O dia seguinte começa pesado.
Don Alonso não fala com ninguém no café da manhã. Come pouco. Observa demais. Francesca mantém a postura intacta, mas o silêncio entre os dois é espesso como fumaça presa.
Depois que ela sai, ele se levanta.
Vai direto ao corredor dos quartos de serviço.
Abre a porta do quarto de Gabriel sem bater.
A cama ainda está lá.
Arrumada. Intocada.
Como uma resposta silenciosa.
Don Alonso fica parado por alguns segundos, olhando para aquilo como se fosse uma afronta pessoal. O maxilar se contrai. Ele não chama Francesca. Não discute.
Ele decide.
— Gabriel — chama, seco.
Gabriel aparece à porta quase de imediato. Limpo, postura correta, olhos atentos.
— Sim, senhor.
Don Alonso não explica. Apenas ordena.
— Pegue suas coisas. Agora.
Gabriel obedece sem perguntas. Não leva quase nada. Não precisa. Não tem.
Eles atravessam a casa em silêncio, até o corredor principal. Parados diante da porta do quarto de Don Alonso e Francesca, ele finalmente fala:
— A partir de hoje, você ficará aqui à noite.
Gabriel ergue o olhar, apenas o suficiente para entender.
— Não dormirá — continua Don Alonso. — Ficará em pé. Acordado. Observando. Como um guarda.
Abre a porta.
— Quero saber se consegue cumprir ordens sem se esconder atrás de silêncio e favores.
Francesca está sentada à penteadeira quando vê os dois entrarem. O rosto dela muda não surpresa, mas compreensão imediata.
— O que é isso? — pergunta, fria.
— Correção — responde Don Alonso. — Já que você não sabe afastá-lo, ele ficará onde eu possa vê-lo.
Gabriel é colocado próximo à parede, ao lado da porta. Um ponto estratégico. Visível. Exposto.
— Aqui — diz Don Alonso. — Em pé. Não se mexe. Não dorme. Não fala. Até o amanhecer.
Ele se vira para sair, depois para Francesca.
— Assim você aprende o preço da desobediência — diz ele. Não está claro para quem.
A porta se fecha.
O quarto fica em silêncio.
Gabriel assume a posição. Costas retas. Mãos ao lado do corpo. Respiração controlada. Como já fez na chuva. Como já fez no frio. Como já fez na fome.
Francesca o observa pelo espelho.
Ele não olha para ela, isso a irrita.
O tempo passa lento.
O cansaço vem, mas não vence. Gabriel já aprendeu que o corpo reclama primeiro, mas a mente decide depois. Ele fixa o olhar em um ponto neutro da parede e começa a contar mentalmente segundos, minutos, padrões de respiração.
Francesca se levanta em algum momento. Anda pelo quarto. Para perto dele.
— Isso é crueldade, meu menino. — diz, baixo.
Gabriel não responde.
— Ele está fazendo isso por minha causa — ela continua. — Para me punir.
Ainda assim, ele não reage.
Ela percebe então algo que a incomoda profundamente:
Gabriel não está sofrendo para ela.
Ele está apenas… suportando.
Não há pedido. Não há desafio. Não há lealdade.
Há resistência silenciosa.
Quando Francesca apaga a vela e se deita, Gabriel continua em pé, imóvel, como uma sombra viva no quarto.
Ele entende, com uma clareza fria e definitiva:
Don Alonso quer quebrá-lo.
Francesca quer possuí-lo.
Nenhum dos dois percebe que, ao colocá-lo ali acordado, atento, contando cada batida do tempo estão apenas treinando nele exatamente o que mais os assusta:
Disciplina sem submissão.
Força sem devoção.
Três dias.
Três noites em pé.
Sem dormir. Sem sentar. Sem apoio.
O tempo deixa de ser contado em horas e passa a ser medido em dor.
Gabriel já não sente os pés. As pernas tremem de forma quase imperceptível, mas constante. A visão escurece nas bordas. Sons chegam atrasados, como se viessem debaixo d’água. Ele ainda está de pé apenas porque o corpo aprendeu a obedecer antes da consciência pedir socorro.
Francesca percebe primeiro.
Na terceira madrugada, ela acorda com um ruído seco algo entre um tropeço e um suspiro engasgado.
Quando olha, vê Gabriel cambaleando.
— Gabriel… — sussurra, já se levantando.
Ele tenta se firmar. Endireita as costas por reflexo. Dá um passo errado.
E cai.
O corpo atinge o chão com um som surdo que ecoa pelo quarto.
Francesca corre. Não pensa. Não chama criados. Cai de joelhos ao lado dele, segura o rosto pálido, frio, os lábios rachados.
— Gabriel! — a voz dela treme. — Gabriel, me escute… por favor…
Ela toca o pulso. Fraco. Irregular.
— Meu Deus… — o desespero finalmente rompe a compostura que ela manteve por dias.
A porta se abre com violência.
Don Alonso entra, estava em seu escritório e ouviu o barulho, o rosto já tomado pela fúria antes mesmo de entender a cena.
Ele vê Gabriel no chão.
Vê Francesca ajoelhada, tocando nele.
O olhar escurece.
— Levante-o — ordena, frio. — Agora.
Francesca ergue o rosto, os olhos marejados.
— Ele desmaiou! Ele não dorme há três dias Alonso!
— Eu mandei levantar — Don Alonso avança. — Ou eu mesmo faço.
Ele se aproxima de Gabriel, já cerrando o punho, a raiva procurando um alvo.
— Isso é fingimento — rosna. — Esse menino é um...
— NÃO!
O grito corta o quarto como uma lâmina.
Don Alonso para.
Francesca se levanta de repente, o corpo tremendo, mas a voz firme de um jeito que ele nunca ouviu antes.
Ela se coloca entre ele e Gabriel.
— Você não vai tocar nele.
— Saia da frente — diz Don Alonso, baixo, perigoso.
Francesca engole em seco. A mão vai instintivamente ao ventre.
E então ela diz.
— Eu estou grávida.
O silêncio que se segue é absoluto.
Don Alonso a encara, incrédulo.
— O quê…?
— Grávida — repete, a voz falhando agora, mas sem recuar. — Se você levantar a mão contra ele… você levanta contra mim também. Contra seu filho.
O rosto de Don Alonso muda a fúria não some, mas se transforma. Confusão. Cálculo. Algo próximo do medo.
Ele olha para Gabriel no chão. Depois para Francesca. Depois novamente para o ventre dela, como se só agora aquele corpo tivesse peso real.
— Desde quando? — pergunta, seco.
— Desde antes dessa punição — ela responde. — E se algo acontecer comigo… ou com a criança… por causa disso — ela aponta para Gabriel — a culpa vai ser sua.
Don Alonso fecha os punhos. Respira fundo. Uma, duas vezes.
— Tire esse menino daqui — ordena, finalmente. — Agora.
Francesca não espera confirmação. Ajoelha-se de novo, chama criados, grita por ajuda. Em minutos, Gabriel é levado para fora do quarto, inconsciente, o corpo finalmente cedendo ao limite que ninguém deveria ter ultrapassado.
Antes de sair, Francesca encara Don Alonso.
— O menino não tem culpa de quem somos — diz.
Don Alonso não responde.
Fica sozinho no quarto, o eco da queda ainda preso às paredes, olhando para o lugar vazio onde Gabriel esteve por três noites.
Pela primeira vez, a punição não produziu obediência.
Produziu algo muito pior:
Uma verdade que ele não controla mais