Capítulo 24. Três dias

1159 Words
O dia seguinte começa pesado. Don Alonso não fala com ninguém no café da manhã. Come pouco. Observa demais. Francesca mantém a postura intacta, mas o silêncio entre os dois é espesso como fumaça presa. Depois que ela sai, ele se levanta. Vai direto ao corredor dos quartos de serviço. Abre a porta do quarto de Gabriel sem bater. A cama ainda está lá. Arrumada. Intocada. Como uma resposta silenciosa. Don Alonso fica parado por alguns segundos, olhando para aquilo como se fosse uma afronta pessoal. O maxilar se contrai. Ele não chama Francesca. Não discute. Ele decide. — Gabriel — chama, seco. Gabriel aparece à porta quase de imediato. Limpo, postura correta, olhos atentos. — Sim, senhor. Don Alonso não explica. Apenas ordena. — Pegue suas coisas. Agora. Gabriel obedece sem perguntas. Não leva quase nada. Não precisa. Não tem. Eles atravessam a casa em silêncio, até o corredor principal. Parados diante da porta do quarto de Don Alonso e Francesca, ele finalmente fala: — A partir de hoje, você ficará aqui à noite. Gabriel ergue o olhar, apenas o suficiente para entender. — Não dormirá — continua Don Alonso. — Ficará em pé. Acordado. Observando. Como um guarda. Abre a porta. — Quero saber se consegue cumprir ordens sem se esconder atrás de silêncio e favores. Francesca está sentada à penteadeira quando vê os dois entrarem. O rosto dela muda não surpresa, mas compreensão imediata. — O que é isso? — pergunta, fria. — Correção — responde Don Alonso. — Já que você não sabe afastá-lo, ele ficará onde eu possa vê-lo. Gabriel é colocado próximo à parede, ao lado da porta. Um ponto estratégico. Visível. Exposto. — Aqui — diz Don Alonso. — Em pé. Não se mexe. Não dorme. Não fala. Até o amanhecer. Ele se vira para sair, depois para Francesca. — Assim você aprende o preço da desobediência — diz ele. Não está claro para quem. A porta se fecha. O quarto fica em silêncio. Gabriel assume a posição. Costas retas. Mãos ao lado do corpo. Respiração controlada. Como já fez na chuva. Como já fez no frio. Como já fez na fome. Francesca o observa pelo espelho. Ele não olha para ela, isso a irrita. O tempo passa lento. O cansaço vem, mas não vence. Gabriel já aprendeu que o corpo reclama primeiro, mas a mente decide depois. Ele fixa o olhar em um ponto neutro da parede e começa a contar mentalmente segundos, minutos, padrões de respiração. Francesca se levanta em algum momento. Anda pelo quarto. Para perto dele. — Isso é crueldade, meu menino. — diz, baixo. Gabriel não responde. — Ele está fazendo isso por minha causa — ela continua. — Para me punir. Ainda assim, ele não reage. Ela percebe então algo que a incomoda profundamente: Gabriel não está sofrendo para ela. Ele está apenas… suportando. Não há pedido. Não há desafio. Não há lealdade. Há resistência silenciosa. Quando Francesca apaga a vela e se deita, Gabriel continua em pé, imóvel, como uma sombra viva no quarto. Ele entende, com uma clareza fria e definitiva: Don Alonso quer quebrá-lo. Francesca quer possuí-lo. Nenhum dos dois percebe que, ao colocá-lo ali acordado, atento, contando cada batida do tempo estão apenas treinando nele exatamente o que mais os assusta: Disciplina sem submissão. Força sem devoção. Três dias. Três noites em pé. Sem dormir. Sem sentar. Sem apoio. O tempo deixa de ser contado em horas e passa a ser medido em dor. Gabriel já não sente os pés. As pernas tremem de forma quase imperceptível, mas constante. A visão escurece nas bordas. Sons chegam atrasados, como se viessem debaixo d’água. Ele ainda está de pé apenas porque o corpo aprendeu a obedecer antes da consciência pedir socorro. Francesca percebe primeiro. Na terceira madrugada, ela acorda com um ruído seco algo entre um tropeço e um suspiro engasgado. Quando olha, vê Gabriel cambaleando. — Gabriel… — sussurra, já se levantando. Ele tenta se firmar. Endireita as costas por reflexo. Dá um passo errado. E cai. O corpo atinge o chão com um som surdo que ecoa pelo quarto. Francesca corre. Não pensa. Não chama criados. Cai de joelhos ao lado dele, segura o rosto pálido, frio, os lábios rachados. — Gabriel! — a voz dela treme. — Gabriel, me escute… por favor… Ela toca o pulso. Fraco. Irregular. — Meu Deus… — o desespero finalmente rompe a compostura que ela manteve por dias. A porta se abre com violência. Don Alonso entra, estava em seu escritório e ouviu o barulho, o rosto já tomado pela fúria antes mesmo de entender a cena. Ele vê Gabriel no chão. Vê Francesca ajoelhada, tocando nele. O olhar escurece. — Levante-o — ordena, frio. — Agora. Francesca ergue o rosto, os olhos marejados. — Ele desmaiou! Ele não dorme há três dias Alonso! — Eu mandei levantar — Don Alonso avança. — Ou eu mesmo faço. Ele se aproxima de Gabriel, já cerrando o punho, a raiva procurando um alvo. — Isso é fingimento — rosna. — Esse menino é um... — NÃO! O grito corta o quarto como uma lâmina. Don Alonso para. Francesca se levanta de repente, o corpo tremendo, mas a voz firme de um jeito que ele nunca ouviu antes. Ela se coloca entre ele e Gabriel. — Você não vai tocar nele. — Saia da frente — diz Don Alonso, baixo, perigoso. Francesca engole em seco. A mão vai instintivamente ao ventre. E então ela diz. — Eu estou grávida. O silêncio que se segue é absoluto. Don Alonso a encara, incrédulo. — O quê…? — Grávida — repete, a voz falhando agora, mas sem recuar. — Se você levantar a mão contra ele… você levanta contra mim também. Contra seu filho. O rosto de Don Alonso muda a fúria não some, mas se transforma. Confusão. Cálculo. Algo próximo do medo. Ele olha para Gabriel no chão. Depois para Francesca. Depois novamente para o ventre dela, como se só agora aquele corpo tivesse peso real. — Desde quando? — pergunta, seco. — Desde antes dessa punição — ela responde. — E se algo acontecer comigo… ou com a criança… por causa disso — ela aponta para Gabriel — a culpa vai ser sua. Don Alonso fecha os punhos. Respira fundo. Uma, duas vezes. — Tire esse menino daqui — ordena, finalmente. — Agora. Francesca não espera confirmação. Ajoelha-se de novo, chama criados, grita por ajuda. Em minutos, Gabriel é levado para fora do quarto, inconsciente, o corpo finalmente cedendo ao limite que ninguém deveria ter ultrapassado. Antes de sair, Francesca encara Don Alonso. — O menino não tem culpa de quem somos — diz. Don Alonso não responde. Fica sozinho no quarto, o eco da queda ainda preso às paredes, olhando para o lugar vazio onde Gabriel esteve por três noites. Pela primeira vez, a punição não produziu obediência. Produziu algo muito pior: Uma verdade que ele não controla mais
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