Capítulo 4. Don Alonso Cavalcante

1048 Words
Gabriel não deveria estar ali. Ele sabe disso enquanto caminha alguns passos atrás do pai, tentando fazer os pés pequenos acompanharem o ritmo apressado do homem. A estrada que leva à colina parece mais longa hoje, mais íngreme. Cada passo pesa. A casa dos Cavalcante surge diante deles como algo que não pertence a Valerosa. Grande demais. Silenciosa demais. Os portões de ferro estão abertos, mas não parecem convidativos parecem alertas. — Fique aqui — diz o pai, sem olhar para trás. — Não fale nada. Gabriel assente, mas não promete em voz alta. Ele nunca promete coisas que não sabe se conseguirá cumprir. Ele m*l cruza o pátio quando uma voz grave corta o ar. — Então você resolveu aparecer. Don Alonso Cavalcante está parado sob a sombra da varanda. É um homem alto, de postura rígida, vestindo roupas impecáveis demais para aquela hora do dia. O rosto é duro, como se tivesse sido esculpido sem nenhuma intenção de gentileza. Os olhos, frios,olhos que não perguntam, apenas avaliam. Gabriel sente um arrepio subir pela espinha. O pai engole em seco antes de responder. — Vim falar sobre a dívida, senhor Cavalcante. Don Alonso desce um degrau. Depois outro. Cada movimento é calculado, lento, como quem gosta de fazer o outro esperar. — Dívida? — ele repete, com um sorriso torto. — Não. Vamos chamar as coisas pelo nome certo. O que você tem é uma falha. E falhas custam caro. Gabriel aperta os dedos contra a calça. Observa tudo em silêncio, os olhos atentos demais para uma criança. — Eu preciso de mais tempo — diz o pai. — A colheita foi r**m este ano, mas eu posso— Don Alonso levanta a mão, interrompendo-o. — Tempo é um luxo que não se oferece a quem não cumpre acordos. Ele então percebe Gabriel. O olhar desce devagar até o menino. Avalia. Mede. Um segundo a mais do que deveria. — Vejo que trouxe o filho — comenta, com um tom quase curioso. — Interessante. Gabriel sustenta o olhar. Não baixa a cabeça. Não desvia. Isso arranca um meio sorriso de Don Alonso. — Corajoso… ou imprudente. Difícil dizer nessa idade. O pai se adianta, nervoso. — Ele não tem nada a ver com isso. Don Alonso solta uma breve risada seca. — Tudo tem a ver com tudo. Especialmente quando dívidas passam de pai para filho. O silêncio cai pesado. — Se não pagar até o prazo final — continua Don Alonso, agora sério —, eu tomo o que for necessário. Sua casa. Sua terra. E não me importa se haverá uma criança sem teto em Valerosa. As palavras não são ditas em tom de ameaça. São ditas como fato. Gabriel sente algo quebrar dentro do peito. Não é medo. É outra coisa. Algo mais fundo. Mais perigoso. Don Alonso se inclina levemente, ficando na altura do menino. — Aprenda cedo, garoto — diz, baixo. — O mundo pertence a quem pode pagar por ele. Gabriel não responde. Mas grava cada palavra. Cada olhar. Cada injustiça. Quando eles se afastam, descendo a colina, Gabriel olha uma última vez para trás. E, mesmo com apenas sete anos, entende algo que nunca mais o abandonará: Aquele não é um homem que se esquece. E ele próprio jamais esquecerá aquele dia. Ali, diante da casa dos Cavalcante, nasce no menino não apenas a vontade de sobreviver mas a de nunca precisar se curvar. A casa de Gabriel está estranhamente quieta naquela tarde. O sol bate fraco nas paredes claras, e o vento entra pela janela aberta carregando o cheiro seco da estrada. Do lado de fora, Gabriel está sentado no chão, perto do muro baixo, empilhando pequenas pedras como se fossem torres de um reino invisível. Ele brinca. Ou tenta. As mãos se movem sozinhas, mas a mente está longe. O rosto sério demais para uma criança de sete anos denuncia que algo ficou para trás na colina e ficou fundo. Lá dentro, as vozes começam baixas. — Nós não temos saída — diz a mãe, andando de um lado para o outro. — Alonso Cavalcante não faz ameaças vazias. — Eu sei — responde o pai, passando a mão pelo rosto cansado. — Mas também não posso entregar tudo de uma vez. Se eu fizer isso, acabamos do mesmo jeito. — E se não fizer, ele toma à força. O silêncio que se segue é pesado, carregado de medo. Do lado de fora, Gabriel derruba uma das torres sem querer. As pedras rolam pelo chão, espalhando-se. Ele não as recolhe. Fica olhando, parado, como se aquele pequeno desastre fosse maior do que parece. — Talvez devêssemos ir embora — sussurra a mãe. — Para longe de Valerosa. O pai ergue o olhar. — Fugir? — Sobreviver — ela corrige. — Antes que seja tarde. Gabriel pega uma das pedras maiores e segura com força. Não ouve cada palavra, mas reconhece o tom. Já ouviu esse tom antes, quando adultos tentam proteger crianças dizendo menos do que sabem. — E ir para onde? — pergunta o pai. — Sem dinheiro? Com um menino pequeno? — Com um menino que merece um futuro — responde ela, com a voz falhando. — Eu não vou esperar Alonso Cavalcante cumprir a palavra dele. Gabriel se levanta devagar. A discussão cresce lá dentro, abafada pelas paredes finas. Ele se afasta alguns passos, como se desse espaço às palavras que não entende completamente, mas que sente com clareza. Olha ao redor. Valerosa é tudo o que ele conhece. A rua. As árvores. O cheiro da terra. As vozes familiares. E, ainda assim, tudo parece… instável. Como se pudesse desaparecer a qualquer momento. Ele chuta uma pedrinha com força. Ela bate no muro e cai de volta aos seus pés. Gabriel cruza os braços, sério. Dentro da casa, os pais continuam debatendo destinos, perdas e riscos. Do lado de fora, um menino de sete anos começa a entender que o lar não é apenas um lugar é algo que pode ser tirado. E, naquele instante, enquanto o sol desce lento no céu de Valerosa, Gabriel aprende uma lição dura da vida: Que decisões importantes quase sempre são tomadas sem perguntar às crianças. E que, mesmo brincando do lado de fora, ele já faz parte delas
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