Episódio 20

1439 Words
Sarah Estou dirigindo para o trabalho, tentando organizar os meus pensamentos pela primeira vez em dias. O mundo lá fora, pela janela do carro, está um pouco embaçado. Talvez pela chuva da manhã, talvez pelo caos na minha cabeça. Meu telefone toca inesperadamente. Preciso tirá-lo da bolsa, o que não é tão fácil. Quando consigo, vejo que é o Denis ligando e atendo. — Alô. Ele diz com a sua voz de sempre. — Como você está? Como foi sua noite? Dou um sorriso para mim mesma. Ele não sabe que tudo virou de cabeça para baixo naquela noite. — Tudo bem, só uma agenda muito cheia. Respondo. — Então, talvez a gente se veja hoje à noite? Podemos jantar ou dar uma volta. Estou entediado. Fico em silêncio por um segundo. A minha cabeça está cheia de uma lista de reuniões, clientes, projetos. — Tenho algumas reuniões. Digo sinceramente. — Mas se eu sair do trabalho mais cedo, eu te ligo. — Certo. Vou esperar. Ouço no telefone, e nos despedimos. No trabalho, mergulho imediatamente na minha rotina habitual. Atendo os meus primeiros clientes, assino documentos, tento não pensar no dia anterior. Mas os pensamentos surgem por si só. Agora que tudo está dito, nada será como antes. E então, quando me despeço dos últimos clientes, Mark aparece na porta. Levanto-me abruptamente, o meu coração dispara. Ele está completamente diferente de como estou acostumada a vê-lo. Sem terno. De calça jeans comum e camiseta branca. O cabelo um pouco despenteado. Nas mãos, um buquê de flores. Algo dentro de mim se contrai com a sua aparência. Ele dá um passo à frente. O seu olhar encontra o meu. Penetrante, direto. Tão… sincero que desvio o olhar por um instante. — Olá! Diz ele calmamente. — Olá. Sussurro em resposta. — Você… O que está fazendo aqui? Ele estende o buquê. — Vim agradecer. Pego as flores, confusa. São delicadas. Leves. Cheiram a paz. — Pelo quê? — Por me abrir os olhos. A sua voz é surpreendentemente séria. — Por não ter desabado. E por ter feito tudo o que podia naquela noite… Olho para ele. E algo se agita na minha alma. Algo que ainda não consigo nomear. Porque este é um Mark diferente. E talvez… uma eu diferente. M*al consigo me controlar. A sua aparição inesperada, essas flores, seu olhar, seu tom de voz. Tudo me deixa sem fôlego. Mas preciso me recompor. Pego o buquê das suas mãos, agradeço em voz baixa e saio rapidamente do escritório. No corredor, respiro fundo e entrego as flores à minha assistente: coloque-as em um vaso, por favor. Volto para o escritório e, pelo canto do olho, vejo Mark já sentado na cadeira em frente à minha mesa. Relaxado, mas não completamente. Como se estivesse contido, mas por dentro – algo está fervendo. Eu também me sento. E por alguns segundos ficamos em silêncio, como se algo estivesse sendo decidido sem palavras. Os seus olhos me encaram. Firmemente. Sou a primeira a desviar o olhar e, reunindo coragem, digo: o que está acontecendo, Mark? Ele não hesita. A sua voz é calma, mas me parece que na realidade não é nada disso. — Eu já decidi tudo. Diz ele. — Não haverá casamento. A minha mão congela sobre a mesa. — Você está brincando? Sussurro. — Não. Ele responde. — Não se preocupe. Você receberá uma compensação pelo seu trabalho. Mas eu não vou mais ser o que meu pai quer que eu seja. Fico em silêncio. Apenas escuto. Porque não sei o que dizer. — Dói-me ter vivido uma mentira durante todos esses anos. Que meu pai… Ele faz uma pausa, respira fundo. — Foi o motivo de Timur estar naquele estado naquela noite. Que foi ele quem o matou. E eu… eu apenas ouvi em silêncio, vivi, trabalhei, satisfiz os seus caprichos. A sua voz treme levemente. — Não estou mais pronto para me arriscar. Não estou pronto para me perder pelas ambições de outra pessoa. Não importa o quanto eu ame meus pais, esta é a minha vida. E eu finalmente quero vivê-la. Eu o encaro como se o estivesse vendo pela primeira vez. As suas palavras, sua confiança, sua calma. Tudo isso provoca uma tempestade de emoções em mim. Estou confusa. Chocada. E feliz. Embora, talvez, feliz seja uma palavra forte demais para este caos que está acontecendo dentro de mim agora. Mas não há outra maneira de explicar como o meu coração literalmente se encolhe com o calor que vem do fato de Mark finalmente saber a verdade. Que ele finalmente está livre. E honesto – consigo mesmo. Mas, ao mesmo tempo… estou com medo. Porque se ele fez tudo isso por causa das minhas palavras, se algo der errado... E se um dia ele acordar e perceber que arruinou a própria vida por ter me escutado? E se ele começar a me culpar? E se ele me odiar? Fico em silêncio. Simplesmente em silêncio. Quero dizer alguma coisa, mas meus pensamentos estão todos confusos. E então ele parece ler tudo pela minha expressão. — Você não precisa se preocupar. Diz Mark em voz baixa. A sua voz é suave, mas firme o suficiente para não ser levada a sério. — Sim, o que você me disse foi um ponto crucial. Mas… é minha decisão. Minha vida. Minha responsabilidade. Eu pisco os olhos, tentando não respirar muito alto, porque algo no meu peito parece estar queimando. — Você não tem nada a ver com isso, Sarah. Você só estava sendo honesta comigo. E eu te agradeço por isso. Ele me olha novamente com aquele olhar. Aquele olhar difícil de resistir. Parece penetrar. Mas agora não há dor nem raiva nele. Apenas… esperança? — Espero que este não seja o fim da nossa conversa. Engulo o ar, que de repente ficou pesado demais. E embora eu não consiga dizer nada, algo dentro de mim grita há muito tempo: ''Eu também não quero que acabe.” Quando Mark sai, o silêncio no escritório se torna insuportável. Continuo sentada, meus dedos agarrando a borda da mesa. Os meus pensamentos estão dispersos, o meu coração dispara, como depois de uma maratona, e em algum lugar do meu peito há um vazio estranho que dói e aquece ao mesmo tempo. Mark… mudou tudo. A decisão dele, as palavras dele, são como uma pedra na água: as ondas m*al começam a se dissipar, mas eu já sinto tudo ao meu redor tremendo. Estou feliz por ele finalmente ter ousado? Sim. Mas, ao mesmo tempo, estou com medo. Medo porque conheço esse homem como ninguém. E sei que o pai dele não é alguém que simplesmente aceitará uma decisão dessas. Ele não ficará calado. E tenho quase certeza de que em breve ele aparecerá aqui. Na porta do meu escritório. Talvez até na minha casa. E não com flores, como Mark, mas com raiva, acusações, ameaças. E quanto a isso… Alice. Ela sabe quem eu sou? Se souber, então estou perdida. Ela não ficará calada. O pai dela tem conexões. Ele tem poder. E eu? Sou uma órfã que reconstruiu a sua vida das ruínas recentemente. Nem tive tempo de me sentir segura. E aqui estou eu novamente, à beira do abismo. Não, não me arrependo. Não posso me arrepender de ter dito a verdade. Mas essa verdade... tem consequências. E receio que isso seja apenas o começo. Levanto-me, caminho lentamente até a janela e olho para a rua. O mundo não mudou. As pessoas estão com pressa. Os carros passam. Tudo está igual como sempre. Então, por que me parece que tudo virou de cabeça para baixo desde que Mark decidiu cancelar o casamento? Depois de um dia de trabalho, fecho o meu laptop e respiro fundo. A minha enxaqueca está aumentando lenta, mas seguramente – como uma nuvem prestes a encobrir uma tempestade. A minha cabeça está um caos. A imagem de Mark, suas palavras, essa conversa sincera demais, misturadas com o meu próprio medo e suspeitas sobre o que acontecerá a seguir. Não posso mais ficar nesse estado. Preciso me desligar dos meus pensamentos, mudar de assunto. Pelo menos por esta noite. Sem pensar muito, abro o aplicativo de mensagens e escrevo para Denis: Se você quiser, podemos nos encontrar. Ele responde quase instantaneamente: Estou à sua disposição. Até daqui a pouco. Eu sorrio, embora o sorriso seja torto. Vou para casa, troco de roupa rapidamente, passo uma maquiagem leve e tento disfarçar o cansaço nos meus olhos. O espelho me mostra uma mulher que guardou tudo para si por tempo demais. Hoje quero descansar de mim mesma…
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