A sua voz não treme. Não há remorso nem dúvida nela. E é isso que despedaça o meu coração. Porque essa verdade é repugnante.
— Pai, você sequer entende que foi por causa da sua proibição que ele dirigiu bêbado? Pergunto baixinho, mas com aspereza. — Que foi por sua causa que ele morreu.
— Eu tentei salvá-lo. Meu pai irrompe num grito. — Ele teria arruinado a própria vida. E o futuro. E eu queria dar a ele uma chance para algo mais. Uma vida decente. Não essa absurdidade com uma garota sem dinheiro.
Sinto tudo fervendo dentro de mim. Mas não desabo. Não agora. Pela primeira vez na vida, estou verdadeiramente calma, mesmo com a raiva permeando cada célula.
A questão é que os meus olhos finalmente se abriram e eu entendo que tipo de pessoa está sentada ao meu lado. Dói-me que seja meu pai.
— Você tentou salvá-lo. Sussurro, tentando forçar as palavras a saírem de mim. — E em vez disso, causou a morte dele.
Meu pai empalidece. Ele nunca me ouviu dizer essas palavras. Nunca. Tudo acontece pela primeira vez.
— Mark…
— Quero pedir que você seja honesto comigo, pelo menos por enquanto… Continuo. — Diga-me, Sarah estava grávida ou não? Tenho certeza de que você sabe.
Meu pai permanece em silêncio. Suas maçãs do rosto estão tensas, e eu já sei o que ele vai dizer, e essa verdade me dá vontade de destruir o escritório.
— Ela estava. Ele sussurra, olhando para as mãos. — Ela perdeu o bebê naquela noite.
A dor me dilacera.
Levanto-me da cadeira sem dizer uma palavra e aproximo-me lentamente da janela. Atrás do vidro, a cidade pulsa – viva, agitada, indiferente. Pessoas correm, carros piscam os faróis, alguém provavelmente está planejando como passar a noite. E Sarah…
Sarah continua a viver, tendo perdido não só o seu amado, mas também o seu filho naquela noite…
A minha respiração fica descontrolada. Tento me controlar, mas há um vazio no meu peito. Uma dor que dilacera por dentro. Há um nó na minha garganta que não consigo engolir. E nos meus olhos há lágrimas que parecem prestes a cair, mas cerro os dentes com força.
Ela estava grávida. E ninguém me contou. Ninguém se importou.
Ela foi humilhada. Foi culpada. Por todos nós. Meu pai, minha mãe. Até eu, mentalmente, odiava a garota que sobreviveu, e meu irmão morreu.
Porque eu estava… cego. Eu era um filho obediente que acreditava em tudo o que me diziam. E ela... ela passou pelo inf*erno. Sozinha. Abandonada. Destroçada pela dor.
E mesmo assim, ela resistiu. Permaneceu ela mesma. Não se deixou abater.
Mas, droga, ela é mais forte do que todos nós! Será que sou só eu?
Viro por cima do ombro e olho para o meu pai. O seu olhar me percorre, mas não vejo nele o que espero. Nem vergonha, nem remorso. Apenas cansaço. E talvez... alguma sombra de dúvida. Mas não é isso que quero ver. Não é isso que ele deveria sentir.
Ela estava grávida.
Repito essas palavras na minha mente, e a cada vez que as ouço, tenho vontade de destruir este escritório.
— Você não tem ideia da dor que causou a ela naquela época. Digo, sem reconhecer a minha própria voz. — E a minha mãe... a minha mãe também. Como mulher. Como ela pôde tratar outra mulher que acabara de perder um filho daquele jeito?
Meu pai permanece em silêncio. Eu entendo o porquê. Espero que ele sinta pelo menos um pouco de vergonha.
— Você me transformou num instrumento. Acrescento amargamente. — E eu permiti. Permiti porque me sentia culpado. Porque pensei que precisava compensar a sua perda. Mas eu não sou culpado. E, pior de tudo, ela também não é.
Aperto os punhos. Acabei de cruzar a linha que pairava diante dos meus olhos há tanto tempo.
— Não quero mais viver à sua sombra, pai. Sussurro. — Não quero mais desempenhar o papel que o seu egoísmo escreveu para mim. Chega!
Respiro fundo, olho mais uma vez para o panorama cinza e sem emoção lá fora – e, pela primeira vez em muito tempo, o silêncio paira sobre a minha alma.
Tomei uma decisão.
Meu pai se levanta em silêncio. Ele nem olha para mim – simplesmente se vira e sai do escritório sem dizer uma palavra.
A porta se fecha atrás dele com um som seco, quase abafado. E eu fico sozinho.
Permaneço imóvel. Por dentro, uma luta interna. Ainda sinto muita raiva, muita dor e, ao mesmo tempo, um desejo incontrolável de correr até Sarah agora mesmo. De abraçá-la. De me ajoelhar. De pedir perdão – por mim mesmo, pelo meu pai, pela minha mãe, por todos esses anos, pelo silêncio, pela indiferença, pela perda dela que ninguém reconheceu.
Mas não posso. Ainda não. Tenho outras coisas para fazer. Não menos importantes.
Pego meu celular. Abro uma conversa com Alice e escrevo uma mensagem:
Te espero no restaurante daqui a uma hora. Precisamos conversar.
Não espero por uma resposta. Apenas clico em “enviar”. Então fecho o laptop, guardo o celular no bolso, visto o casaco e saio do escritório. Passo pelo escritório como se estivesse atravessando uma névoa. A secretária me lança um olhar surpreso, mas eu nem paro. Não tenho mais forças para explicar nada.
Quando saio, sento ao volante e ligo o motor. Piso fundo no acelerador. Arranco, como se estivesse fugindo. Mas, na verdade, sigo em frente. Sem olhar para trás. Ultrapassando o limite de velocidade, ignorando os semáforos. A cidade passa voando por mim em pontos borrados, como o meu passado – brilhante, contraditório, barulhento.
Esse movimento frenético me ajuda a expulsar pensamentos desnecessários da minha cabeça. Para filtrar tudo o que não faz sentido. Porque agora eu sei o que tenho que fazer. E a primeira tarefa do meu plano é cancelar esse m*aldito casamento.
Chego ao restaurante mais cedo do que o planejado.
É um pouco irritante. E não é porque eu não goste de esperar – é só que há tempo para pensamentos novamente, e eu já estou cansada deles. Mas talvez seja melhor assim. Ainda tenho um ou dois minutos para me recompor. Para não falar demais. Para não desabar.
O restaurante está quase vazio – apenas algumas mesas estão ocupadas. O garçom me reconhece imediatamente e me cumprimenta com a sua cortesia habitual, o que me faz sentir artificial. Peço uma mesa longe de olhares indiscretos e me sento. As minhas costas estão tensas, minhas palmas um pouco úmidas, meu coração bate de forma regular, mas acelerado.
O cardápio está à minha frente, mas não leio uma única palavra. Apenas encaro as letras que se misturam num borrão. A conversa de ontem está na minha cabeça. Os olhos de Sarah. A sua voz, trêmula ao se lembrar daquela noite. As suas mãos, cerradas com tanta força sob a mesa para não se mexerem. A sua verdade, que me despedaçou por dentro.
Não tenho o direito de ser fraco agora.
Preciso dizer o que deveria ter sido dito há muito tempo. Hoje é o último dia em que vivo a vida de outra pessoa. E se isso significa destruir o que parece certo por fora, que assim seja.
Olho para a porta. Alice ainda não vem. Continuo remoendo a conversa com Sarah ontem. Praticamente a fiz reviver aquela noite. Se eu soubesse que a dor dela por causa das lembranças seria multiplicada por dois...
Para ser sincero, estou envergonhado, embora entenda que foi a verdade dela que me abriu os olhos. Já estou pensando em qual será nossa próxima conversa, e é nesse momento que Alice aparece.
A vejo do corredor. Ela caminha com confiança, de vestido curto, com o celular na mão, com um rosto que sempre me pareceu estranho.
Alice nem se senta imediatamente. Em vez de cumprimentar, dispara, insatisfeita: você está falando sério? Simplesmente pega o celular e foge do jantar? Meu pai está furioso, Mark. Todo mundo perguntou onde você estava, e eu fiquei lá parado como uma idi*ota na frente deles! Você podia pelo menos ter me avisado.
Fico em silêncio. Olho para ela, avaliando não a sua aparência, mas suas qualidades morais. Infelizmente, não há nada para avaliar e, para ser sincero, estou feliz por me livrar logo desse fardo.
— Você sequer imagina como eu parecia? Ela continua, finalmente jogando a bolsa numa cadeira e sentando-se à minha frente. — Meus pais acham que estou fora de controle, que o nosso casamento está em perigo!
— Eles têm razão. Digo calmamente.
Alice fica em silêncio. Ela pisca. Seus dedos apertam o telefone. Então, lentamente, ela o coloca sobre a mesa.
— O que você acabou de dizer? Ela sussurra.
Eu a encaro nos olhos. Sem raiva. Sem emoção.
— Precisamos conversar. E não será a conversa mais agradável.
Alice parece confusa pela primeira vez. Em todo o nosso convívio, nunca a vi assim. E, provavelmente, é por isso que não sinto nenhuma dor agora. Porque não estou mais aqui. Não estou mais nesta história. Porque finalmente sei quem quero ser.
E definitivamente não sou um marido sob contrato, nem um filho na coleira, nem um fantoche das ambições de outra pessoa.
— Você está me assustando. A voz de Alice não soa mais indignada, mas sim com medo. Ela sente que algo está errado. Mas ainda não compreende a dimensão da tragédia.
Desvio o olhar da janela, onde a vida flui por trás do vidro. Carros, pessoas, rostos felizes. Um mundo onde ninguém imagina que, neste exato momento, uma história está chegando ao fim.
— Alice, eu… — faço uma pausa. — Fiquei em silêncio por muito tempo. Guardei tudo para mim, porque era conveniente. Porque era o certo… para todos. Exceto para mim.
— Só não diga que quer adiar o casamento. Ela se irrita.
— Não adiar. Cancelar. Respondo.
— Sério? Depois de tudo? Depois das reuniões com meus pais, depois do anel, depois dos planos? Alice explode de indignação.
Observo o seu ataque de histeria — e não sinto absolutamente nada. Não sinto pena dela. De jeito nenhum. Na verdade, fico feliz por estarmos tendo essa conversa.
— Não quero mais jogar esses joguinhos com você. Não quero que a minha vida faça parte do plano de negócios de outra pessoa. Não quero mais ser o filho conveniente de alguém, o noivo perfeito e... o marido de outra pessoa.
— Você está louco. Ela sussurra, chocada.
— Talvez. Sorrio. — Mas se é assim que a liberdade se parece, então estou pronto para enlouquecer de novo.
Ela me olha. Os seus lábios tremem. — Estou vendo. Ela entende. Pela primeira vez em todo o nosso tempo juntos, ela entende que estou realmente indo embora. Que não estou brincando.
— Meu pai vai te reduzir a pó por me abandonar. Alice parte para as ameaças, e eu apenas suspiro.
— Que ele tente. Digo. — Mas que ele entenda que eu não sou um garotinho assustado. Acredite em mim, eu sei onde estou me metendo.
Alice franze os lábios e olha para o prato vazio. Acho que ela está procurando mais argumentos, mas não encontra nenhum.
— Pode ficar com o anel. Digo, levantando-me. — Eu pago todas as despesas da cerimônia. Afinal, muito trabalho já foi feito.
— Sabe de uma coisa, Mark? Alice se levanta e me encara com ódio. — Vá para o infe*rno!
— Como quiser. Concordo calmamente e, passando por ela, saio do restaurante.