Capítulo 2. Jardim de amor

815 Words
Amélie afastou-se da janela e respirou fundo antes de deixar o quarto. Desceu as escadas lentamente, com a mão roçando o corrimão de madeira escurecida pelo tempo, como fazia todas as manhãs. A casa ainda estava em silêncio, aquele silêncio confortável de um lar que já despertara, mas sem pressa. No jardim, o orvalho ainda brilhava nas folhas. Amélie amarrou as mangas do vestido e ajoelhou-se junto aos canteiros. Tocou a terra com cuidado, reconhecendo a textura úmida entre os dedos. Havia algo de profundamente reconfortante naquele ritual diário cuidar do que cresce devagar, do que exige paciência e presença. Ela aparava uma das roseiras quando ouviu passos conhecidos atrás de si. — Bom dia, senhora — disse Nora, com a voz tranquila de quem fazia parte daquela casa há mais tempo do que muitos móveis. Amélie sorriu antes mesmo de se virar. — Bom dia, Nora. O dia começou cedo hoje. A criada aproximou-se, trazendo consigo um pequeno cesto de pano. Observou Amélie por alguns segundos, como quem mede palavras antes de dizê-las um hábito antigo, nascido da confiança mútua. — Vi o senhor Henrique sair a cavalo — comentou, casualmente. — Não fazia isso há algum tempo. Amélie assentiu, passando a mão pela terra para firmar a muda recém-plantada. — Ele acordou com vontade de sentir o vento na face hoje. Nora sorriu de lado, um sorriso carregado de significado. — Eu diria que ele anda com vontade de muita coisa, senhora. — Fez uma breve pausa. — O senhor Henrique está… diferente. Mais leve. Amélie parou o movimento das mãos por um instante. — Diferente como? Nora inclinou a cabeça, apoiando-se no cabo da ferramenta que trazia. — Feliz — disse, simplesmente. — E não aquele tipo de felicidade barulhenta. É a calma. Ele anda assobiando pelos corredores, agradece mais do que o costume… e ontem mesmo deixou o escritório mais cedo. Nunca vi isso acontecer antes. Amélie sentiu o coração aquecer. — Acho que ele aprendeu, enfim, a descansar — respondeu, com suavidade. — Ou talvez tenha percebido que nem tudo precisa ser carregado sozinho. Nora observou a sua jovem senhora com atenção e, com um respeito quase maternal, completou: — Com todo o perdão, dona Amélie… mas isso tem nome. É amor bem vivido. Amélie baixou o olhar, tocada. Um sorriso discreto surgiu em seus lábios enquanto voltava a cuidar da roseira. — Se for isso — disse, em voz baixa —, fico feliz por ele. Muito feliz, por nós. O vento soprou leve entre as folhas, e o jardim pareceu respirar junto com elas. E, ali, entre terra, flores e confidências simples, Amélie sentiu a certeza silenciosa de que a felicidade de Henrique também florescia cultivada todos os dias, como aquele jardim. Depois de algum tempo no jardim, Amélie limpou as mãos na barra do avental e permaneceu alguns segundos em silêncio, observando as flores alinhadas. Havia paz ali. Mas também um chamado. Ela voltou para dentro da casa, subindo as escadas com passos lentos, como se cada degrau acompanhasse seus pensamentos. Henrique surgia em sua mente sem esforço o homem que estivera ao seu lado quando tudo parecia ruir, que escolhera ficar quando partir teria sido mais fácil. Pensou em tudo o que ele fizera por ela. Nos dias em que ele fora fortaleza quando ela era cansaço. Nas noites em que ele a escutara em silêncio, sem tentar consertar nada, apenas estando ali. Henrique nunca exigira explicações para seus medos, nunca diminuíra suas dores. Ele simplesmente permanecera. Amélie abriu a porta da sala de livros. O cômodo tinha cheiro de papel antigo e madeira encerada. As estantes altas guardavam histórias do mundo e deles. A luz entrava suave pela janela lateral, iluminando a escrivaninha onde repousavam folhas em branco, uma pena e o tinteiro. Ela sentou-se. Por um momento, apenas observou o papel à sua frente. Quantas vezes escrevera sobre guerras, perdas, decisões difíceis… mas nunca sobre ele. Nunca para ele. Pegou a pena, molhou-a no tinteiro, pousou a ponta sobre a folha… e parou. Como colocar Henrique em palavras sem reduzi-lo? Como escrever sobre um amor que se construiu em silêncio, em gestos diários, em escolhas repetidas? Amélie suspirou, apoiando o cotovelo na mesa. Talvez fosse um livro. Talvez fossem cartas. Talvez fosse apenas um registro íntimo, algo que jamais seria lido por outros olhos. Ela escreveu algumas linhas, depois as riscou. Tentou outra vez. Parou. Sorriu, emocionada consigo mesma. Não precisava ser perfeito. Precisava ser verdadeiro. Endireitou-se na cadeira, respirou fundo e, com a mão agora firme, escreveu no topo da página: Querido, Henrique. As palavras repousaram ali como se sempre tivessem pertencido àquele papel. Amélie fechou os olhos por um instante, sentindo o peso suave daquela escolha. Não era apenas um título. Era uma declaração. Um começo. E, pela primeira vez, ela soube exatamente como aquela história deveria ser contada, pelos olhos dele.
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