a programação. Mas eu percebo – assim que ela me nota pelo canto do olho, as suas sobrancelhas se movem, os seus ombros se enrijecem. Isso não é tensão. É uma defesa. Ela está construindo um muro ao seu redor novamente. Ela tem medo de mim, e eu consigo sentir isso. Não estou julgando. Não estou com raiva. Só entendo o porquê. Eu sou... como ele. O mesmo rosto. Os mesmos olhos. As mesmas feições que ela provavelmente viu pela última vez através do sangue e dos cacos de vidro, dez anos atrás. E talvez seja por isso que ela tem medo de mim. Porque sou o fantasma do passado dela. Sou uma cópia viva de alguém que desapareceu. Alguém que talvez tenha prometido algo importante a ela. Alguém que talvez tenha sonhado com uma vida ao lado dela. E agora estou aqui, e nem sei por que não consigo ficar longe. Vejo-a desviar o olhar. Querendo desaparecer. Querendo que eu me misture à multidão como todos os outros. Mas não pretendo desaparecer, e me aproximo. — Não se preocupe. Digo baixinho, parando a um braço de distância. — Só vim dizer "olá". Ela não responde. Apenas aperta o tablet com mais força, e vejo os seus dedos tremerem um pouco. — Você tem medo de mim? Pergunto diretamente. Ela fica em silêncio novamente. Ela apenas me olha. Não nos olhos – um pouco mais abaixo. Para o peito. Para o botão do casaco. Para qualquer lugar, mas não onde eu possa ver a sua verdadeira reação. — Acho que você deveria voltar para sua noiva. Ela finalmente diz. — E se eu quiser ficar aqui? Pergunto diretamente, e Sarah suspira, de um jeito meio desanimado. Não entendo por que gosto tanto da sinceridade da reação dela às minhas palavras. — Estou no trabalho. Você se esqueceu? Ela sussurra. — E daí? Estou te incomodando? Sarah não diz nada, e logo entendo o porquê. Num instante, não há mais nenhum vestígio da sua irritação. Ela olha para trás de mim e fica tão pálida que acho que vai desmaiar. — Filho, por que você está aqui? Ouço a voz do meu pai, e tudo fica claro. É assim que ela reage a ele. Nesse instante, surge em mim um estranho desejo de proteger Sarah do meu próprio pai. Mas não o faço, pois a sua expressão permanece calma, o que me leva a concluir que ele não reconheceu Sarah. Sarah não se move. Permanece imóvel, como se estivesse enraizada no mesmo lugar, e os seus dedos apertam o tablet como se ele pudesse protegê-la. — Só decidi dar uma olhada para ver como tudo está indo. Digo calmamente. — Alice já está com as amigas, então tenho alguns minutos. — Está tudo ótimo. O meu pai concorda, olhando ao redor. — Mas alguém deveria dar uma olhada na iluminação da área das flores. Tem amarelo demais. — Vou avisar. Respondo brevemente e coloco a mão no seu ombro. — Vamos, vou te mostrar como o espaço para fotos foi projetado. Acho que você vai gostar. Ele concorda com a cabeça e nos afastamos. Sinto o olhar de Sarah tocar as minhas costas, mas não me viro. Não agora. — Quem era aquela? Pergunta meu pai quando já estamos um pouco mais afastados. — Aquela que estava perto do palco. — A organizadora. Respondo calmamente. — O nome dela é Sarah. Meu pai pensa. Fica em silêncio por alguns segundos e depois diz novamente: — Ela me parece familiar. — Talvez. Respondo calmamente. — Essa moça já organizou muitos casamentos. Talvez você a tenha visto lá. — Talvez. Felizmente, meu pai não está prestando atenção nela, e isso é bom. A última coisa que eu quero é que ele cause um escândalo. Talvez eu esteja exagerando e nada de ru*im vá acontecer, mas agora estou pensando em Sarah. Parece que ela tem medo do meu pai, e por algum motivo, o desejo de protegê-la dele desperta instantaneamente. Lentamente, o casamento chega ao clímax. Já não há tantos flashes de câmeras e os convidados vão se dispersando aos poucos. Para ser sincera, eu também quero que acabe logo. Não gosto de eventos como este, em que todos estão tão felizes. É completamente irreal, na minha opinião. Sento-me à mesa e, a cada brinde, percebo cada vez mais que não consigo me concentrar em nada além de uma figura ao longe. Sarah é como uma sombra, invisível para os outros, mas dolorosamente visível para mim. Ela não olha na minha direção. Nem uma vez. Como se pressentisse meu olhar e se escondesse deliberadamente. Toda vez que os nossos caminhos se cruzam na multidão, ela imediatamente desvia o olhar. E quanto mais ela me evita, mais me sinto atraído por ela. Entendo por que ela se mantém reservada. Ela tem medo de que o pai a reconheça. Naquela vez, ele não prestou atenção – havia muitas pessoas, barulho, conversas. Mas da segunda vez pode ser diferente. Eu a vi desaparecer quando a voz dele soou atrás dela. Mas, apesar disso, ela trabalha impecavelmente. Calma, organizada, concentrada. Ela dá as instruções finais, garante que tudo corra conforme o planejado. É possível ver cansaço nos seus olhos, mas não fraqueza. Ela é forte. E essa força não é demonstrativa, mas interna. O tipo de força que se constrói ao longo de anos de solidão e dor. Quando a parte da noite do feriado está chegando ao fim, eu a vejo conversando com um dos funcionários, dando algumas instruções, guardando o tablet na bolsa e indo em direção ao estacionamento. Não penso. Simplesmente levanto-me e a sigo. Silenciosamente. Com uma esperança to*la de que ela não fuja. Ela chega ao carro, segura a maçaneta da porta – e nesse instante eu apareço ao seu lado. — Não tenha medo. Digo baixinho, quase sussurrando enquanto ela se vira bruscamente. O medo brilha nos seus olhos por um instante, mas ela imediatamente coloca a mesma máscara fria que usa com tanta maestria. — Você sempre aparece de surpresa? A sua voz é calma, mas seus olhos revelam um tremor por dentro. Dou de ombros. — Só quando realmente quero ver alguém. Ela baixa o olhar, mas não vai embora. Isso já é alguma coisa. Uma pequena vitória. — Gostou do casamento? Ela pergunta, mais por hábito profissional do que por curiosidade. — Você o tornou perfeito. Como sempre, eu acho. Respondo sinceramente. Uma longa pausa. E embora ela se mantenha confiante, eu consigo ver: por dentro, há uma tempestade. — Acho que deveríamos nos encontrar em particular e conversar. Digo com convicção. ‍​ ‌
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