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2518 Words
O amanhecer após a noite de núpcias encontrou Layla acordada antes de Zayn. A luz suave do deserto filtrada pelas cortinas de seda prateada pintava listras douradas sobre o torso nu de seu marido. Marido. A palavra ainda ecoava estranha em sua mente, como uma melodia familiar tocada em um instrumento desconhecido. Ele dormia de costas, um braço jogado sobre os olhos, o outro repousando possessivamente sobre seu quadril, como se mesmo em sono profundo precisasse da confirmação tátil de sua presença. Layla observou-o, estudando as sutis mudanças que três meses de paz haviam esculpido em seu rosto. As linhas de tensão ao redor de sua boca haviam suavizado. As sombras sob seus olhos, testemunhas silenciosas de noites sem dormir e pesadelos compartilhados, haviam praticamente desaparecido. Ele parecia mais jovem, mas também mais vulnerável. Esta vulnerabilidade era sua nova obsessão – mais intoxicante do que qualquer demonstração de poder que ele já exibira. — Você está me observando de novo — a voz rouca de sono de Zayn rompeu o silêncio, seu braço ainda sobre os olhos. — Como você sabe? — Sinto seu olhar na minha pele. É diferente. — Ele baixou o braço, seus olhos negros encontrando os dela. — Antes você me observava como um animal observa seu predador. Agora... — Agora? Ele virou-se de lado, apoiando a cabeça na mão. — Agora parece que você está lendo um livro fascinante do qual já conhece o final, mas quer revisitar suas páginas favoritas. Layla sorriu, estendendo a mão para traçar a linha de sua mandíbula. — Talvez eu esteja apenas memorizando você. Caso um dia precise lembrar. A expressão de Zayn escureceu quase imperceptivelmente. — Esse dia não chegará. Era uma afirmação, não uma promessa. A diferença era importante. Layla sentiu o antigo frisson de medo e excitação percorrer sua espinha – não pelo que ele era capaz de fazer, mas pelo que ele era capaz de sentir por ela. — Aisha quer nos encontrar para o café da manhã — ela disse, mudando de assunto. — Algo sobre "negócios familiares". Zayn suspirou, rolando para de costas novamente. — Minha irmã e seu senso de oportunidade. — Sua mão desceu para a coxa de Layla, seus dedos desenhando círculos lentos. — Podemos dizer que estamos ocupados? — Já estamos atrasados uma hora. — Atrasados é um conceito relativo quando se é dono do relógio. Apesar de suas palavras, ele se levantou da cama com a graça fluida de um grande felino, esticando-se de modo a deixar cada músculo de seu torso em exibição. Layla não conseguia evitar observá-lo – não mais com medo, mas com uma posse tranquila que ainda a surpreendia. — Gosta do que vê, habibti? — ele perguntou, percebendo seu olhar. — Estou apenas avaliando minha propriedade — ela respondeu, mantendo um tom neutro. Zayn congelou por uma fração de segundo, então um sorriso lento e perigoso surgiu em seus lábios. — Cuidado com o que provoca, esposa. Você pode descobrir que algumas dinâmicas não mudam completamente. O café da manhã foi servido na varanda leste, com vista para os jardins que agora eram o projeto pessoal de Layla. Aisha já os esperava, impecável em um conjunto de linho branco, digitando furiosamente em seu celular. Ela olhou para cima quando eles se aproximaram, um sorriso irônico tocando seus lábios. — Finalmente. Eu estava começando a pensar que teria que enviar uma equipe de busca. — Bom dia para você também, irmã — Zayn respondeu, puxando a cadeira para Layla antes de se sentar. — Os cumprimentos podem esperar. Temos um problema. — Aisha deslizou o tablet pela mesa em direção a Zayn. — Rafiq Al-Fayed. O nome fez o ar esfriar vários graus. Zayn pegou o tablet, seu rosto uma máscara impenetrável enquanto lia. Layla observou a transformação – o homem relaxado de minutos antes desaparecia, substituído pelo Sheikh Al-Mansur, implacável e calculista. — O que ele quer? — a voz de Zayn era gelada. — Parece que seu "acordo" no baile não foi tão conclusivo quanto você pensava. — Aisha olhou para Layla, depois de volta para Zayn. — Ele está contestando a transferência dos contratos do porto sul. Alegando coerção. Zayn soltou uma risada seca e sem humor. — Coerção. Ele devia conhecer o significado da palavra. — Não é uma piada, Zayn. Ele conseguiu audiência com o Conselho de Comércio. Se ele convencê-los de que você usou... métodos irregulares para obter vantagem comercial... — Métodos irregulares — Zayn repetiu, seus dedos batendo no vidro da mesa. — Ele se refere a você, Layla. O estômago de Layla deu um nó. — Como assim? — Ele está sugerindo que nosso relacionamento começou como uma transação comercial ilegal. Que você foi, por todos os efeitos, uma propina. — Aisha falou com uma franqueza brutal. — Se ele conseguir provar isso, não apenas os contratos serão revertidos, mas Zayn poderá enfrentar acusações de tráfico. O silêncio que se seguiu foi pesado, carregado de implicações não ditas. Layla olhou para Zayn, mas ele estava olhando para o horizonte, seu perfil afiado como a lâmina de uma faca. — O que precisamos fazer? — Layla perguntou, surpresa pela calma de sua própria voz. — Você não precisa fazer nada — Zayn disse, voltando-se para ela. — Isso não é seu problema. — Claro que é! — Ela sentiu uma faísca de raiva. — Ele está usando-me como arma contra você. Isso me torna parte disso. Aisha observou a troca com olhos calculistas. — Ela tem um ponto, Zayn. Além disso... — ela hesitou — ...há outra coisa. — Diga. — Rafiq não está agindo sozinho. Ele tem apoio. Dentro da família. Zayn ficou muito quieto. Tão quieto que Layla pôde ouvir o zumbido distante do ar-condicionado, o canto de um pássaro nos jardins. — Quem? — a palavra saiu como um estalo. — Prima Nadia. E... possivelmente o tio Faisal. O nome do tio Faisal pareceu atingir Zayn como um golpe físico. Layla lembrava vagamente de Aisha mencioná-lo – o patriarca da família, o único homem que Zayn supostamente respeitava e temia. — Por que? — a pergunta de Layla foi dirigida a ambos. — Poder — Aisha respondeu simplesmente. — Zayn tem estado... distraído nos últimos meses. Mudando políticas, desfazendo acordos antigos, redirecionando investimentos para projetos de "responsabilidade social". — Ela citou as palavras com os dedos. — Para algumas pessoas, compaixão parece-se com fraqueza. — E Nadia sempre ambicionou o controle da holding familiar — Zayn acrescentou, sua voz agora cansada. — Ela deve ver isso como sua oportunidade. Layla estudou o rosto de seu marido, vendo não apenas o homem, mas o peso da dinastia que carregava. Subitamente, as correntes que ela pensava terem sido quebradas reapareceram – não de metal, mas de expectativa, tradição, dever. — Então o que fazemos? — ela perguntou novamente. Zayn olhou para ela, e em seus olhos ela viu a tempestade se formando. — Nós damos a eles exatamente o que querem. Um espetáculo. O plano foi formulado nas horas seguintes, não no escritório de Zayn com suas paredes à prova de som e monitores de segurança, mas no jardim privativo de Layla, entre suas roseiras recém-plantadas. Era, ela percebeu, uma declaração em si mesma – a guerra seria travada em seu território, em seus termos. — O Conselho se reunirá em cinco dias — Aisha explicou, passando os dedos pela tela de seu tablet. — Tradicionalmente, é um evento fechado, apenas para membros da família e os conselheiros principais. Mas este ano... — Este ano terá um novo elemento — Zayn completou, seus olhos em Layla. — Você. — Eu? Mas eu nem sou da família! — Você é agora — Aisha corrigiu. — Por casamento. E como a pessoa no centro das acusações de Rafiq, você tem o direito de comparecer. Na verdade, seria estranho se você não comparecesse. Layla sentiu um frio percorrer sua espinha. — E o que eu faria lá exatamente? Zayn se inclinou para frente, pegando suas mãos. — Você será você mesma. Minha esposa. Não a vítima que Rafiq quer pintar, mas a mulher que escolheu ficar. — E se eles não acreditarem? — Eles acreditarão — Aisha disse com confiança. — Porque nós vamos mostrar a eles. Não apenas com palavras, mas com... demonstrações. Havia algo na maneira como ela disse "demonstrações" que fez Layla se sentir levemente enjoada. — Que tipo de demonstrações? Zayn trocou um olhar com Aisha antes de responder. — Eles esperam ver um tirano e sua vítima. Então nós lhes mostraremos algo diferente. Um casal unido. Um homem transformado pelo amor de sua esposa. — E como, exatamente, demonstramos isso? O sorriso de Zayn foi lento e carregado de significado. — Deixando-os ver o que normalmente esconderíamos. As palavras ecoaram na mente de Layla pelo resto do dia. Enquanto Zayn e Aisha se trancavam no escritório para discutir estratégias legais e alianças familiares, ela vagou pelos jardins, suas mãos enterradas na terra que agora era sua, mas sentindo-se menos enraizada do que em qualquer momento desde seu retorno. O jantar foi uma refeição silenciosa. Zayn estava distante, sua mente claramente em outro lugar. Quando os pratos foram recolhidos, ele finalmente falou. — Venha comigo. Ele a levou não para seus aposentos, mas para uma parte do palácio que ela nunca vira – uma ala antiga, com paredes de pedra e tapetes desbotados pelo tempo. — Onde estamos? — Os aposentos de meu avô — Zayn respondeu, acendendo as velas em candelabros de ferro. — Ele construiu esta ala para sua esposa favorita. Dizia que as paredes mais grossas mantinham seus segredos seguros. A luz das velas dançava nas pedras, criando sombras que pareciam respirar. No centro da sala, havia uma cama de dosel com cortinas de velho brocado. — Por que estamos aqui? — Layla perguntou, embora parte de ela já soubesse a resposta. Zayn virou-se para enfrentá-la, seu rosto sério à luz tremeluzente. — Porque amanhã começamos a preparação. E antes que eu possa pedir que você se exiba para meus inimigos, preciso saber... Ele parou, algo raro nele – hesitação. — Preciso saber o que você está disposta a fazer. Até onde você está disposta a ir. Layla cruzou os braços, sentindo o ar frio da sala antiga em sua pele. — E se eu disser que não quero fazer parte disso? Que não quero ser exibida como um troféu em sua guerra familiar? A expressão de Zayn não mudou, mas ela viu a dor em seus olhos. — Então eu os enfrento sozinho. E aceito as consequências. — Que consequências? — A perda dos contratos do porto. Milhões em receita. O respeito da família. Possivelmente... minha posição como chefe da holding. Ele disse as palavras com uma calma que era mais assustadora do que qualquer explosão de raiva. — E isso não te importa? — Importa — ele admitiu. — Mas importa mais sua liberdade de escolha. Eu a tirei de você uma vez. Não o farei novamente. Layla estudou-o – o homem que a comprou em um leilão, que a quebrou e remontou, que agora se ajoelhava diante dela não em submissão, mas em respeito. — E se eu escolher lutar ao seu lado? Um brilho perigoso acendeu-se nos olhos de Zayn. — Então nós lutamos. E nós vencemos. Ele fechou a distância entre eles, suas mãos subindo para seu rosto. — Mas saiba disso, Layla – a batalha será suja. Eles usarão tudo contra nós. Nosso passado. Nossa... dinâmica. As coisas que fiz, as coisas que você permitiu que eu fizesse. — Eu não permiti. Eu sobrevivi. — E agora? — sua voz era um sussurro áspero. — O que você está fazendo agora? Layla não respondeu com palavras. Em vez disso, ela fechou a distância final, seus lábios encontrando os dele com uma fúria que os surpreendeu a ambos. O beijo não era gentil nem reverente – era um conflito, uma luta pelo poder, uma reivindicação mútua. Quando eles se separaram, ambos estavam ofegantes. — É isso que eles verão — ela disse, sua voz firme. — Não uma vítima. Uma parceira. Zayn a olhou, e pela primeira vez desde o retorno, ela viu algo do antigo fogo em seus olhos – não a frieza da posse, mas o calor do desejo compartilhado. — Então mostre-me — ele desafiou. Layla não hesitou. Ela despiu seu vestido lentamente, deixando-o cair em um pool de tecido aos seus pés. A luz das velas dançou em sua pele, destacando as cicatrizes que eram agora parte de sua história compartilhada. — Eu não sou mais sua escrava — ela disse, mantendo seus olhos fixos nos dele. — Não — ele concordou, seu olhar ardente. — E você não é mais meu dono. — Não. — Então o que somos? Zayn despiu sua própria roupa, sua nudez uma afirmação poderosa na sala silenciosa. — Somos um casamento. — Ele fechou a distância entre eles. — E hoje à noite, você me mostrará o que isso significa. O que se seguiu não foi sexo como Layla conhecia – nem a violência de seus primeiros encontros, nem a ternura cuidadosa de seus meses na ilha. Era algo diferente, algo mais profundo. Era uma reivindicação mútua, uma reconquista de territórios conhecidos com novas bandeiras. Quando Zayn a levou para a cama antiga, foi com uma reverência que não negava seu desejo, mas o elevava. Cada toque era uma pergunta, cada resposta era uma concessão negociada. E quando ele finalmente entrou nela, foi com um gemido que parecia vir de um lugar antigo e sombrio dentro dele. — Você é minha — ele rosnou, seus quadris batendo contra os dela. — E você é meu — ela respondeu, suas unhas cravando-se em suas costas. Era uma verdade diferente da que eles haviam conhecido antes – não uma verdade de posse unilateral, mas de posse mútua. Quando o orgasmo a atingiu, foi com a força de uma revelação, e o grito de Zayn que se seguiu foi um eco da dela. Mais tarde, deitados entrelaçados na cena antiga, Layla traçou o perfil do rosto de Zayn com a ponta do dedo. — Vamos vencer? — ela perguntou, sua voz pequena na sala silenciosa. Zayn virou a cabeça para beijar seus dedos. — Já vencemos. Tudo o que vem depois é apenas... formalidade. Mas mesmo enquanto dizia as palavras, seus olhos estavam no teto escuro, e Layla soube que ele estava mentindo – para ela, ou para si mesmo, ela não tinha certeza. A tempestade estava chegando. E pela primeira vez desde que ele a comprou, eles estariam no olho do furacão juntos. O preço da liberdade, ela estava começando a entender, não era pago uma vez. Era uma dívida perpétua, uma hipoteca sobre a alma. E eles acabavam de assumir uma nova parcela. O relógio começara a contar. Em cinco dias, eles enfrentariam o conselho. Em cinco dias, seu casamento seria julgado. E em cinco dias, Layla descobriria se as asas que Zayn lhe dera eram fortes o suficiente para carregar o peso de seu mundo.
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