Capítulo 25. Francesca pensativa

875 Words
Don Alonso não anuncia nada. Esse é o pior sinal. Na manhã seguinte, Gabriel é chamado ao pátio interno. Não há gritos, não há testemunhas além do estritamente necessário. O céu está claro demais para o que vai acontecer. Francesca não foi avisada. — Você — Alonso diz, com a voz tranquila demais — esqueceu o seu lugar. Gabriel se ajoelha automaticamente. Não pergunta por quê. Não tenta se explicar. Ele já aprendeu: explicações só prolongam. Alonso caminha ao redor dele, lento. — Acha que pode circular pela casa como se fosse parte dela? — continua. — Acha que provocar minha mulher e sair impune ? Gabriel não responde. Alonso faz um sinal curto para um dos homens. A chicotada vem rápida. Fria. Calculada. Não é exagerada e isso é proposital. Alonso não quer destruir o menino. Quer marcar. Quer mostrar. Quer que Francesca veja que o controle ainda é dele. Gabriel suporta em silêncio. O corpo enrijece, mas nenhum som escapa. Nenhuma lágrima. Apenas o maxilar travado, os olhos fixos no chão. Quando termina, Alonso se agacha diante dele. — Levante-se — ordena. — E agradeça. Gabriel obedece. A voz sai baixa, quase inaudível: — Obrigado, senhor. É nesse momento que Francesca chega. Ela vê tudo. Vê a postura rígida demais do menino. A respiração contida. O jeito como ele evita apoiar o peso corretamente. Vê, sobretudo, o olhar de Alonso satisfeito. Algo nela se rompe. — O que você fez? — pergunta, a voz perigosamente calma. — Recoloquei ordem — ele responde. — Algo que você parecia ter esquecido. Ela se aproxima de Gabriel por impulso, mas para a meio passo. Sabe que qualquer gesto agora será interpretado como desafio. — Ele não quebrou regra alguma — diz ela, contida. Alonso sorri de canto. — Quebrou sim. A mais importante. — Ele encara Francesca. — Ele começou a importar demais para você. O silêncio que se segue é pesado. Gabriel percebe, mesmo sem entender tudo, que aquilo não foi sobre ele. Ele foi apenas o instrumento. O recado. Francesca olha para o menino por um segundo a mais do que deveria. E Alonso vê. Vê o ódio contido. Vê a culpa. Vê algo que ele não consegue mais controlar completamente. — Saia — Francesca diz a Gabriel, finalmente. Ele se afasta devagar, cada passo medido. Quando ficam sozinhos, Francesca se vira para Alonso, os olhos frios como lâminas. — Não ouse usá-lo contra mim novamente. Alonso se aproxima, voz baixa. — Eu uso o que é meu — diz ele. — E ele é meu. — Ele é meu, só meu.— Francesca rebate. Don Alonso trava o maxilar. — Ele é só um menino, não terá ele como deseja, Francesca. Francesca não responde, apenas sai deixando Don Alonso sozinho e com mais raiva de Gabriel. Com o passar dos dias, algo estranho começa a se espalhar pela casa não em palavras, mas em olhares. Francesca está grávida. Todos sabem. Mas ninguém a vê sorrir. As criadas que a ajudam a vestir percebem primeiro. Ela permanece imóvel enquanto ajustam o vestido, o olhar perdido no nada, a mão raramente tocando o próprio ventre. Quando toca, é mais por hábito do que por ternura. — A senhora não quer provar o doce? — pergunta uma delas certa manhã. — Não — responde Francesca, sem irritação. Sem interesse. Na mesa, Don Alonso fala sobre herdeiros, sobre o futuro, sobre continuidade. Francesca come pouco, quase nada. O som dos talheres parece incomodá-la. Quando ele menciona a criança, ela não reage. Não discorda. Não concorda. Apenas suporta. Nos corredores, os criados cochicham baixo. — Era para ela estar feliz… — Qualquer senhora estaria… — Mas parece… distante. Uma ama mais velha cruza Francesca no jardim e faz o sinal da bênção, sorrindo. — Que Deus proteja o fruto do seu ventre, minha senhora. Francesca agradece com um aceno educado o mesmo que usaria para um estranho. Quando fica sozinha, senta-se no banco de pedra e observa o lago onde, dias antes, havia permitido que Gabriel se banhasse. O vento agita a superfície da água. Ela não vê beleza ali. Vê consequência. Do outro lado do pátio, Gabriel trabalha. Ele sente quando os olhares mudam. Não são mais apenas de pena ou medo agora há curiosidade. Desconfiança. Uma criada deixa escapar, em voz baixa, enquanto passa: — Ela não parece contente com isso tudo… Outra responde: — Talvez porque não era para ser uma alegria. Francesca começa a notar também. Nota quando os criados se calam ao vê-la. Quando desviam o assunto. Quando a observam como se tentassem entender algo que não encaixa. À noite, sozinha no quarto, ela se deita de costas, encarando o teto. Don Alonso dorme ao lado, satisfeito, convencido de que venceu algo. Francesca leva a mão ao ventre. Não há sorriso. Não há carinho. Há medo. E culpa. Não pela criança. Mas pelo motivo que a fez pronunciá-la em voz alta. No fundo, ela sabe e isso a atormenta mais do que qualquer punição de Don Alonso: A gravidez não foi uma promessa de vida. Foi uma arma. E a casa inteira começa a perceber que algo ali nasceu não do amor, mas do desespero. E coisas que nascem assim raramente trazem paz.
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