Capítulo 30. Mentira para o bem

1137 Words
Os passos de Marcos Cestáro ecoam pelo corredor antes mesmo que ele apareça por inteiro. O burburinho diminui quando o reconhecem. O médico. O Cestáro. O homem que não costuma se apressar e que agora anda rápido demais. Ele se ajoelha ao lado de Gabriel assim que o vê nos braços de Ana. Não pergunta nada. Basta um olhar. A magreza excessiva sob o tecido. A palidez acinzentada. Os hematomas antigos, m*l escondidos, nos pulsos, no pescoço, no maxilar. Os cortes recentes no antebraço. A respiração curta, irregular. Marcos passa dois dedos pelo pulso de Gabriel. Conta em silêncio. Depois observa os lábios. As pálpebras. O modo como o corpo não reage ao toque. Ele fecha os olhos por um segundo. Quando os abre, encara Ana. Não há surpresa. Há confirmação. Ele assente, uma única vez. Ana entende imediatamente. — Precisamos levá-lo agora — diz Marcos, enfim, com voz firme, profissional. — Para fora da casa. — A carruagem está no pátio dos fundos — responde Ana, já se levantando com cuidado, mantendo Gabriel junto ao peito. Marcos se ergue também. — Vá — ordena, baixo. — Agora. Não pare. Não olhe para trás. Ela não discute. Dois criados observam, confusos. — Ajudem-na — Marcos diz, sem dar espaço para objeções. — Se demorarem, ele morre aqui. A palavra cai pesada. Eles obedecem. Ana segue pelo corredor lateral, rápido, protegido pela confusão do baile. O som da música ainda toca, ignorante. O mundo continua dançando enquanto uma criança é levada embora nos braços de alguém que decidiu não permitir mais. No pátio, a carruagem dos Cestáro já está pronta. Ana entra primeiro. Deita Gabriel com cuidado, apoiando a cabeça dele em almofadas. — Aguente — sussurra. — Já estamos indo. A porta se fecha. A carruagem parte para a frente da mansão em um lugar estratégico para fuga. Dentro da casa, Marcos volta-se para o corredor no exato momento em que Don Alonso e Francesca surgem, alertados pelo tumulto. — O que está acontecendo aqui? — exige Don Alonso, irritado. Marcos não demonstra pressa. Não demonstra emoção. Ele apenas ajusta a postura. — O criado mais novo — diz, com calma clínica — sofreu um colapso. Francesca empalidece. — Gabriel…? — a voz dela falha. Marcos sustenta o olhar dela por um segundo a mais do que seria confortável. — Fiz tudo o que era possível — continua. — Mas eu cheguei tarde demais para qualquer intervenção. O silêncio é brutal. — Como assim? — Don Alonso pergunta, duro. — Está dizendo que— — Ele veio a óbito — Marcos interrompe, sem elevar o tom. Francesca leva a mão à boca. — Não… — sussurra. Don Alonso fica imóvel. Por um instante, algo passa pelo rosto dele não culpa, não pesar. Cálculo. — Isso… — ele começa. — Isso não pode— — Pode — Marcos corta. — E aconteceu sob o seu teto. Ele dá um passo à frente. — Sugiro que a música continue. Evite alarde. Para o bem da sua reputação… e da sua esposa. O olhar de Marcos desce, significativo, até o ventre de Francesca, depois retorna aos olhos de Don Alonso. — Cuidarei para que essa morte não seja associada a vocês. Pelo bem estar da nossa...amizade. Ele se afasta sem esperar resposta. Francesca permanece parada, o corpo rígido, os olhos perdidos. Ela sente algo rasgar por dentro não exatamente luto, mas a percepção tardia de uma verdade irreversível: Ela acreditou que Gabriel seria dela para sempre. Do lado de fora, a carruagem Gabriel respira, fraco, mas vivo. O silêncio deixado por Marcos pesa mais do que a música distante do salão. Por alguns segundos, Francesca permanece imóvel. O rosto perde a cor. Os olhos piscam rápido demais, como se tentassem negar o que acabaram de ouvir. Então o corpo falha. Ela dá um passo em falso, outro… e cai de joelhos no chão de pedra. — Não… — a palavra sai quebrada. — Não, isso não… O choro vem de uma vez, descontrolado, cru. Francesca se joga no chão, as mãos pressionando o vestido, o peito subindo e descendo em soluços que ela não consegue conter. — Meu menino… — ela repete, como um lamento. — Eu só queria… ele era meu. — ela levanta o olhar para Don Alonso— O que você ?— rosna. Don Alonso fecha a porta do corredor com força, abafando o som do baile. — Levante-se — diz, seco. Ela não obedece. Francesca chora alto agora, o corpo encolhido, como alguém pequeno demais para carregar o que acabou de acontecer. — Ele era só um menino… — soluça. — Você o destruiu… você— Don Alonso a agarra pelo braço e a puxa para cima sem cuidado. — Pare com isso! — rosna. — Está fazendo um escândalo! — Me solta! — ela grita, tentando se desvencilhar. — Ele morreu por sua causa! — Por SUA causa — ele corrige, furioso. — Foi você quem se envolveu demais. Quem o trouxe para perto. Quem provocou comentários! Francesca o encara, os olhos vermelhos, inchados, mas agora cheios de algo novo. — Não ouse — diz, com a voz tremendo de raiva. — Não ouse colocar isso em mim. Você o puniu. Você o quebrou. Eu vi! Don Alonso aperta ainda mais o braço dela. — E você me desafiou — ele responde. — Esqueceu quem manda em você. Nessa casa. — Eu nunca tive poder algum — ela cospe as palavras. — Só medo. Ela puxa o braço com força e se afasta. — E agora eu tenho nojo. O insulto paira no ar como um tapa. — Enxugue o rosto — Don Alonso ordena. — Volte ao salão. As pessoas estão esperando a futura mãe do meu herdeiro. Francesca ri. Um riso curto, histérico. — Eu não vou voltar. — Francesca— — NÃO! — ela grita. Ela passa a mão pelo rosto, respirando com dificuldade. — Que você comemore sozinho. Eu vou sofrer o meu luto. Don Alonso a encara, o rosto fechado, avaliando. — Está me desafiando. — Estou me recusando a continuar fingindo — ela responde, exausta. — Faça o que quiser comigo depois. Mas esta noite… acabou para mim. Ela se vira e começa a andar pelo corredor oposto ao salão, o choro silencioso agora, mas contínuo. Don Alonso fica parado, os punhos cerrados, ouvindo ao longe a música que ainda toca, os risos que ainda existem, a festa que deveria ser perfeita. Ele entende que algo saiu completamente do seu controle. E Francesca, caminhando sozinha pelo corredor escuro, sente o peso da culpa esmagar cada passo sem saber que, enquanto ela desmorona, a criança que acredita morta segue viva, afastando-se daquela casa. Mas uma verdade já se fixou dentro dela, irreversível: Nada do que venha depois será celebração
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