Querido, Henrique.
Antes que o mundo te conhecesse por esse nome, antes dos títulos, das responsabilidades e do homem que você se tornou, você era apenas um menino.
Gabriel.
Você nasceu em Valerosa, em uma casa simples demais para chamar atenção, mas firme o suficiente para resistir aos invernos e às ausências. As paredes eram claras, gastas pelo tempo, e o telhado rangia quando o vento passava mais forte como se a casa respirasse junto com quem morava nela.
Foi ali que você aprendeu cedo que o silêncio também ensina.
Gabriel era um menino inteligente, daqueles que observam antes de falar e entendem mais do que demonstram. Seus olhos carregavam perguntas grandes demais para a idade, e sua mente parecia sempre correr à frente do corpo, inquieta, imperativa, recusando-se a aceitar o mundo exatamente como lhe era apresentado.
Você não se conformava.
Enquanto outras crianças brincavam sem rumo pelas ruas de terra de Valerosa, você insistia em saber por quê. Por que alguns tinham tanto e outros tão pouco. Por que certas portas permaneciam fechadas. Por que o destino parecia escolher favoritos.
Havia uma fome em você não de comida, mas de futuro.
Mesmo na simplicidade daquela casa, você carregava uma dignidade silenciosa. A forma como ajudava, como assumia responsabilidades que não deveriam pesar sobre ombros tão pequenos. Gabriel cresceu rápido demais, mas não perdeu a capacidade de sonhar.
E eu me pergunto, agora, olhando para o homem que você é:
Quantas vezes o mundo tentou te diminuir antes de você aprender a se erguer?
Este livro começa aqui porque é impossível amar Henrique sem antes conhecer Gabriel. Porque tudo o que você é hoje nasceu ali naquela casa humilde de Valerosa, naquele menino que ousou ser maior do que a dor, ousou ser forte mesmo tão pequeno.
E, talvez, desde então, você já estivesse destinado a mudar não apenas o seu próprio destino… mas o de todos ao seu redor. Então agora, aqui... Eu começo a sua história, pelos seus olhos...