Every breath you take
O campus não fica muito longe daqui. Karen e eu gostamos de ir andando; o verão é sempre enérgico e tem uma vibe acolhedora. Todos se cumprimentam nas ruas, cada um correndo para sua devida rotina, mas sempre sorrindo. É bem melhor que no inverno, quando as ruas estão vazias e a chuva não para. Uma pena que faltam apenas duas semanas para o fim da estação.
Enquanto caminhamos, meus olhos se desviam para uma parte vazia do estacionamento, um canto pouco frequentado e silencioso. O contraste entre o burburinho vibrante da cidade e a quietude daquele lugar me faz pensar.
Aquele canto vazio do estacionamento parece um reflexo da minha vida atual. Aqui, na identidade de Kate, estou vivendo algo que Iris Machiaverni jamais teve — uma chance de aproveitar uma vida mais normal e menos marcada pelo medo e pela dor. Eu deveria me sentir grata por essa oportunidade, mas a verdade é que o peso do passado ainda me persegue.
Me lembra que, apesar de todos os esforços para me adaptar e construir uma nova vida, as sombras do passado não desaparecem facilmente. Sinto que, sendo Kate, estou tentando preencher esse vazio com algo que nunca tive a chance de experimentar: uma amizade verdadeira, uma vida sem medo constante. Mas, ao mesmo tempo, a sensação de estar constantemente vigiada e a necessidade de esconder minha verdadeira identidade tornam tudo muito mais complicado.
A cada dia, tento abraçar essa nova vida com o mesmo carinho e lealdade que sempre foram meus, mas também carrego o peso de um passado perturbador que não pode ser facilmente esquecido. Me faz pensar que, por mais que eu tente aproveitar essa nova chance, uma parte de mim ainda está presa no que foi, lutando para encontrar um equilíbrio entre o que era e o que poderia ser.
Vejo o carro de Ellen assim que pisamos no estacionamento. Ela está recostada no capô, com uma expressão que mistura desdém e tédio, enquanto Dustin, ao seu lado, provavelmente sussurra alguma s*******m em seu ouvido. Esses dois não têm um pingo de vergonha na cara; se agarram em qualquer lugar sem pensar em quem está em volta, como se o mundo fosse um grande espetáculo onde o show deles é a única coisa que importa.
Karen não pensa duas vezes antes de me abandonar assim que começo a andar em direção ao casal — ela também não suporta os dois. É uma das coisas que nos conecta, esse incômodo compartilhado com a necessidade constante deles de serem o centro das atenções. Karen sempre diz que Dustin parece gostar de incomodar, como se quisesse se mostrar como o "bad boy" do campus. Mas, na verdade, ele é apenas um i****a que acha que ser um encrenqueiro é a mesma coisa que ter personalidade.
Enquanto me aproximo, noto a expressão de Dustin mudando ao me ver. Ele revira os olhos, um gesto que parece quase automático, e dá um toque no braço de Ellen, alertando-a para minha presença. Ellen, ao contrário dele, tenta disfarçar o desdém com um sorriso que não convence ninguém.
A abordagem de Karen e a minha reação a esses dois sempre nos faz pensar no quanto gostamos de ser as que observam o caos sem se deixar arrastar por ele. Esse sentimento de estar fora da confusão, mas não completamente alheias, nos dá um senso de controle em meio ao que parece uma eterna competição por atenção.
– Oi, Ellen – digo com um sorriso forçado, tentando manter a compostura. – Dustin.
Dustin responde com um aceno desdenhoso, enquanto Ellen me lança um olhar que mistura curiosidade e irritação. É um jogo de aparências, onde todos estamos tentando manter o controle, mas o jogo nunca é fácil quando se trata de lidar com esses dois.
Ellen e eu não somos as melhores amigas do mundo, nem mesmo somos amigas, mas estamos presas uma à outra desde o início do semestre. Hoje é a apresentação final do nosso trabalho. De algum jeito, acabamos escolhendo o mesmo tema, e o professor decidiu que seria "uma ótima oportunidade de colaboração". Desde então, cada reunião tem sido um exercício de paciência, um equilíbrio instável entre a necessidade de cooperar e o desejo de terminar logo com isso.
Ela é esperta, mas muitas vezes é dominada pela insegurança, especialmente quando precisa apresentar algo. Talvez por isso esteja sempre ao lado de Dustin, como se a presença dele ajudasse a criar uma aura de confiança que, na verdade, falta a ela.
– Bom dia. É hoje, certo? Você estudou? – pergunta, tentando ser o mais cordial possível, embora a tensão entre nós esteja sempre no ar. Ela me olha com um leve brilho de preocupação nos olhos, o que revela mais sobre sua insegurança do que qualquer palavra poderia.
– Sim, não se preocupe. Só vim te dar isso, caso você queira dar uma olhada – pego meu bloco de anotações da mochila. Atrás do carro de Dustin, vejo Chadwick estacionar e desejo sair dali o mais rápido possível. – Reparei que você estava nervosa ontem, então achei que algumas notas rápidas antes da apresentação poderiam ajudar.
– É, isso ajuda pra c*****o – responde Ellen, sem um sorriso, sem um ‘Obrigado, Kate’. Esse é o jeito dela, direto e sem rodeios. Às vezes acho que ela se sente ameaçada por mim, como se estivéssemos competindo por algo que não consigo definir.
Sinto que a atmosfera entre nós é carregada, uma tensão que não se resolve com simples palavras. Ela pega as anotações com um movimento rápido e, apesar de seu jeito brusco, percebo uma pequena mudança em sua postura, como se a ajuda que ofereci realmente tivesse um impacto.
De repente, vejo Drew se aproximando deles, e meu coração acelera. Sem querer prolongar a interação com Ellen e com a sensação de que o tempo está se esgotando, me apresso para sair dali.
– Te vejo na aula então, tchau – digo, sem esperar uma resposta.
Drew é um mistério envolto em um charme perigoso. Apesar de ser apenas um ano mais velho que eu, ele é o presidente da fraternidade mais conhecida da região, uma figura que controla o campus com um poder quase palpável. Há algo inegavelmente atraente em sua aura de influência e domínio, como se o perigo e a adrenalina fossem parte integrante do que ele representa. Coisas que vêm com o poder e dinheiro.
A sensação de estar perto de Drew é como caminhar na beira de um precipício. A forma como ele se move, a confiança que ele emana, e o simples fato de que sua presença pode mudar o clima de um ambiente em segundos, tudo isso me fascina. Eu deveria saber melhor do que me deixar levar por essa atração, especialmente considerando que ele está em um relacionamento conturbado com Karen, minha amiga e colega de quarto. No entanto, há uma parte de mim que se sente irresistivelmente atraída pelo perigo que ele representa, pela adrenalina que vem com o desconhecido e o proibido.
Karen e Drew namoram desde o começo do ano, com idas e vindas perturbadoras e um relacionamento baseado em ciúme constante. Infelizmente, sei que grande parte do problema está na minha amiga, que coloca grandes expectativas nele e acaba por quebrar a cara toda vez que se decepciona. Sendo uma menina criada por pais católicos, Karen espera salvar Drew do mundo, apenas ela não percebe o caos que o habita. Acho que ela gosta da ideia de ser a única capaz de curar o coração torturado dele, mas isso só os arrasta mais fundo nesse ciclo desgastante.
Eu tento ser uma amiga presente para Karen, mesmo quando é difícil. Ela me conta sobre todos os problemas que tem com Drew, e eu escuto. Me pergunto se ela percebe meus sentimentos, mas até agora, se percebe, nunca disse nada.
Chego na sala e o professor Porter está à frente, como sempre, um magnetismo inegável emanando dele. Ele é jovem e, sem dúvida, um dos professores mais charmosos da universidade, e a maneira como ele fala sobre literatura torna a aula ainda mais envolvente. Mesmo atrasada, ele não reclama quando eu entro — é um dos melhores professores daqui, daqueles que entendem que a vida nem sempre cabe no horário certinho da aula.
Enquanto me sento, noto que Ellen está folheando minhas anotações. Espero que aquilo realmente ajude, porque, apesar de tudo, eu quero que essa apresentação seja boa para nós duas.
A aula passa relativamente rápida. As duplas apresentam seus trabalhos, em seguida Damian discute a tradução de Shakespeare com uma paixão contagiante, e eu me pego absorvida pelo assunto.
O sinal toca sinalizando o fim da aula, o professor anuncia as notas, e um sorriso discreto surge no meu rosto quando ele revela que Ellen e eu tiramos a nota máxima no trabalho. Ellen vira a cabeça em minha direção, uma expressão que quase se assemelha a um sorriso, mas não exatamente. Um reconhecimento silencioso de que, apesar de nossas diferenças, conseguimos fazer algo bom juntas.
Recolho minhas coisas rapidamente, saio da sala antes que o corredor se encha de estudantes e sigo pelo corredor em direção ao jardim central do campus. Tenho cerca de trinta minutos até a próxima aula, e prefiro ficar ao ar livre do que me trancar na biblioteca ou em algum café lotado. Encontro uma mesa vazia e me sento ali, tirando uma barrinha de cereal da mochila enquanto observo o movimento ao redor.
Estudantes caminham apressados, rindo, conversando e cheios de vida. O som das vozes misturadas com o canto distante de alguns pássaros cria uma trilha sonora confortável. Eu mordo a barrinha distraída, quando vejo Ivan se aproximando. Ele levanta a mão em um aceno amigável e sorri daquele jeito que sempre parece genuíno.
Ivan é um intercambista russo e quarterback do time de futebol da universidade. Desde que chegou, tornou-se uma figura popular no campus, mas, diferente do que se esperaria de alguém na posição dele, é incrivelmente gentil e pé no chão. Nos conhecemos em uma aula de teoria literária e, desde então, começamos a conversar nos intervalos. A amizade floresceu naturalmente, sem grandes expectativas.
– Oi, Kate. Tudo bem? – Ele pergunta com seu sotaque carregado, sentando-se em cima da mesa sem cerimônia.
– Oi, Ivan. Tudo, e você? – respondo, dando uma mordida na barrinha.
– Melhor agora que encontrei uma amiga – ele diz com um sorriso largo. É um elogio simples, mas há algo na maneira como ele fala que me faz sentir bem-vinda. A verdade é que Ivan tem um interesse evidente por mim, mas ele nunca tomou a iniciativa, talvez por receio de ser visto com uma perdedora. E eu até gosto da companhia dele, mas a ideia de me envolver com alguém que está constantemente sob os holofotes me faz hesitar.
– E aí, como estão os treinos? – pergunto, tentando manter a conversa leve. Ivan revira os olhos de maneira teatral, mas é claro que ele adora falar sobre o time.
– Cansativos. O treinador acha que somos máquinas, não pessoas – ele brinca, mas há uma pontinha de verdade em suas palavras. – Mas acho que faz parte, né? Para ser o melhor, precisa trabalhar mais que os outros.
Eu assinto, observando como ele parece carregar o peso da expectativa sem perder o humor. Ele é diferente dos outros jogadores que conheci. Ivan não é só sobre vitórias e fama; ele tem uma sensibilidade que aparece nas conversas, nos olhares. Ainda assim, a barreira entre nós é clara. Ele é a estrela, o cara que todos querem conhecer, enquanto eu prefiro as sombras, longe dos refletores.