Os passos de Marcos Cestáro ecoam pelo corredor antes mesmo que ele apareça por inteiro.
O burburinho diminui quando o reconhecem. O médico. O Cestáro. O homem que não costuma se apressar e que agora anda rápido demais.
Ele se ajoelha ao lado de Gabriel assim que o vê nos braços de Ana.
Não pergunta nada.
Basta um olhar.
A magreza excessiva sob o tecido.
A palidez acinzentada.
Os hematomas antigos, m*l escondidos, nos pulsos, no pescoço, no maxilar.
Os cortes recentes no antebraço.
A respiração curta, irregular.
Marcos passa dois dedos pelo pulso de Gabriel. Conta em silêncio. Depois observa os lábios. As pálpebras. O modo como o corpo não reage ao toque.
Ele fecha os olhos por um segundo.
Quando os abre, encara Ana.
Não há surpresa.
Há confirmação.
Ele assente, uma única vez.
Ana entende imediatamente.
— Precisamos levá-lo agora — diz Marcos, enfim, com voz firme, profissional. — Para fora da casa.
— A carruagem está no pátio dos fundos — responde Ana, já se levantando com cuidado, mantendo Gabriel junto ao peito.
Marcos se ergue também.
— Vá — ordena, baixo. — Agora. Não pare. Não olhe para trás.
Ela não discute.
Dois criados observam, confusos.
— Ajudem-na — Marcos diz, sem dar espaço para objeções. — Se demorarem, ele morre aqui.
A palavra cai pesada.
Eles obedecem.
Ana segue pelo corredor lateral, rápido, protegido pela confusão do baile. O som da música ainda toca, ignorante. O mundo continua dançando enquanto uma criança é levada embora nos braços de alguém que decidiu não permitir mais.
No pátio, a carruagem dos Cestáro já está pronta. Ana entra primeiro. Deita Gabriel com cuidado, apoiando a cabeça dele em almofadas.
— Aguente — sussurra. — Já estamos indo.
A porta se fecha.
A carruagem parte para a frente da mansão em um lugar estratégico para fuga.
Dentro da casa, Marcos volta-se para o corredor no exato momento em que Don Alonso e Francesca surgem, alertados pelo tumulto.
— O que está acontecendo aqui? — exige Don Alonso, irritado.
Marcos não demonstra pressa. Não demonstra emoção.
Ele apenas ajusta a postura.
— O criado mais novo — diz, com calma clínica — sofreu um colapso.
Francesca empalidece.
— Gabriel…? — a voz dela falha.
Marcos sustenta o olhar dela por um segundo a mais do que seria confortável.
— Fiz tudo o que era possível — continua. — Mas eu cheguei tarde demais para qualquer intervenção.
O silêncio é brutal.
— Como assim? — Don Alonso pergunta, duro. — Está dizendo que—
— Ele veio a óbito — Marcos interrompe, sem elevar o tom.
Francesca leva a mão à boca.
— Não… — sussurra.
Don Alonso fica imóvel. Por um instante, algo passa pelo rosto dele não culpa, não pesar. Cálculo.
— Isso… — ele começa. — Isso não pode—
— Pode — Marcos corta. — E aconteceu sob o seu teto.
Ele dá um passo à frente.
— Sugiro que a música continue. Evite alarde. Para o bem da sua reputação… e da sua esposa.
O olhar de Marcos desce, significativo, até o ventre de Francesca, depois retorna aos olhos de Don Alonso.
— Cuidarei para que essa morte não seja associada a vocês. Pelo bem estar da nossa...amizade.
Ele se afasta sem esperar resposta.
Francesca permanece parada, o corpo rígido, os olhos perdidos.
Ela sente algo rasgar por dentro não exatamente luto, mas a percepção tardia de uma verdade irreversível:
Ela acreditou que Gabriel seria dela para sempre.
Do lado de fora, a carruagem Gabriel respira, fraco, mas vivo.
O silêncio deixado por Marcos pesa mais do que a música distante do salão.
Por alguns segundos, Francesca permanece imóvel. O rosto perde a cor. Os olhos piscam rápido demais, como se tentassem negar o que acabaram de ouvir.
Então o corpo falha.
Ela dá um passo em falso, outro… e cai de joelhos no chão de pedra.
— Não… — a palavra sai quebrada. — Não, isso não…
O choro vem de uma vez, descontrolado, cru. Francesca se joga no chão, as mãos pressionando o vestido, o peito subindo e descendo em soluços que ela não consegue conter.
— Meu menino… — ela repete, como um lamento. — Eu só queria… ele era meu. — ela levanta o olhar para Don Alonso— O que você ?— rosna.
Don Alonso fecha a porta do corredor com força, abafando o som do baile.
— Levante-se — diz, seco.
Ela não obedece.
Francesca chora alto agora, o corpo encolhido, como alguém pequeno demais para carregar o que acabou de acontecer.
— Ele era só um menino… — soluça. — Você o destruiu… você—
Don Alonso a agarra pelo braço e a puxa para cima sem cuidado.
— Pare com isso! — rosna. — Está fazendo um escândalo!
— Me solta! — ela grita, tentando se desvencilhar. — Ele morreu por sua causa!
— Por SUA causa — ele corrige, furioso. — Foi você quem se envolveu demais. Quem o trouxe para perto. Quem provocou comentários!
Francesca o encara, os olhos vermelhos, inchados, mas agora cheios de algo novo.
— Não ouse — diz, com a voz tremendo de raiva. — Não ouse colocar isso em mim. Você o puniu. Você o quebrou. Eu vi!
Don Alonso aperta ainda mais o braço dela.
— E você me desafiou — ele responde. — Esqueceu quem manda em você. Nessa casa.
— Eu nunca tive poder algum — ela cospe as palavras. — Só medo.
Ela puxa o braço com força e se afasta.
— E agora eu tenho nojo.
O insulto paira no ar como um tapa.
— Enxugue o rosto — Don Alonso ordena. — Volte ao salão. As pessoas estão esperando a futura mãe do meu herdeiro.
Francesca ri. Um riso curto, histérico.
— Eu não vou voltar.
— Francesca—
— NÃO! — ela grita.
Ela passa a mão pelo rosto, respirando com dificuldade.
— Que você comemore sozinho. Eu vou sofrer o meu luto.
Don Alonso a encara, o rosto fechado, avaliando.
— Está me desafiando.
— Estou me recusando a continuar fingindo — ela responde, exausta. — Faça o que quiser comigo depois. Mas esta noite… acabou para mim.
Ela se vira e começa a andar pelo corredor oposto ao salão, o choro silencioso agora, mas contínuo.
Don Alonso fica parado, os punhos cerrados, ouvindo ao longe a música que ainda toca, os risos que ainda existem, a festa que deveria ser perfeita.
Ele entende que algo saiu completamente do seu controle.
E Francesca, caminhando sozinha pelo corredor escuro, sente o peso da culpa esmagar cada passo sem saber que, enquanto ela desmorona, a criança que acredita morta segue viva, afastando-se daquela casa.
Mas uma verdade já se fixou dentro dela, irreversível:
Nada do que venha depois
será celebração