Mark parece forte, confiável, resiliente. Mas agora vejo rachaduras que ele não consegue mais esconder. E eu entendo. Elas não apareceram ontem. Começaram na noite em que Timur morreu.
A partir daquele momento, o seu pai passou a tratar Mark como a única cópia correta. Como o único "sucessor". Ele sempre apostou nele. Mesmo quando Timur estava por perto. Mas quando o seu irmão se foi, todas as expectativas e exigências recaíram sobre Mark. Todas as coisas das quais Timur sabia se defender. Mas Mark não. Porque Mark se sentia culpado. Porque ele podia ser manipulado.
Não lhe deram tempo para sofrer. Deram-lhe um plano imediatamente. Forçaram-no a casar, fizeram-no acreditar que esse era o seu dever. Que ele tinha de compensar a perda, de ser “tanto para si próprio como para o irmão”. Que ele não tinha o direito de ser fraco. Mas Mark está a enfraquecer. E ele próprio vê isso. E eu… eu vejo que ele está farto deste jogo.
— Não sou como Timur. Diz ele de repente, e a sua voz é quase inaudível. — Não consigo defender-me. Não consigo dizer ‘não’. Tenho medo de desapontá-lo novamente. Tenho medo de magoar ainda mais os meus pais.
E aqui está. O momento em que entendo por que ele está aqui. Não apenas por minha causa. Mas por causa dele mesmo. Ele está à beira do abismo. E quer ouvir a verdade, encontrar forças para continuar vivendo. Para entender quem ele é. E quem o seu irmão realmente era.
Respiro fundo. Porque sei que será difícil. Mas não posso mais fugir.
— Eu vou te contar. Digo, olhando-o nos olhos. — Só me prometa que vai me ouvir até o fim. E você não vai interromper.
Mark acena com a cabeça. Os seus dedos apertam a xícara, como se a segurasse para não perder o contato com a realidade.
Mantenho as mãos sob a mesa, cerradas em punhos. Se eu as abrir, temo que não consiga mais me recompor. Uma torrente de lágrimas cai sobre o meu peito. As lembranças estão dilacerando tudo em mim, rasgando as costuras. Mas eu preciso. Porque Mark precisa saber. Porque a verdade não pertence só a mim.
— Na verdade, naquela noite, Timur e eu tínhamos combinado de jantar. Combinamos. Esperei por ele quase a noite toda. Escrevi, liguei. Mas ele não atendeu. O telefone ficou em silêncio. Já pensei que ele tivesse mudado de ideia. Ou... que algo tivesse acontecido em casa de novo.
Respiro fundo. Mark não desvia o olhar, e é difícil para mim respirar.
— E então, quase à meia-noite, ele escreveu dizendo que estava me esperando lá fora. Desci as escadas correndo. E... eu não o reconheci. Ele estava bêbado. Muito, muito bêbado. Estava parado perto do carro, cambaleando, mas ainda assim sorriu quando me viu. Me abraçou como se não nos víssemos há séculos e me beijou como se fosse a última vez. Disse que me amava muito. E foi só isso. Não quis dizer mais nada.
Os meus olhos começaram a arder. Lágrimas se acumularam nos cantos, mas eu resisti. Apertei os dedos com ainda mais força.
— Ele disse que precisava ir. Para espairecer. Que não queria ver ninguém. E eu... eu não deveria ter ido com ele. Mas insisti. Disse que não o deixaria ir sozinho assim. Eu percebi que ele não estava bem, e mesmo assim... sentei ao lado dele.
Mark prendeu a respiração. Vi pelo canto do olho.
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— Eu devia ter pegado as chaves dele. Devia ter parado. Devia tê-lo trazido para minha casa, colocado na cama, segurado a sua mão até de manhã. Mas eu não fiz isso. E a culpa também é minha. É isso que carrego dentro de mim todos os dias.
Alguns segundos de silêncio. Mas o silêncio está carregado de significado, e eu continuo: estávamos dirigindo rápido. Muito rápido. Pedi para ele diminuir a velocidade. E ele apenas riu. E então, de repente, completamente inesperado, ele falou. Disse que tinha brigado com o pai. Que tinha gritado de novo que ele era um perdedor, que não valia nada. Que estava desonrando o nome da família por estar namorando comigo. Disse que tudo que Timur tocava não valia a pena olhar.
Respiro fundo, mas minha garganta pesa novamente.
— Timur disse que ainda não desistiria de mim. Que eu era a escolha dele. Que me amava mais do que tudo. Mas eu vi… como ele estava sendo dilacerado por dentro. Ele não era indiferente. Ele estava com dor. E então… então o acidente aconteceu.
Fico em silêncio. Não consigo dizer mais nada. Mas não preciso. Porque vejo nos olhos de Mark que ele entendeu tudo. Não com palavras, mas com o coração. Não com fatos, mas com a dor. A minha dor.
Naquele momento, eu simplesmente não aguento mais. Está me despedaçando, e eu me levanto. Me viro, abro a torneira e me agarro na borda da pia com os dedos para me equilibrar.
Fecho os olhos com força para conter as lágrimas, mas no instante seguinte sinto a mão de Mark no meu ombro.
— Vem cá. Ele pede baixinho, e eu obedeço. É que naquele momento estávamos sofrendo juntos, e eu não queria passar por isso.
Encosto o meu nariz no pescoço dele e os meus braços o envolvem pela cintura. Agora, não me importo que praticamente não nos conheçamos. A única coisa que sinto é que preciso dele. Tanto quanto ele precisa de mim.