Capítulo 2

1297 Words
O sol já não era mais uma promessa pálida no horizonte; agora, ele castigava o pátio central com uma claridade crua que revelava cada imperfeição do mármore desgastado. O Grande Salão da Academia Real cheirava a pão dormido, gordura de assado e o odor metálico e persistente de dezenas de corpos jovens levados ao limite da exaustão. Não havia conversas triviais. O som predominante era o bater de talheres de estanho contra pratos de madeira, um ritmo apressado de quem sabe que o tempo para nutrir o corpo é apenas um breve intervalo antes do próximo tormento. Elowen sentou-se na extremidade de um dos bancos longos, sentindo cada vértebra protestar contra o peso de sua própria postura. Suas mãos tremiam tanto que a caneca de metal produzia um tilintar irritante contra a mesa. Ela fechou os dedos com força, as juntas brancas sob a sujeira, tentando dominar os espasmos musculares. Ao seu lado, o silêncio era uma barreira física. À sua frente, o príncipe herdeiro de Oakhaven, um rapaz cujo nome ela m*l lembrava mas cujo olhar carregava a arrogância de mil anos de linhagem, mastigava mecanicamente, os olhos fixos em um ponto invisível na parede oposta. Naquela mesa, ninguém era "Alteza". Eram apenas peças de carne sendo preparadas para a guerra ou para a diplomacia de facas amoladas. — Você está segurando a caneca como se fosse uma adaga, Elowen. Se continuar assim, vai ter uma cãibra antes da aula de Tática — uma voz baixa e rouca soprou perto de seu ouvido. Era Alaric. Ele não era um herdeiro direto, mas o segundo filho de uma casa menor do Norte, enviado à Academia para servir como o "braço forte" de sua família. Alaric tinha a pele curtida pelo vento frio de suas terras e olhos que pareciam sempre procurar uma saída de emergência. Ele era o único que ousava quebrar o silêncio de Elowen, não por cortesia, mas por uma espécie de camaradagem sombria nascida no barro dos treinos. — Meus dedos não obedecem mais — ela murmurou, a voz ainda áspera do esforço matinal. — Kaelen decidiu que hoje eu era um saco de pancadas. Alaric soltou um riso seco, quase um suspiro. — Kaelen faz isso com quem ele acha que pode aguentar. É um elogio torto, embora eu saiba que preferia um banho quente a um elogio dele agora. Elowen forçou-se a engolir um pedaço de carne seca. Tinha gosto de poeira, mas ela precisava do combustível. Enquanto mastigava, seus olhos vagaram pelo salão, observando os outros. Havia a Princesa Isolda, cujas mãos estavam sempre impecáveis apesar dos treinos, escondendo uma força que Elowen já vira derrubar homens o dobro do seu tamanho. Havia os gêmeos de Valerius, que se moviam como uma única mente assassina. Todos ali eram predadores em potencial, criados para acreditar que o mundo era uma presa a ser dividida. O conflito na Academia não era apenas físico; era uma guerra de atrito mental. A cada refeição, a cada olhar atravessado, eles mediam as fraquezas uns dos outros. Quem comia demais? Quem m*l conseguia segurar o garfo? Quem evitava o contato visual? Informação era poder, e naquelas mesas de carvalho, segredos eram colhidos tão vorazmente quanto a comida. Após a refeição, o sino dobrou novamente — um som pesado, de bronze, que parecia vibrar dentro do crânio de Elowen. Era hora da transição. Do pátio de armas para a Sala dos Mapas. A Sala dos Mapas ficava na torre mais alta, onde o vento uivava através das fendas propositais nas pedras, garantindo que ninguém ficasse confortável o suficiente para cochilar durante as lições de Grande Estratégia. O Professor Valerius, um homem que parecia ter sido esculpido em pergaminho velho, esperava por eles diante de uma mesa de carvalho n***o que ocupava quase todo o centro do recinto. Sobre ela, um mapa-múndi esculpido em relevo, com peças de ônix e marfim representando exércitos e frotas. — Senhores e senhoras do sangue — começou Valerius, sua voz seca como folhas mortas. — Hoje não falaremos de honra. Falaremos de sobrevivência. Olhem para o Passo de Gelo. Se o suprimento de grãos for cortado aqui, quantas semanas até que o povo comece a comer os cavalos? E, mais importante, quanto tempo até que eles comecem a pensar que a cabeça de seu rei ficaria melhor em uma estaca do que na coroa? Elowen sentiu um calafrio que nada tinha a ver com o vento da torre. Aquilo era a Academia Real em sua essência: a desconstrução do mito da realeza. Eles eram ensinados que o poder era frágil, sustentado por logística, estômagos cheios e o medo bem administrado. — Princesa Elowen — a voz de Valerius a atingiu como uma flecha. — Sua fronteira leste está sob ataque simulado. Os mercenários de Xandar cruzaram o rio. Você tem dois regimentos de infantaria e uma cavalaria exausta. O que você faz? Sacrifica a vila de camponeses para salvar o forte, ou tenta uma manobra de flanco que pode dizimar suas tropas? A sala ficou em silêncio absoluto. Trinta pares de olhos voltaram-se para ela. Elowen olhou para o mapa. As peças de ônix pareciam manchas de sangue sobre o relevo. Ela sentiu o suor frio de novo, mas desta vez não era físico. Era o peso da responsabilidade, a percepção súbita de que as decisões que ela aprendia ali seriam, um dia, sentenças de morte ou de vida. — Eu queimo as pontes — ela disse, a voz ganhando uma frieza que a surpreendeu. — Deixo que a vila seja tomada, mas retiro o suprimento. Se eles querem a terra, que comam as cinzas. Enquanto eles se espalham pela vila vazia, uso a cavalaria para cortar a retaguarda deles no desfiladeiro. Valerius arqueou uma sobrancelha rala. — c***l. Eficaz. Mas saiba, Princesa, que os sobreviventes daquela vila nunca mais olharão para o seu estandarte sem sentir o cheiro do fogo. O poder tem um custo. Sempre. A aula continuou por horas, um m******e de teorias e simulações que deixava as mentes tão esgotadas quanto os corpos haviam ficado no pátio. Quando a luz do sol começou a minguar, transformando o dourado em um roxo profundo nas janelas, Elowen sentia que sua cabeça ia explodir. Ao sair da sala, ela encontrou Alaric encostado na parede de pedra do corredor. Ele parecia pálido. — Queimar as cinzas, hein? — ele comentou, tentando manter o tom leve, mas havia um brilho de inquietação em seus olhos. — Você daria uma rainha temível, Elowen. — Eu só quero chegar ao fim do dia, Alaric — ela respondeu, sentindo o cansaço desabar sobre ela como uma montanha. — Só isso. Ela seguiu para seus aposentos, que eram tão espartanos quanto o resto da Academia: uma cama estreita, uma bacia de metal e uma mesa pequena. Não havia criados para desarmá-la ou preparar seu banho. Na Academia Real, a autonomia era o primeiro passo para o comando. Enquanto se despia, observando os novos roxos que surgiam em suas costelas e braços, Elowen olhou-se no espelho de bronze polido. A garota de vestidos de seda de meses atrás estava sumindo. Em seu lugar, surgia algo mais duro, mais afiado. Algo que a Academia estava moldando com golpes de martelo invisíveis. Ela deitou-se, sentindo os lençóis ásperos contra a pele irritada. O silêncio da noite foi interrompido apenas pelo som distante de uma sentinela batendo o cabo da lança no chão. Antes que o sono a levasse, uma única imagem martelava em sua mente: o mapa de Valerius e as peças de ônix avançando. Ela percebeu que a verdadeira batalha não era contra exércitos estrangeiros, mas contra a parte de si mesma que ainda sentia pena. E a Academia Real estava vencendo essa batalha, gota a gota, cicatriz por cicatriz.
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