Nos dias seguintes, só trabalho. Acontece que o trabalho é tudo para mim neste momento. Estou disposta a trabalhar até à noite, só para não ter que pensar no que me incomoda.
Um desses dias, Samanta me liga. Eu tinha acabado de acordar e estava me arrumando para ir trabalhar quando ela me contou que estava grávida.
A primeira coisa que senti foi um torpor. Depois, o meu peito se encheu de oxigênio e só então abri um largo sorriso.
Precisei assegurar à minha irmã que estava feliz por ela. E realmente estava. Samanta merece a sua própria felicidade. Eu sei o que a preocupa... Por minha causa. Porque se ela pode dar à luz e dar ao mundo filhos lindos, eu não tenho essa oportunidade. E nunca terei.
Precisei tranquilizá-la por um tempo, dizendo que estava tudo bem, embora houvesse um peso tão grande na minha alma que me faltava o ar.
Quando a conversa terminou, fui tomar banho. Abro a torneira, fico debaixo do chuveiro e cubro o rosto com as mãos. Só aqui e agora posso ser frágil. Só no momento em que ninguém vê as minhas lágrimas.
Já me acostumei. Talvez porque, além da minha própria dor, havia a dor da minha irmã mais nova. Eu sempre me dediquei inteiramente a ela, e agora, quando estou sozinha, posso chorar em paz. Não preciso mais fingir que sou forte. Que não estou sofrendo.
Dói. Dói muito. Eu realmente não consigo respirar. Me sinto como um robô. Vivo sem um objetivo. Sem sonhos. Antes, quando Samanta estava por perto, eu me dedicava inteiramente a ela. E agora... sinto que estou desaparecendo aos poucos.
Saio do chuveiro, me seco, visto um roupão e vou automaticamente para a cozinha. Ligo a cafeteira. Hoje é um dia como qualquer outro. Nem pior, nem melhor. Apenas mais um dia que precisa ser vivido.
O café fumega na xícara e eu olho pela janela para a cidade silenciosa. Então me arrumo. Escolho as minhas roupas, passo maquiagem – um pouco mais do que o habitual para disfarçar a noite em claro. Mas meus olhos… Os meus olhos entregam tudo. Nenhum tom de voz apagará o vazio que se instalou dentro de mim.
Uma longa viagem até o trabalho. Um tédio, sinais, rostos monótonos nos outros carros. Não sou diferente deles – apenas uma mulher apressada para o trabalho, escondendo a sua alma despedaçada atrás do volante.
Chego ao local. Cumprimento a secretária, sorrio. A mesma máscara que sempre me acompanha. Vou para a sala. Ligo meu laptop. Pego o meu caderno, folheio as páginas com anotações. Hoje tenho várias reuniões – não posso adiá-las. Pelo menos há algum sentido no trabalho.
Em certo momento, me pego pensando que realmente me sinto como um robô. Tudo no automático. Absoluta ausência de emoção.
Nesse exato instante, alguém bate à porta. Olho imediatamente para o meu relógio e percebo que ainda faltam vinte minutos para o primeiro cliente.
— Entre. Digo cautelosamente.
A porta se abre e um homem aparece na soleira, alguém que eu não quero ver em hipótese alguma. O meu pobre coração quase explode no peito e as minhas palmas suam.
Mark está parado na soleira. O mesmo homem que é tão parecido com o meu amado quanto duas gotas d'água. Alto, confiante, estranho e familiar demais. O irmão gêmeo do meu falecido Timur.
Não consigo respirar. Um arrepio percorre a minha espinha. Pânico no peito. Não estou pronta. Nunca estarei pronta para encontros assim.
Sinto-me impelida a ir até a porta. A levantar e simplesmente ir embora. Sem explicações, sem palavras. Para escapar de tudo o que ele carrega consigo.
— Posso? A voz é calma, mas seu olhar é pesado. Parece que ele também sente algo... perturbador.
Aceno com a cabeça lentamente, tentando manter o equilíbrio.
— Entre… Expiro o ar e me recomponho com as minhas últimas forças.
Observo-o entrar lentamente no meu escritório, fechar a porta atrás de si e sentar-se silenciosamente na cadeira à minha frente. Os seus movimentos são calmos, controlados, precisos. Ele mantém as costas eretas, olha diretamente para mim, e há algo… perturbador nesse olhar. Como se ele não estivesse ali apenas para conversar.
E eu… tento respirar.
Mark é um homem bonito. Alto, de ombros largos, confiante. Os seus traços faciais são mais marcantes, o seu queixo é forte. Há algo impassível nele – algo que Timur não tinha.
Mas seus olhos… Deus, aqueles olhos.
Eu os reconheceria entre mil. São como dor. A mesma profundidade, a mesma sombra nas pupilas. Se Timur estivesse vivo, ele seria exatamente assim.
Sinto algo se contraindo dentro de mim, como se estivesse ofegando novamente. Mas preciso resistir. Simplesmente preciso.
— Ainda não entendo por que você se recusou a organizar o nosso casamento. Diz Mark finalmente. A sua voz é calma e profunda. — Alice… ela se recusa a considerar qualquer outra pessoa. Ela diz que se não for você, não haverá casamento nenhum.
Tento me concentrar. Pelo menos tentar escapar do seu olhar.
— Estou com a agenda bem apertada. Respondo com uma calma fingida. — Vocês chegaram atrasados, e eu simplesmente não posso assumir outro projeto. Você terá que encontrar outra pessoa. Há muitos bons organizadores na cidade.
Ele me olha, e parece que consegue me ler por dentro. Desvio o olhar.
— Se você a ama tanto — acrescento com um toque de ironia — então você mesmo pode encontrar o melhor especialista. Mesmo que seja do outro lado do mundo. O importante é a felicidade da noiva, não é?
Mark dá uma risadinha discreta. O seu rosto se contrai por um instante – não por emoção, mas sim por cansaço ou pura irritação.
— Na verdade. Diz ele, em voz baixa, mas com muita clareza. — Não me importo. Este casamento é uma mera formalidade. Alisa e eu só estamos ligados por um contrato. Negócios. Interesses familiares. Só isso.
Olho para cima. A palpitação no meu peito acelera.
— Não me interessa a organização em si. Mas ela quer que tudo seja perfeito. E eu não me oponho. Que seja do jeito que ela quer. Quero que os convidados sejam felizes. Nada mais.
Não sei o que dizer. Para ser sincera, não esperava tanta franqueza.
Uma onda de amarga ironia me invade. Ele não a ama. É só uma formalidade. Mas até uma formalidade dessas deveria ser linda. Impecável.
— Você não acha errado compartilhar momentos tão pessoais com a primeira pessoa que se conhece? Pergunto, com ironia. Mark sorri. — Acho que o organizador deveria saber de todos os detalhes pessoais.
— Mas eu recusei. Digo, irritada. Timur não foi tão insistente assim.
— Estou disposta a pagar qualquer quantia.
— Pague para outra pessoa. Murmuro, levantando-me. Se dependesse de mim, eu o mandaria para o infe*rno, mas estou no trabalho agora. Preciso me controlar.
Sinto o meu peito apertar. É como se, de repente, houvesse menos ar no quarto.
Mark está sentado à minha frente e não parece nem um pouco disposto a ceder. Para ele, a palavra da noiva é lei. Ele realmente está disposto a pagar qualquer quantia. E se fosse outra pessoa no lugar dele, eu provavelmente pularia de alegria. Dinheiro, prestígio, mais um casamento extravagante.
Mas não agora.
Neste momento, eu só quero uma coisa: que ele desapareça. Ele simplesmente se levantou, saiu em silêncio e nunca mais apareceu na minha vida. Porque eu não aguento mais. Porque cada movimento dele é como uma lâmina na cicatriz. E se ele ficar aqui por mais um minuto sequer, ele vai me cobrir. E o mais aterrorizante é que isso vai acontecer bem na frente dos olhos dele.
— Por favor… A minha voz está rouca, parece muito baixa. — Vá embora.
Ele não se mexe. Ele apenas me olha fixamente. Não desvia o olhar de mim.
Então eu me levanto abruptamente e começo a andar de um lado para o outro no quarto. Me abraço, tentando me acalmar, mas só piora. O pânico sobe pela minha garganta, como uma onda prestes a me engolir.
— Eu não consigo. Respiro fundo. — Nenhum dinheiro do mundo vai ajudar. Eu… eu realmente não tenho tempo. Estou sozinha. Não tenho uma equipe. Não tenho recursos. E eu não… A minha voz falha. — Eu não consigo…
Ele se levanta também. Ele me segue. Alguns passos – e ele já está ali. Perto demais. A sua presença me oprime. O ar no escritório fica pesado. Acho que vou desabar diante dos meus olhos.
Dou um passo para trás. Mas ele ainda está perto demais.
E então as minhas mãos começam a tremer. Muito. Não consigo parar. Todos aqueles anos que passei me reerguendo aos poucos – estão prestes a desmoronar como um castelo de cartas.
Mark percebe isso. A sua expressão muda. Ele franze a testa. Estende a mão para a minha – cautelosamente, como se tentasse não me assustar.
Mas eu a afasto. Com mais força do que deveria. Mais por medo do que por raiva.
— Não! Grito bruscamente. A minha voz treme. — Só… vá embora, está bem? Por favor. Vá embora.
Meus olhos… estão se enchendo de lágrimas traiçoeiramente. Eu não tenho o direito de chorar. Não agora. Não na frente dele. Mas é tarde demais.
Me envolve. Completamente e sem aviso.
Lágrimas traiçoeiramente escorrem pelas minhas bochechas, e eu nem tento impedi-las. As minhas mãos tremem, o meu coração dispara, a minha respiração sai em convulsões – não consigo respirar. O pânico me sufoca.
Pelo canto do olho, percebo Mark franzindo a testa. Pela primeira vez em todo esse tempo, ele não parece confiante, sereno, mas preocupado. Mas não tenho forças para prestar atenção nisso.
Ele se aproxima silenciosamente da mesa, despeja água da garrafa num copo, chega mais perto e me entrega. Eu pego. As minhas mãos tremem tanto que quase derramo. Tomo um gole, outro, mas não adianta. Nem meu corpo, nem meus pensamentos voltam ao normal.
Então, simplesmente viro-me bruscamente para a janela, enterrando o rosto nas mãos.
— Vá. Sussurro baixinho. A minha voz falha, é demais. — Cansaço, dor, medo. Por favor, vá embora.
Mas ele está em silêncio. Não ouço um som. Nem um passo. Ele não está andando. Está parado ali, esperando.
É insuportável. Não consigo me recompor enquanto ele está por perto. Não consigo respirar enquanto sinto a sua presença. É demais.
Passo rapidamente ao redor dele, sem nem olhar nos seus olhos. Saio correndo do escritório, como se o próprio dem*ônio estivesse me perseguindo, e só paro quando a porta do banheiro se fecha.
Vou até a pia. Abro a torneira e lavo o rosto. Uma vez. Duas vezes. Três vezes. Tiro a maquiagem que me esforcei tanto para fazer esta manhã, lavo o cansaço, as lágrimas, o pânico, embora, para falar a verdade, ainda esteja comigo.
Agarro a pia com as mãos e tento respirar. Profundamente. Lentamente. Ritmicamente.
Mais alguns minutos e finalmente sinto que ele está me soltando um pouco. Pelo menos o suficiente para me impedir de cair.
Não sei quanto tempo se passa. Um minuto? Cinco ou quinze?
Mas eu realmente espero que ele tenha ido embora. Que tenha percebido que não adianta ficar e tenha ido embora.
Ou talvez ..., talvez ele tenha pensado que eu estava louca.
Seria até bom. Que assim seja. Só não volte.