Episódio 4

1832 Words
Não sei quanto tempo se passou, mas acredito piamente que Mark se foi. Preciso voltar à realidade e ao trabalho. Tenho uma reunião com um cliente em cinco minutos. Mas assim que saio do banheiro, o meu coração afunda, porque Mark ainda está aqui. Ele está encostado na parede, com as mãos nos bolsos da calça, me olhando como se eu lhe devesse algo. — Você está se sentindo melhor? Ele pergunta sem rodeios, e eu congelo, confusa. — Não me lembro de termos mudado para 'você'. Digo friamente. — Você fez isso primeiro. Ele acrescenta. — E daí? Podemos conversar agora? — Escute… Percebo que a secretária está nos observando, e a última coisa que quero é que ela espalhe boatos. Por isso, tento me acalmar e aceno novamente para a porta do meu escritório. Entendo que Mark não sairá daqui até obter uma resposta. Parece que a persistência é uma característica que ele herdou do irmão. Timur também era assim. Estamos de volta ao escritório, mas desta vez eu me agarro. O ataque de pânico passou e a realidade voltou. A última coisa que quero é contar a verdade, mas provavelmente é a única maneira de me livrar de Mark. Quando ele descobrir quem eu sou, ele mesmo irá embora, batendo a porta com força. Sento-me na minha cadeira e Mark senta-se à minha frente. Ele parece calmo, mas há tensão nos seus olhos. Provavelmente, ele está cansado de me perturbar, mas ainda está aqui por causa da noiva. — Então, qual é o verdadeiro motivo de você se recusar a organizar o casamento? Ele pergunta calmamente: — Ela existe, não é? — Existe sim. Respondo, sem fôlego. — E você não vai gostar dela. Não entendo por que mudei para "você" tão facilmente. Este não é Timur. Não conheço este homem, embora ele seja a cara do meu namorado. — Me surpreenda. Mark até se inclina um pouco para a frente. Ele está tão curioso. — Eu era namorada do seu irmão. Estava no carro com ele na noite do acidente. As palavras saem da minha boca com a mesma facilidade que uma pluma. Nunca pensei que ousaria dizê-las novamente, e aqui estão elas. Agora estou sentada, esperando que o mesmo ódio apareça nos olhos de Mark, o mesmo que havia nos olhos dos pais dele quando vieram me visitar no hospital. — Você não vai dizer nada? Pergunto, quando o silêncio se prolonga. — Espero que você entenda agora por que não posso organizar o seu casamento. — Eu te lembro dele? Mark pergunta, e eu esqueço de respirar. Olho para ele sem piscar e sinto um arrepio percorrer a minha pele. Não, Mark, você não me lembra. Você se parece muito com ele. Acho que você é ele… E também acho que estou prestes a sufocar. O ar no escritório ficou pesado demais, e o silêncio é opressivo, como uma laje de concreto. Olho para Mark, tentando adivinhar a sua reação, captar o menor movimento, uma mudança no seu olhar, nenhuma palavra. Nem concordância, nem indignação. Apenas calma, sob a qual, tenho certeza, algo se esconde. — Você pode não saber o que aconteceu. Continuo, pressionando os dedos na borda da mesa para me equilibrar. — Mas seus pais me culpam por tudo. Acho que eles não vão gostar do nosso encontro. Ele não reage. Apenas fica sentado, observando. O seu olhar mudou, mas não da maneira que eu esperava. Não há ódio ali. Há… algo mais. Tristeza? Confusão? — Você não tem culpa. Ele finalmente diz. Em voz baixa, como se falasse consigo mesmo. Olho para ele bruscamente. — O quê? — Eu disse que você não tem culpa. O Timur estava dirigindo na hora. Ele… Mark cerra os dentes. — Perguntei à polícia sobre a causa do acidente. Foi o Timur quem perdeu o controle. Estou sem palavras. Dez anos. Por dez m*alditos anos carreguei esse estigma. Vivi com esse sentimento de culpa, com medo de encontrar qualquer um deles. E agora estou sentada no meu escritório, ouvindo essas palavras e sem saber o que fazer. — Mas seus pais… — Meus pais nem sempre estavam certos. Mark me interrompe. — Eles perderam o filho, e eu perdi meu irmão. E todos nós procurávamos os culpados. É normal. É humano. Mas eu acho… Ele me encara. — Já passou da hora de você esquecer o passado. O seu ataque de pânico me fez perceber que você ainda vive com culpa. Desvio o olhar. Porque se eu mantiver esse olhar por mais um segundo, vou chorar de novo. E eu não tenho esse direito. Não agora. — Você precisa ir. Tenho uma reunião. Digo baixinho, com a voz rouca, mas firme. — E não vou mudar de ideia, Mark. Não vou organizar o seu casamento. Ele não discute. Ele se levanta. E, pouco antes de sair, para na porta. — Esta não será a última vez que nos veremos, Sarah. E... não será no casamento. Eu só quero conversar sobre o Timur. Estou realmente curioso para saber o que aconteceu depois. Mark sai. E eu fico sentada, dominada por mil sentimentos que me invadem. E o mais assustador deles é a esperança. Porque não a sinto há muito, muito tempo. Várias horas se passam depois que Mark sai, e eu tento voltar ao meu ritmo normal. O trabalho é o que me mantém à tona. E hoje estou me agarrando a ele como se fosse a última esperança. Realizo algumas reuniões. Ouço os noivos, dou consultoria, anoto. Sorrio quando preciso e até brinco quando o clima fica tenso. Mas dentro de mim há uma tempestade constante. ‍ ... Estou dirigindo para o local que estamos considerando para o nosso casamento, que acontecerá daqui a dois meses. Verifico tudo, calculo a disposição das mesas, penso na logística dos convidados. Ouço os cerimonialistas, concordo com a cabeça, esclareço algumas dúvidas, mas não estou presente. Os meus pensamentos estão com Mark. No meu escritório. Por que ele não ficou com raiva? Por que não me acusou? Não bateu a porta, não me xi*ngou, não me disse tudo o que eu tinha tanto medo de ouvir? Os pais dele estavam prontos para me despedaçar naquele momento. Eu, que quase morri naquele dia. Que perdi não só meu amado, mas também um filho. A neta ou o neto deles, de quem eles nem sabiam da existência. E nunca saberão. Talvez se ao menos tivessem me perguntado como eu estava, em vez de me xi*ngarem… talvez eu pudesse respirar fundo e não temer cada olhar do passado. Mas, em vez disso, fui riscada. Apagada. Fizeram-me culpa de tudo. Na perda deles. Na minha dor. É mais fácil assim. É mais fácil encontrar um inimigo. Principalmente se ele estiver indefeso. E tenho vivido assim desde então – como uma exilada. Como se o mundo inteiro tivesse me deixado claro que eu não tinha direito a uma vida normal. Que eu tinha que desaparecer. Me esconder nas sombras. E foi o que fiz. Me escondi tão profundamente que nem minha irmã sabe o que eu estava escondendo. E Mark… Ele apenas sentou e ouviu. Não interrompeu. Não gritou. Não me olhou com aquele ódio que havia se gravado na minha memória como veneno. Havia uma verdade diferente nos seus olhos. Não a que eu esperava. Mas por quê? Eu não sei. E isso me assusta. Porque se ele estiver certo… se eu realmente não for culpada, se ninguém tiver o direito de me culpar… então por que ainda não consigo me perdoar? Se o acidente não tivesse acontecido, eu estaria segurando a mão de uma criança agora. Talvez um menino com os olhos do Timur. Talvez uma menina com o sorriso dele. Estaríamos construindo uma casa, brigando, fazendo as pazes, nos preparando para a escola. Eu teria uma família. Eu teria amor. E então... eu não tenho nada. Entrei no carro e dirigi para casa. E quando a luz do semáforo iluminou o meu rosto no retrovisor, pela primeira vez em muitos anos eu não me reconheci. Apenas a sombra da garota que um dia acreditou que merecia ser feliz. Mais alguns dias se passam. Eu trabalho – às vezes até o anoitecer. Falo com a Samanta, dou risada ao telefone, pergunto sobre a gravidez, tento ser a irmã que ela se lembra de mim. E estou sinceramente feliz por ela. Tudo está indo como deveria para ela. Como deveria ser. E em mim – nenhuma gota de inveja, apenas carinho. Seja o que for, ela merece essa felicidade. Mas então chega o sábado – um dia planejado nos mínimos detalhes. Um evento importante. Mais um casamento. Sei que tudo tem que correr perfeitamente. Estou no local desde a manhã. Verifico o cenário, coordeno os floristas, confiro a iluminação, o som, a lista de convidados. O meu tablet é como uma extensão das minhas mãos. Quase não tiro os olhos dele, marco os itens concluídos, às vezes atendo ligações, aceno para minha assistente, sussurro algo para o fotógrafo. Trabalho rotineiro, mas é o que salva. Quando a cerimônia começa, eu, como sempre, me afasto um pouco. Aperto o tablet contra o peito e monitoro cuidadosamente cada detalhe: a música começará na hora certa? Algum dos meus parentes se atrasará? Os garçons terão tempo de trazer o champanhe? Sinto-me parte da ação, mas, ao mesmo tempo, sou uma sombra escondida nos bastidores. É assim que estou acostumada. E de repente… entre as centenas de convidados, o meu olhar encontra um rosto familiar. Não acredito imediatamente no que vejo. Mark está entre os convidados – confiante, calmo. Ao lado dele, a sua noiva ri, contando algo para as amigas, ou quem elas são. A suas mãos gesticulam de forma exagerada, e os seus lábios parecem não se fechar de jeito nenhum. E ele... ele apenas me olha. Os nossos olhares se encontram — e ele me prende como se estivesse acorrentado. Uma onda de tensão percorre a minha espinha, meu coração falha algumas batidas, minha respiração para. A nossa última conversa surge imediatamente na minha mente. Os seus olhos. E as minhas palavras, ditas com tanta facilidade e dor, como se eu tivesse aberto a minha alma para ele. Mark não desvia o olhar. E eu não consigo nem piscar. Permaneço ali, como se estivesse enraizada no lugar, e a única coisa que quero agora é desaparecer. Me tornar invisível. Me dissolver na multidão. Desaparecer no subsolo com o meu tablet, minha fantasia e todo esse espetáculo. Não estou pronta para outra conversa. Mesmo que ele não esteja bravo. Mesmo que ele só queira conversar. Eu não consigo. Porque aí terei que voltar àquele dia. E só estou viva porque aprendo a fugir dele todos os dias. Desvio o olhar bruscamente. Estou imersa no plano novamente – como se estivesse vestindo uma armadura. Aperto o tablet com tanta força que os meus dedos estão brancos. Agora não é a hora. E definitivamente não é o lugar.
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