Capítulo 23. Alonso descobre

1096 Words
A notícia chega a Don Alonso em pedaços. Primeiro, um comentário solto na cozinha. Depois, um sussurro no corredor. Por fim, alguém bate à porta do escritório com a cautela de quem sabe que está prestes a acender um pavio. — Senhor… — diz o criado, mantendo os olhos baixos. — Achei que devia saber. Don Alonso fecha o livro devagar demais. — Saber o quê? O homem engole em seco e conta. Fala da comida separada. Das roupas limpas. Da cama. Do banho autorizado no lago. Fala rápido, como se temesse perder a coragem no meio da frase. — A senhora tem… cuidado muito do menino. Silêncio. Don Alonso se levanta. Não há explosão imediata. Não há gritos. O que vem primeiro é aquela quietude perigosa a mesma que antecede decisões irreversíveis. — Muito — repete ele, baixo. Ele começa a andar pelo escritório, mãos para trás, cada passo medido. As peças se encaixam com uma clareza que o irrita ainda mais: o olhar constante, a tensão, o m*l-estar que sentia desde que voltara da viagem. — Um criado — diz, mais para si do que para o outro. — Um menino. O criado não responde. Não se move. Don Alonso para diante da janela, observa o pátio. Gabriel cruza o espaço carregando um cesto, postura correta, passos firmes, exatamente como sempre. Nada de insolência. Nada de provocação. E isso o enfurece. — Ela está perdendo o juízo — murmura Don Alonso. — Ou tentando me desafiar. Ele se vira de repente. — Isso termina agora. Dispensa o criado com um gesto brusco e sai do escritório. O som dos passos ecoa pela casa como um aviso. Criados se recolhem, portas se fecham, conversas morrem no meio. Don Alonso encontra Francesca na sala menor, revisando contas que não são dela. — Desde quando você decide quem merece privilégios nesta casa? — pergunta, sem preâmbulo. Francesca ergue o olhar, surpresa apenas por um segundo. Depois recompõe o rosto. — Não são privilégios. São cuidados mínimos. — Para um criado? — ele rebate. — Ou para aquele criado? Ela fecha o caderno com força. — Você está exagerando. — Não. — A voz dele baixa, carregada. — Você está ultrapassando limites. Está dando atenção demais. Está criando comentários. Está… confundindo...as coisas Francesca se levanta, tão rígida quanto ele. — Não vou permitir que transforme sua insegurança em acusação. — Insegurança? — Don Alonso ri, sem humor. — Você autorizou o lago. Uma cama. Comida separada. Está construindo uma exceção ambulante. — Estou corrigindo um erro — ela diz, fria. — Está corrigindo um erro ou preparando um erro para o futuro? O silêncio entre eles é denso, perigoso. — Afaste-se dele — diz Don Alonso, por fim. — Ou eu o afasto. Francesca sustenta o olhar por um segundo longo demais. — Você não manda no que eu vejo — responde. — Nem no que eu faço, muito menos no que eu quero. Don Alonso se inclina levemente para frente. — Nesta casa, eu mando no que permanece. Ele se afasta, deixando a ameaça no ar. Do lado de fora, Gabriel continua trabalhando, alheio apenas na aparência. Ele não ouviu as palavras exatas, mas sentiu a mudança no vento. Sentiu o peso do que estava se armando. Ele sabe o que vem quando duas forças decidem que você é o centro do problema. Nos dias seguintes, a casa anda em tensão permanente. Don Alonso fala pouco com Francesca. Quando fala, é seco demais. Observa tudo corredores, ordens, silêncios com um rigor que não usava antes. Gabriel sente isso no ar: tarefas revistas, horários checados, olhares que demoram um segundo a mais do que deveriam. E então, Don Alonso vê a cama. Não por acaso. Ele passa pelo corredor dos quartos de serviço numa inspeção que não precisa ser anunciada. A porta de Gabriel está entreaberta. Lençóis claros. Estrutura firme. Um travesseiro. Ele para. Olha. Confere. Olha de novo. — Desde quando isso está aqui? — pergunta a uma criada que passa. Ela empalidece. — O-ordem da senhora Francesca, senhor. Don Alonso fecha a porta com cuidado excessivo. O tipo de cuidado que antecede uma tempestade. Vira-se e segue direto para a ala principal. Encontra Francesca no salão, dando instruções como se nada estivesse fora do lugar. — Precisamos conversar — diz ele. Ela dispensa os criados com um gesto e se volta para ele, o rosto já armado. — Se for sobre Gabriel, poupe-me. — Não — responde Don Alonso, a voz baixa, perigosa. — Agora é sobre você. Ele dá alguns passos, ficando perto demais. — Uma cama — diz, pausado. — No quarto dele. Francesca sustenta o olhar. — Sim. — Você não pediu permissão. — Não precisava. — Precisava — ele rebate. — Porque cada exceção que você cria desmonta a hierarquia desta casa. Ela cruza os braços. — Ou revela o quão frágil ela sempre foi. O silêncio se estica. Don Alonso respira fundo, contendo algo maior. — Você está projetando — diz ele. — Transformando um criado em… não sei o quê. Símbolo. Conserto. Capricho. — Ele dormia no chão — responde Francesca, fria. — Você sabia disso? — Muitos dormem. — Muitos não são usados como bode expiatório — ela devolve. — Muitos não são punidos pelo erro dos outros. Don Alonso aperta o maxilar. — Você está se envolvendo demais. — Você está se omitindo demais. Eles se encaram. Não é uma discussão sobre Gabriel. Nunca foi. É sobre controle. Sobre quem decide. Sobre quem erra primeiro. — Afaste-se — diz Don Alonso, enfim. — É última vez que aviso. Francesca dá um passo à frente. — Se você tocar nele por causa da sua raiva comigo, Alonso, não será algo que esta casa esqueça. Ele ri, curto, incrédulo. — Está me ameaçando por um menino? — Estou avisando — ela corrige. Don Alonso se afasta, o rosto fechado. — Tire a cama — diz, antes de sair. — Hoje. Francesca não responde. Fica ali, imóvel, até os passos dele desaparecerem. Então vira o rosto para a janela e vê Gabriel cruzando o pátio, concentrado no trabalho, como sempre. Ela fecha os olhos por um instante. No quarto de serviço, mais tarde, Gabriel encontra tudo exatamente como deixou. A cama. Os lençóis. O silêncio. Ele se senta na beirada por um momento e entende, com a clareza fria que aprendeu a cultivar: Agora ele não é mais invisível. É território. E quando duas pessoas poderosas brigam por território, quem está no meio precisa decidir rápido se vira trincheira ou saída
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