O sol ainda estava tímido quando Bella acordou com o canto distante de alguns pássaros e a lembrança da noite anterior lhe trouxe um misto de ansiedade e frustração. O baile havia sido maravilhoso à sua maneira, mas Charles passara a maior parte do tempo com Lady Daniela, e isso ainda lhe queimava o peito de raiva e confusão.
Após se arrumar, desceu para o desjejum, encontrando Suzzie e sua mãe já conversando animadamente.
— Bom dia, minha querida! — exclamou Suzana, ajustando o vestido com o sorriso habitual. — Espero que esteja pronta para explorar a cidade hoje! Temos cavalheiros interessantes para conhecer e uma pequena feira que você não pode perder!
Bella suspirou, ainda um pouco amarga, mas não quis demonstrar. — Tudo bem, tia.- Não aguentava mais os passeios elaborados por Isobel e Susana, elas queriam a todo custo arranjar-lhe um marido.
Ruan já estava sentado à mesa, o cabelo ainda bagunçado do sono, e ao vê-la, ergueu uma sobrancelha com um sorriso divertido.
— Você parece irritada — disse, tentando arrancar uma reação.
— E você parece que não dormiu nada, meu caro — retrucou Bella, brincando. — Aposto que passou a noite pensando na próxima travessura que fará.
Ruan riu, e isso trouxe um calor ao peito de Bella, mesmo com o rescaldo de frustração do baile. Era bom tê-lo como seu Porto seguro, Ruan lhe aquecia o coração de uma maneira maravilhosa.
Charles, por outro lado, estava quieto, sentado um pouco afastado. Observava com olhos atentos, mas sem se manifestar. Cada sorriso de Bella para Ruan, cada pequena provocação entre os dois, parecia mexer com algo dentro dele que ele ainda não sabia nomear.
— Querida, você precisa conhecer a cidade — disse sua mãe, tentando animá-la. — Há tanto para ver, e quem sabe você não encontra um cavalheiro interessante?
— Ou, pelo menos, alguém divertido — acrescentou Suzzie, piscando para Bella. — Nada como um dia de passeio para nos animar até mesmo nos dias que não nos encontramos tão dispostas, não é mesmo?
Bella sorriu, apesar de ainda sentir o peso da noite anterior. O desjejum transcorreu entre risadas, provocações leves e pequenas observações de Charles, que mantinha distância, mas não podia deixar de notar cada gesto, cada sorriso dela.
Quando o café terminou, Suzzie tomou a frente:
— Então, minha querida, vamos aproveitar o dia! A cidade está esperando, e precisamos nos certificar de que nossos convidados também se encantem com sua presença.
— Certo, tia — disse Bella, apertando o casaco leve sobre o vestido. — Só espero que não seja tão… formal quanto o baile de ontem.
Ruan deu um sorriso malicioso. — Ah, você vai se divertir, prometo. Só tente não se perder em conversas com comerciantes ou em algum jogo de adivinhação.
Enquanto caminhavam, Bella percebeu a leveza da manhã, a brisa fresca e os sons da cidade despertando. Cada passo afastava-a da frustração e aproximava-a de um estado de contemplação e leveza. Charles, embora distante fisicamente, seguia de forma discreta, atento, e isso fazia o coração de Bella acelerar sem motivo aparente.
Ao passar por uma pequena praça, Bella viu crianças brincando e não resistiu. Soltou a mão de Suzana e começou a se envolver nas travessuras, rindo com espontaneidade. Ruan, claro, não perdeu a oportunidade de entrar na brincadeira, e por alguns minutos, o mundo parecia se reduzir àquelas risadas e gestos despreocupados - Ao lado dele. -
— Está vendo? — disse Ruan, sorrindo. — Eu disse que você precisava se soltar um pouco.
Bella riu, balançando a cabeça. — Só não me diga que você gosta de me ver assim.
— Claro que gosto — respondeu ele, piscando. — Mas só um pouquinho. Não quero me aproveitar do meu papel de amigo protetor.
Nesse instante, Charles passou por eles, observando, e um leve arrepio percorreu sua espinha. Ele não podia se aproximar, não queria estragar a leveza do momento, mas a maneira como Ruan se aproximava de Bella, rindo e brincando, fazia-o sentir algo que não conseguia controlar totalmente.
— Deveríamos ir — disse Suzzie, interrompendo o jogo. — Ainda temos a feira, e você precisa conhecer novos lugares e pessoas.
— Tudo bem — disse Bella, rindo, mas com uma pontada de frustração e se despediu das crianças.
A manhã passou entre passeios, compras e pequenas aventuras. Bella sentia-se mais leve, mas o pensamento em Charles nunca a deixava completamente. Ele parecia sempre estar ali, em algum lugar, observando de longe.
Quando voltaram para a casa, o jantar trouxe um clima curioso. Bella sentou-se ao lado de Ruan, e durante toda a refeição continuou a provocar, a rir, a puxar conversas que mantivessem a leveza. Charles, do outro lado da mesa, mantinha o olhar atento, mas contido. Era estranho saber que o irmão também a amava.
— Está se divertindo tanto assim com ele? — murmurou Charles, baixinho para Leandro.
— Parece que sim — respondeu Leandro, sorrindo. — Eles são tão compatíveis. Parecem dividir o mesmo neurônio. Eu não me assustaria se um dia se casassem.
Charles fechou os olhos por um instante, sentindo a inquietação crescer. Ele deveria apenas manter a distância e observar, mas era impossível ignorar.
Quando o jantar terminou, Bella se retirou para seu quarto, ainda com o coração apertado, mas consciente de que precisava de seu tempo. Ruan acompanhou-a até a porta, piscando, e Charles permaneceu na sala, observando a movimentação com um misto de ciúme e preocupação.
Mais tarde, já à noite, Bela estava pronta para dormir quando decidiu que não aceitaria o silencio de Charles, oras, praticamente desamarrada seu vestido a duas noites atrás e lhe devia uma explicação. Em passos firmes, mas silenciosos, seguiu corajosamente para o quarto dele.