O crepúsculo em Aethelgard trazia uma beleza enganosa. As torres da Academia Real se tingiam de um violeta profundo, e o aroma de jasmim dos jardins suspensos tentava camuflar o cheiro de suor e óleo de armas que impregnava os corredores. Mas para Elowen, o cair da noite não significava descanso; significava o início das aulas de Dissimulação e Etiqueta de Guerra.
Diferente do pátio de Kaelen, o Salão das Sombras era revestido de veludo e iluminado por candelabros de prata. Ali, o inimigo não usava espada, mas um sorriso perfeitamente posicionado. A instrutora era a Duquesa Malcorra, uma mulher cuja elegância era tão letal quanto uma adaga escondida na manga.
— A força bruta é para os cães de guarda — dizia Malcorra, deslizando entre os alunos como uma névoa. — Um soberano que precisa gritar para ser obedecido já perdeu metade do seu reino. A verdadeira soberania reside no que você não diz. No que você faz o seu inimigo acreditar que é verdade.
Elowen estava em pé, com as costas retas, equilibrando um livro pesado sobre a cabeça e uma taça de cristal cheia até a borda em cada mão. Seus braços, ainda tremendo do esforço no Desfiladeiro das Sombras, clamavam por misericórdia. Cada gota de água que transbordasse da taça resultaria em mais uma hora de vigília nas muralhas.
— Princesa Elowen — chamou a Duquesa, parando diante dela. — Diga-me, se o seu aliado mais próximo, aquele que conhece os seus segredos, demonstrar uma hesitação em batalha... você o abraça ou o isola?
Elowen sentiu uma gota de suor escorrer pelo seu pescoço. Ela pensou em Alaric, que estava dois bancos atrás dela, visivelmente pálido. Pensou na mão que estendeu a Julian na lama.
— Eu o observo — respondeu Elowen, a voz baixa e controlada. — A hesitação é um sintoma. Eu descubro se a doença é o medo ou a traição. Se for medo, eu o transformo em dívida. Se for traição, eu o transformo em exemplo.
Malcorra sorriu, mas seus olhos permaneceram frios como pedras de rio.
— Resposta correta, embora um pouco seca demais. Falta-lhe o "molho", querida. A crueldade deve ser servida como um doce, não como um remédio amargo. Se o seu aliado sentir o gosto do ferro antes de sentir o perfume da sua cortesia, ele lutará com o desespero de um animal encurralado. E animais encurralados são imprevisíveis.
A sessão continuou por horas. Eles foram testados em como mentir sem alterar os batimentos cardíacos, como reconhecer venenos pelo odor quase imperceptível e como ler as microexpressões de um oponente durante uma dança de salão. Elowen sentia que sua mente estava sendo esticada como um arco. O esforço físico era honesto; o esforço psicológico era sujo.
No final da noite, quando as luzes foram apagadas e o silêncio finalmente reinou, Elowen não foi para o quarto. Ela se esgueirou até a varanda oeste, o lugar onde o vento soprava mais forte. Ela precisava sentir o ar frio para limpar o gosto de falsidade que Malcorra deixara em sua boca.
Lá, ela encontrou Alaric. Ele estava debruçado sobre o parapeito, olhando para as luzes distantes da capital.
— Você também não consegue dormir? — perguntou ele, sem se virar.
— As paredes aqui têm ouvidos, Alaric. E a Duquesa Malcorra provavelmente está contando quantas vezes piscamos durante a conversa — disse ela, aproximando-se.
Alaric soltou um suspiro pesado.
— Eu não sei se fui feito para isso, Elowen. No Norte, a gente sabe quem é o inimigo porque ele está tentando enfiar um machado no seu peito. Aqui... eu sinto que estou sendo comido vivo por formigas. Um comentário aqui, um olhar ali.
Elowen olhou para as mãos dele, que ainda ostentavam as marcas das cordas do treino matinal.
— A Academia Real não quer que sejamos pessoas, Alaric. Quer que sejamos instrumentos. O machado do Norte é útil, mas a faca pequena de Malcorra é a que decide quem vai segurar o machado.
— E você? — Alaric finalmente se virou para olhá-la. Seus olhos estavam injetados de sangue. — Você está se tornando uma delas? A princesa que queima pontes e estuda traições?
Elowen sentiu uma pontada de desconforto. A imagem de Julian na lama voltou à sua mente. Ela tinha ajudado, mas Malcorra diria que aquilo foi um erro estratégico. O conflito humano dentro dela gritava contra a frieza que o trono exigia.
— Eu estou tentando sobreviver — disse ela, sua voz soando mais dura do que pretendia. — Se eu tiver que ser o monstro para proteger o que sobrou de mim, que seja.
Alaric não respondeu. Ele apenas assentiu e se afastou, deixando-a sozinha com o vento. Elowen ficou ali por muito tempo, sentindo o frio penetrar em seus ossos. Ela percebeu que a Academia Real estava vencendo. Ela não estava apenas aprendendo a lutar ou a governar; ela estava desaprendendo a sentir. E enquanto o sol começava a dar os primeiros sinais de que voltaria para mais um dia de suplício, ela se perguntou se, ao final daqueles anos, sobraria alguma coisa da garota que um dia gostava de ver o amanhecer sem medo.
Ela voltou para o quarto, o som de seus próprios passos ecoando como uma contagem regressiva.