Capítulo 10

1011 Words
Quando o Destino é Provado O tempo, depois da guerra, parecia seguir um ritmo diferente. Mais lento. Mais cuidadoso. Como se o próprio mundo estivesse tentando se curar das feridas que ainda pulsavam sob a superfície. A antiga planície de batalha já não era mais apenas um campo de dor. Com o passar dos dias, algo novo começou a surgir. Barracas improvisadas deram lugar a estruturas mais firmes. Madeira foi reunida, tecidos costurados, fogueiras organizadas. Pessoas que antes lutavam agora trabalhavam lado a lado, construindo algo que nenhum deles tinha certeza se conseguiria manter… mas tentavam mesmo assim. Uma vila. Pequena. Frágil. Mas viva. Lia caminhava entre as novas construções com passos mais firmes a cada dia. Seu corpo ainda carregava marcas da batalha, mas a dor já não a dominava como antes. As feridas estavam cicatrizando, e com elas… algo dentro dela também se reorganizava. Ela carregava uma cesta com ervas recém-colhidas. Seus cabelos vermelhos brilhavam sob o sol da tarde, chamando atenção mesmo entre tantos rostos cansados. — Lia! — chamou uma mulher, acenando de longe. Ela se aproximou. — Como ele está? A mulher indicou um homem deitado. — Melhor… depois do que você fez. Lia sorriu de leve. — Ainda precisa trocar o curativo. Ela se ajoelhou ao lado dele, começando o trabalho com cuidado. Suas mãos se moviam com prática. Mas seus olhos… Às vezes… se perdiam. — Você ainda pensa nele. A voz de Eleonor surgiu atrás dela. Lia não se assustou. Apenas suspirou levemente. — Não tem como não pensar. Ele se aproximou. — Faz quantos dias? — Dez. Ela respondeu sem precisar contar. Ele assentiu. — E nenhuma notícia. — Nenhuma. O silêncio caiu entre eles. Mas não era pesado. Era… compreensivo. — Ele vai voltar — disse Eleonor, depois de um tempo. Lia terminou o curativo antes de responder. — Eu sei. Mas havia algo na forma como disse. Algo que não era dúvida… Mas também não era completa certeza. Ela se levantou. Agradeceu à mulher. E seguiu caminhando. Mas, dessa vez… mais devagar. Seu olhar se perdeu no horizonte. E, sem perceber… Levou a mão ao peito. Algo estava errado. Ela sentia. Não era físico. Não era algo que pudesse explicar com lógica. Era… conexão. A mesma que havia sentido antes. Na batalha. Nos momentos de silêncio. Nos olhares. Maphis. Do outro lado do mundo… O céu sobre o reino dos elfos estava cinza. Pesado. Diferente da leveza que costumava existir ali. Maphis caminhava pelos corredores do palácio com passos firmes. Mas seu olhar… Carregava algo que não estava ali antes. Tensão. Decisão. E… um peso que não vinha da guerra. As portas do grande salão se abriram. E ele entrou. O rei já o aguardava. Sentado em seu trono, envolto em silêncio e autoridade. — Você demorou — disse o rei. Maphis não se curvou. — Eu vim assim que pude. O olhar do rei se estreitou. — Não como deveria. O silêncio se instalou. — Eu ouvi o que aconteceu — continuou o rei. — A guerra. — O selo. — A vitória. Maphis assentiu. — Sim. — E também ouvi… — a voz do rei ficou mais fria — que você tomou certas… liberdades. Maphis não respondeu imediatamente. — Eu fiz o que precisava ser feito. — Não estou falando da batalha. Agora, o olhar do rei estava direto. Cortante. — Estou falando dela. O nome não foi dito. Mas não precisava. — Lia — disse Maphis, firme. O salão pareceu ficar mais frio. — Uma humana. — Não. Maphis deu um passo à frente. — Muito mais do que isso. O rei se levantou. Lentamente. — Você esqueceu quem você é? — Não. — Então por que age como se não soubesse? Maphis sustentou o olhar. — Porque, dessa vez… eu estou escolhendo. O silêncio explodiu. Pesado. Denso. Quase palpável. — Você foi criado para governar — disse o rei. — Para proteger nosso povo. — Para manter nossa linhagem. — E isso inclui— — Um casamento político — interrompeu Maphis. O rei não negou. — Com uma princesa. — Como sempre foi. — Como deve ser. Maphis respirou fundo. — Não. A palavra ecoou. Firme. Inabalável. — Não? — repetiu o rei, incrédulo. — Não. Maphis deu mais um passo. — Eu não vou me casar por obrigação. — Eu não vou viver uma vida que não escolhi. — E eu não vou abandonar quem eu— Ele parou. Mas era tarde. O rei já sabia. — Você está disposto a abrir mão de tudo? — perguntou o rei, com a voz mais baixa agora. Mais perigosa. Maphis não hesitou. — Sim. O impacto foi imediato. — Então você não é mais digno deste reino. As palavras caíram como sentença. — Se você escolhe isso… — continuou o rei — então aceita as consequências. Maphis permaneceu em silêncio. Esperando. — Você será exilado. O salão inteiro pareceu parar. — Sem título. — Sem direito ao trono. — Sem retorno… até que prove o contrário. Uma pausa. — E o seu lugar… será dado a quem entende o peso da responsabilidade. Maphis fechou os olhos por um breve momento. E então… Assentiu. — Então está decidido. O rei o observou. Talvez esperando arrependimento. Dúvida. Mas não encontrou. — Vá. Maphis se virou. Sem olhar para trás. E, naquele momento… Ele deixou de ser herdeiro. Para se tornar… apenas ele. Do outro lado… Lia parou no meio da vila. Seu coração disparou. Forte. Repentino. Ela levou a mão ao peito. — Não… Algo estava errado. Muito errado. — Lia? Eleonor se aproximou rapidamente. — O que foi? Ela olhou para ele. Seus olhos… assustados. — É ele. Ele franziu o cenho. — O que? — Maphis. Sua voz tremia. — Ele precisa de mim. O silêncio caiu entre eles. Mas, dessa vez… Era urgente. Eleonor a observou por alguns segundos. E então… Assentiu. — Então você vai. Lia não hesitou. Não questionou. Não duvidou. Porque algumas conexões… Não precisam de explicação. Elas apenas… Chamam. E ela… Responderia.
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