Serena
Eu nunca imaginei que minha vida pudesse virar do avesso assim.
Num dia, eu era a garota que servia café no restaurante da cidade, sonhando em me casar de branco. No outro, estava sentada no banco de trás de uma caminhonete velha, com uma sacola de roupas no colo, indo morar com um bando de motociclistas que falavam palavrões como quem respira.
Meu vestido de noiva ficou pra trás.
Deixei ele pendurado na porta do guarda-roupa, como uma lápide.
A cada quilômetro que a caminhonete avançava, meu coração doía.
Não era isso que eu tinha sonhado.
Mas era isso que eu tinha agora.
Quando chegamos, o clube parecia saído de um filme: uma construção de madeira escura, bandeiras tremulando no vento, o barulho dos motores ao longe e o cheiro de graxa misturado com fumaça de cigarro.
O portão principal trazia o brasão dos Vultures MC: um abutre de asas abertas, olhando de cima, pronto para atacar.
Frio. Implacável.
Assim como o mundo que eu estava prestes a entrar.
Hawk desceu primeiro e me estendeu a mão.
— Vamos, pequena. Agora você é uma de nós.
Engoli em seco, peguei minha sacola e o segui.
Assim que entrei, fui recebida por um coro de vozes roucas e olhares pesados.
Hawk foi chamando os caras, um por um, apresentando como se estivesse me entregando aos cuidados de uma matilha.
— Esse aí — apontou para um brutamontes de barba grisalha e braços do tamanho de troncos de árvore — é o Reaper, nosso Vice-presidente. Se um dia eu cair, é ele quem assume o comando.
Reaper acenou com a cabeça, o olhar firme como aço, mas com uma pontinha de respeito que me surpreendeu.
— A pequena agora é responsabilidade de todos nós — ele disse, a voz grossa como brita.
Hawk continuou:
— Esse é o Chains — um homem mais jovem, tatuagens subindo pelo pescoço até a mandíbula. — Nosso Sargento de Armas. Ele é quem cuida da segurança do clube e da nossa família.
Chains sorriu de lado, um sorriso duro, mas não hostil.
— Qualquer um que encostar em você sem permissão, Serena, perde os dentes. E mais um pedaço, se eu tiver tempo.
Arregalei os olhos, meio assustada, mas Hawk só riu.
— Eles falam feio, mas têm o coração no lugar.
Depois apontou para um homem moreno de olhos escuros e expressão mais tranquila:
— Esse é o Ghost, nosso Tesoureiro. Cuida do dinheiro do clube e de alguns negócios que a gente prefere não comentar.
Ghost deu um leve sorriso, um tanto misterioso.
— Dinheiro não é problema. Problema é quem tenta passar a perna. Mas com você... — ele piscou — a gente só quer garantir que tenha tudo que precisa.
Um pouco mais afastado, encostado na parede, havia outro homem. Mais reservado, com um cigarro entre os dedos.
— Aquele é o Doc — disse Hawk. — Nosso Médico do Clube. Se você precisar de qualquer coisa, de enjoo a choro, é ele quem vai cuidar.
Doc apenas levantou dois dedos num cumprimento discreto.
Olhei para ele com alívio. Saber que teria alguém para cuidar da minha gravidez, pelo menos, era um consolo.
Por último, Hawk chamou outro m****o, que usava óculos escuros e tinha um ar de calculista.
— Esse é o Viper, nosso Road Captain. Ele organiza as viagens, os comboios, e garante que a gente chegue inteiro onde precisa.
Viper sorriu meio de lado, parecia mais calmo que os outros, mas com uma tensão permanente nos ombros, como se estivesse sempre pronto pra agir.
— Se precisar fugir de algum lugar — ele disse —, deixa comigo.
Aquele era o meu novo mundo.
Homens grandes, tatuados, brutais à primeira vista, mas que carregavam nas costas um código de honra mais forte do que qualquer aliança de sangue.
E agora... eu era uma Old Lady.
Parte dessa irmandade.
Mesmo que meu coração ainda doesse cada vez que eu fechava os olhos e via o rosto de Taylor.
Mesmo que eu ainda não conseguisse aceitar que ele tinha me deixado.
Hawk colocou uma mão pesada no meu ombro.
— Você tá segura aqui, Serena. O que quer que aconteça, ninguém vai te deixar sozinha.
— Eu não sei se consigo... — minha voz falhou, o nó na garganta ficando mais grosso.
Hawk se inclinou, falando baixo, como se fosse uma promessa:
— Você vai. Pelo seu filho.
E pelo homem que amava tanto você que fez questão de te trazer pra nós, antes de sumir desse mundo de merda.
Fechei os olhos com força, tentando segurar as lágrimas.
Não era justo.
Nada disso era justo.
Mas pela vida que eu carregava dentro de mim...
Eu teria que ser forte.
Quando abri os olhos, todos aqueles homens estavam ali, me observando.
Não com pena.
Não com julgamento.
Com respeito.
Com a promessa silenciosa de que, enquanto o brasão dos Vultures tremulasse no vento... eu nunca estaria realmente sozinha.
Respirei fundo, sentindo pela primeira vez uma ponta de força que eu pensei ter perdido.
Talvez eu tivesse perdido Taylor.
Talvez eu tivesse perdido meus sonhos.
Mas não tinha perdido tudo.
Ainda existia algo para lutar.
Por mim.
Pelo meu bebê.
E, quem sabe, um dia... por Taylor também.
Se é que ele ainda estava vivo em algum lugar.