Episódio 16

1374 Words
Entro no apartamento e acendo a luz imediatamente. Por algum motivo, esse silêncio me deixa ainda mais ansiosa. Tiro os sapatos, penduro a bolsa no gancho e parece que perco o rumo. — O que fazer agora? Arrumar as coisas? Trocar de roupa? Lavar as xícaras? É engraçado. Sou uma mulher adulta. Mas parece que não vou receber a visita de um homem que m*al conheço, e sim de um amante com quem devo passar a noite. Mas é o Mark. No meu apartamento. Só de pensar nisso, o meu peito aperta. Pego uma manta do sofá e jogo na cadeira, ajeito as almofadas, fecho a porta do quarto. Por quê? Não sei. Depois, vou até a cozinha, me sirvo de água, tomo um gole. E outro. No espelho da porta da geladeira, vejo o meu reflexo. Bochechas rosadas, olhos brilhantes demais. De excitação, sem dúvida. Sinto que não estou preparada. Nem para conversar, nem para o fato de que ele vai aparecer na porta agora. Mas eu concordei. Eu mesma dei o endereço. A campainha me pega de surpresa. O meu coração dispara. Caminho lentamente até o corredor, abro a porta. E lá está ele. Mark me olha atentamente, como se estivesse tentando encontrar vestígios da minha conversa com o pai dele. É engraçado. E um pouco estranho. — Olá. Ele diz baixinho. — Olá. Respondo, dando um passo para trás e o convidando com um gesto. Ele entra, olha ao redor. Percebo como ele se detém nos detalhes: os livros na estante, a xícara na mesa, meus tênis perto do sofá. Tudo é tão... meu. E agora ele está neste espaço. Eu não esperava que ele estivesse aqui hoje. E amanhã também. — É aconchegante aqui. Ele diz. — Obrigada. Sussurro e fecho a porta atrás dele. A confiança permanece em algum lugar lá fora, na soleira. Observo Mark tirar os sapatos. Enquanto ele entra na sala de estar e espera que eu o siga. — Café? Pergunto, parando atrás dele. Por algum motivo, agora me sinto estranha olhando nos seus olhos. — Sim. Seria ótimo. Ele acena com a cabeça. Ligo a cafeteira e o observo sentar-se à mesa da cozinha. Só agora percebo que Mark parece cansado. Ou talvez esteja apenas cansado de todos os preparativos do casamento. — Então, por que você está aqui? Pergunto, sem conseguir me conter. — Eu queria ter certeza de que você está realmente bem. Ele responde tão diretamente que fico um pouco constrangida. — Você não deveria se preocupar comigo. Digo. — Eu sei, mas... é difícil explicar. Ele diz. — Não consigo parar de pensar em você. — O que você quer dizer? Eu congelo e olho nos seus olhos. Mark não afasta as pessoas ao seu redor, e eu sinto medo. Será que ele veio dizer algo proibido? Se for assim… então não estou feliz por tê-lo deixado entrar no apartamento. — Se não se importar, vou tentar explicar. Ele continua, e eu coloco uma xícara de café na frente dele. Sento-me em frente a ele, e naquele momento parece que não há ar no apartamento. — Tente. Concordo com a cabeça. Mark respira fundo e parece estar organizando os seus pensamentos. Vejo nos seus olhos que as palavras que ele quer me dizer não lhe vêm à mente de imediato. — Depois da escola. Mark começa, com cuidado, como se tentasse não destruir o frágil espaço entre nós. — Meus pais decidiram que seria melhor para mim ir para o exterior. Eles tinham certeza de que eu tinha potencial, de que eu poderia realizar algo lá. Timur ficou aqui. Sempre fomos próximos. Não, não próximos, mas como um só. Nós… compartilhamos as nossas vidas inteiras. Risos, brigas, um quarto, sonhos. Percebo os dedos de Mark tremendo levemente enquanto ele leva a xícara aos lábios. A sua voz é calma, mas consigo ouvir o que se esconde por trás dela. Dor. Culpa. Lembranças. — Eu não queria ir. Ele continua. — Mas entendi que essa era a minha chance. Que seria melhor assim… para todos. E então Timur me contou que tinha uma namorada. Que ele… se apaixonou. Fecho os lábios. Os seus olhos estão em mim, mas evito encará-lo diretamente. Porque tenho medo de que ele veja aquela garota em mim. Daquele passado do qual eu ainda não consigo me desapegar. — Ele falava de você… A voz de Mark fica mais baixa. — Frequentemente. Mas nunca mencionou o seu nome. Talvez de propósito. Talvez estivesse com medo… quisesse proteger vocês dois. Prometeu que assim que eu chegasse, nos apresentaria. Mas eu nunca vim. Estudos, trabalhos temporários, cursos… E ele… ele veio me visitar duas vezes. Por alguns dias. Só conseguiu me dar a notícia, me abraçar e já estava arrumando as malas de volta. Não digo nada. Porque não sei o que dizer. — Da última vez, ele prometeu que nos encontraríamos da próxima vez, com certeza. Que você com certeza iria com ele. Que o relacionamento entre vocês era sério. Respiro fundo. Silenciosamente. Quase imperceptivelmente. — Eu nem imaginava... que nunca mais o veria. Mark olha para a xícara. — Não veria mais como ele ri, como se irrita... como fala de você com tanto prazer nos olhos. Os seus olhos se voltam para mim, e finalmente não me escondo. — Ainda não entendo como tudo aconteceu. Ele diz. — Mas sei de uma coisa. Você era importante para ele. E, provavelmente, é por isso que senti um desejo irresistível de protegê-la. As suas palavras parecem reabrir uma velha ferida que nunca cicatrizou completamente. Não sei o que dizer. Milhares de pensamentos passam pela minha cabeça. Mas a voz permanece em silêncio. Essa conversa deveria ter acontecido há muito tempo. Mas está acontecendo agora. Na minha cozinha. Tomando uma xícara de café. Com o irmão da pessoa que amei até o meu último suspiro. E agora, diante de mim, está um homem que se recusa a ser um estranho. Ele quer ajudar, mesmo sem eu ter pedido. — Você se sente atormentado pela culpa? Pergunto diretamente. — Por causa da morte de Timur. Mark olha para mim, e ali vejo a resposta. Porque só vi tanta dor no meu próprio reflexo. — Sim. Ele acena com a cabeça. — Todos os dias. — Por quê? Não entendo. — Você estava longe naquela época. — É exatamente esse o ponto. Ele sussurra. — Eu deveria ter estado lá. Deveria ter ficado aqui, ou tê-lo trazido comigo. Eu sabia que meu pai era contra o seu relacionamento. Eu sabia que, nos últimos meses antes da morte de Timur, eles brigavam constantemente. Timur era mais forte do que eu em termos de força de vontade. Ele se manteve firme até o fim. E se ele amou, foi com todo o seu coração. É verdade. Mark descreveu Timur perfeitamente, e isso dói ainda mais. Agora eu entendo por que Mark queria falar tanto sobre o irmão e o que aconteceu naquela noite. Ele vem sofrendo há muitos anos, e em certa medida somos muito parecidos. — Você acha que Timur me chamaria de fraco se visse agora que eu estava pronto para me casar com Alice sem sentimentos e apenas por ganho financeiro? Eu congelo novamente. Olho para Mark confuso, porque não esperava essa pergunta, e depois para as minhas mãos. Não quero que ele veja a resposta nos meus olhos, mas parece que é tarde demais. — Na verdade, eu concordei com esse casamento apenas porque meu pai queria. Ele sempre disse que eu não o traí, como Timur fez. Antes, eu não dava atenção a essas palavras, mas agora a essência delas está me matando. Eu quero me entender. Quero entender o que estou fazendo de errado e parar antes que seja tarde demais. — O que você espera de mim? Pergunto. — A verdade. Ele responde diretamente. — Conte-me o que aconteceu naquela noite. Só a verdade, Sarah. Eu o encaro. E não o reconheço. Este não é mais o Mark com quem estávamos no restaurante, nem o homem que acabara de entrar no meu apartamento. Este é um Mark completamente diferente. Real. Quebrado, cansado, assustado. Mas... sincero. E isso não me assusta. Pelo contrário. Estou começando a entendê-lo.
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