Capítulo 29. Ana ajuda Gabriel

1062 Words
O acidente acontece de forma banal. Ana ri de algo que Marcos diz, gesticula um pouco demais, e a taça escorrega. O vinho tinto se espalha pelo tecido claro do vestido como uma mancha viva. — Aí por Deus… — murmura, olhando em volta. Nenhum criado por perto. O salão está cheio demais, barulhento demais. Ela suspira, faz um gesto para Marcos de que voltará logo e entra na casa, seguindo um corredor lateral à procura do toalete. O som da música vai ficando distante. A casa por dentro é mais fria. Mais escura. Os passos ecoam baixo no chão de pedra. Ana vira um corredor… depois outro… quando vozes a fazem parar de repente. Ela reconhece o tom antes mesmo das palavras. Don Alonso. Ana recua instintivamente e se encosta à parede, ficando parcialmente escondida pela curva do corredor. A chama de uma tocha ilumina o outro lado o suficiente para ver. Gabriel está ali. Em pé. Cabeça baixa. As roupas simples manchadas de respingos antigos de vinho. O corpo ainda frágil demais para o que lhe exigem. Don Alonso está à frente dele, rígido, o rosto fechado de fúria contida. — Você pensa que não percebi? — diz ele, baixo, venenoso. — A maneira como ela olha para você. Gabriel não responde. — Você se acha importante agora? — continua Don Alonso. — Acha que pode provocar minha esposa? Ana prende a respiração. — Eu não fiz nada, senhor — Gabriel diz, por fim, quase num sussurro. Don Alonso ri, curto, sem humor. — Nada? Sua simples existência já é demais. Ele ergue a taça de vinho que ainda tem na mão. — Tudo o que acontece com Francesca nessa casa — rosna — é culpa sua. E então, num gesto brusco, ele arremessa a taça de vidro em Gabriel. O vidro se espatifa. O vidro se espalha por ele e cai no chão. Ele não tem reação. — Limpe — ordena. — Agora. Gabriel se ajoelha sem discutir. Don Alonso se vira para sair, ainda falando por cima do ombro: — E agradeça por eu estar de bom humor hoje. Os passos dele se afastam pelo corredor. Ana se encolhe ainda mais contra a parede, o coração batendo forte, até ter certeza de que ele se foi. Só então se permite respirar. Ela observa. Gabriel ajoelhado no chão. As mãos tremendo enquanto recolhe os cacos com cuidado excessivo para não se cortar mais. Ele usa a manga da roupa para limpar o vinho, esfregando até o tecido escurecer ainda mais. Não há choro. Não há protesto. Só obediência forçada. Ana sente um nó apertar no estômago. Não é boato. Não é exagero. Não é “disciplina”. É crueldade. Ela recua silenciosamente pelo corredor, o vestido manchado esquecido por completo. A cabeça fervilha. Cada detalhe se encaixa agora com clareza assustadora: o corpo fraco do menino, o silêncio dos criados, o olhar de Francesca. Quando Ana finalmente encontra o toalete, fecha a porta com cuidado e apoia as mãos na pia, encarando o próprio reflexo. O vinho no vestido já não importa. Ela sabe, com a certeza incômoda de quem acabou de atravessar um limite invisível: Ela ouviu algo que não deveria. Viu algo que não pode fingir que não viu. E Ana Cestáro não é do tipo que se cala quando uma criança está sendo quebrada dentro de uma casa que se diz respeitável. Ana não volta para o salão. Ela sai do toalete com passos silenciosos, o coração ainda acelerado, e retorna pelo mesmo corredor. A música distante cobre qualquer ruído. Quando dobra a esquina, Gabriel ainda está ajoelhado, limpando o chão com as próprias mangas. Um dos dedos sangra. A camisa manchada ela não sabe se é só vinho ou sangue tambem. — Gabriel — ela chama, baixo. Ele se assusta. O corpo reage antes da mente. Tenta se levantar de imediato. — Senhora, eu… — Não — Ana se aproxima rápido, mas sem tocar. — Escute. Eu vi. Eu ouvi tudo. Gabriel congela. O silêncio entre os dois é pesado, cheio de risco. — Eu vou ajudá-lo — ela diz, firme, sem rodeios. — Mas preciso que você confirme uma coisa agora. Preciso saber se confia em mim. Ele ergue os olhos devagar. Não vê piedade. Não vê curiosidade. Vê decisão. Gabriel entende que não há outra chance. Nenhuma. Ele assente, quase imperceptível. — Sim, senhora. Ana não perde tempo. — Então faça exatamente o que eu disser. Finja um desmaio. Agora. Ele não hesita. O corpo já está no limite não exige muito esforço. Gabriel deixa os ombros cederem, a respiração falhar, e se deixa cair. Ana o segura antes que bata a cabeça no chão. O peso dele nos braços a choca. Leve demais. Quente demais. Frágil demais. — Meu Deus! — ela grita, alto o suficiente para ecoar pelo corredor. — Alguém! Precisamos de ajuda! Ela se ajoelha com ele, apoiando a cabeça dele contra o próprio peito, protegendo-o dos olhares que começam a surgir. — Ele desmaiou! — repete, agora mais alto. — Chamem os criados! Passos apressados. Rostos assustados aparecem. — O que houve? — É o menino do serviço! Ana assume o controle imediatamente. — Ele está exausto — diz, com autoridade. — Precisa de um médico agora. Ela ergue o olhar, firme. — Chamem meu marido. Marcos Cestáro. Agora. Um criado hesita. — Senhor Don Alonso… — Não — Ana corta, sem elevar a voz. — Chamem Marcos Cestáro. Ele é médico. A responsabilidade é minha. O nome pesa. Os criados se entreolham e um deles sai correndo. Gabriel permanece imóvel nos braços dela, respirando curto, obedecendo à única coisa que lhe foi pedida. Ana aperta o abraço o suficiente para que ele sinta: você não está sozinho. — Está tudo bem — sussurra, só para ele ouvir. — Aguente mais um pouco. O corredor começa a encher. Murmúrios se espalham como fogo baixo. Alguém menciona Don Alonso. Outro fala em “excesso de trabalho”. Ana levanta o rosto, decidida. A partir daquele instante, o sofrimento de Gabriel deixou de ser invisível. E quando Marcos Cestáro atravessar aquele corredor, chamado às pressas no meio de um baile de famílias poderosas, aquela casa vai descobrir algo que Don Alonso jamais calculou: Alguns nomes não protegem crueldade. E algumas mulheres não pedem permissão para salvar uma criança.
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