O Encontro das Almas
O vento soprava mais frio naquela noite.
A vila ainda respirava reconstrução, mas Lia já não estava mais ali.
Ela não hesitou.
Não pediu permissão.
Não esperou o amanhecer.
Porque, no fundo… ela sabia.
Maphis precisava dela.
E isso era o suficiente.
O feitiço havia nascido dias antes.
Não nos livros.
Não nos ensinamentos de Eleonor.
Mas dentro dela.
Como muitas coisas que vinham acontecendo desde que a máscara a escolhera.
Lia havia sentido.
Sentido o espaço.
As conexões.
As linhas invisíveis que ligavam pessoas, lugares… destinos.
E então… ela criou.
Um feitiço de ligação.
Não perfeito.
Não seguro.
Mas verdadeiro.
De pé na beira da vila, Lia fechou os olhos.
Sua respiração se tornou lenta.
Controlada.
Ela levou a mão ao peito.
Sentindo.
Buscando.
Maphis.
A conexão estava lá.
Mais fraca do que antes.
Mas ainda viva.
Ela se concentrou.
E deixou a magia fluir.
Luz surgiu ao redor de seus pés.
Subiu lentamente.
Envolveu seu corpo.
E então…
O mundo desapareceu.
Quando abriu os olhos novamente…
Ela não estava mais na vila.
A floresta era densa.
Antiga.
Silenciosa.
Mas não tranquila.
Havia algo errado no ar.
Algo quebrado.
Lia respirou fundo.
Seu corpo ainda doía.
Mas sua determinação… era maior.
Ela começou a caminhar.
Seguindo a sensação.
A ligação.
O chamado.
Quanto mais avançava…
Mais forte ficava.
Mas também…
Mais pesada.
Mais… dolorosa.
Como se algo estivesse interferindo.
Como se alguém estivesse tentando bloquear.
— Magia élfica… — murmurou.
Ela reconhecia.
Selos.
Barreiras.
Restrições.
E então…
Ela chegou.
A clareira se abriu diante dela.
E o que viu…
Fez seu coração apertar.
Maphis.
Ele estava no chão.
De joelhos.
Respirando com dificuldade.
Seu corpo carregava marcas.
Ferimentos.
E algo mais.
Runas.
Gravadas.
Brilhando fracamente.
Selos de contenção.
Magia antiga.
Punitiva.
Ao redor…
Dois magos élficos.
Observando.
Como guardiões de uma sentença.
— Vocês… — a voz de Lia saiu mais firme do que ela esperava.
Os dois se viraram.
Surpresos.
— Como—
Mas não terminaram.
Porque, naquele instante…
Sentiram.
O poder.
Lia deu um passo à frente.
Seus cabelos vermelhos se moveram com o vento.
Seus olhos… determinados.
— Se afastem.
Os magos trocaram um olhar.
— Ele foi julgado — disse um deles. — Não é da sua conta.
— Ele é minha conta.
A resposta foi imediata.
Sem dúvida.
Sem medo.
O ar ao redor de Lia mudou.
A energia começou a se manifestar.
Viva.
Instável.
Forte.
— Último aviso — disse ela.
E, dessa vez…
Eles sentiram.
Não era apenas uma jovem.
Não era apenas uma aprendiz.
Era algo mais.
Os magos recuaram.
Não por medo.
Mas por entendimento.
Aquilo não era uma batalha que deveriam travar.
Quando saíram da clareira…
O silêncio voltou.
Mas agora…
Mais intenso.
Mais íntimo.
Lia caminhou até ele.
Devagar.
Como se cada passo carregasse peso.
E cuidado.
— Maphis…
A voz dela… mais suave agora.
Ele ergueu o rosto com dificuldade.
Seus olhos a encontraram.
E, por um instante…
A dor pareceu diminuir.
— Você… veio… — disse ele, com esforço.
Ela se ajoelhou diante dele.
— Claro que vim.
Como se fosse óbvio.
Como se não houvesse outra possibilidade.
Ela observou os ferimentos.
As runas.
A magia.
Seu coração apertou.
— O que eles fizeram com você…
— Escolhas… têm consequências… — respondeu ele, com um leve sorriso cansado.
Ela balançou a cabeça.
— Isso não é justiça.
— É o mundo deles.
— Então eu não aceito.
Lia respirou fundo.
E então…
Fez algo simples.
Mas poderoso.
Ela retirou a luva.
Sua mão ficou exposta.
A pele… quente.
Viva.
Carregada de energia.
Maphis a observava.
Sem entender completamente.
Mas sentindo.
Ela levou a mão até o rosto dele.
E tocou.
No instante em que suas peles se encontraram…
A magia reagiu.
Uma luz suave surgiu.
Começou pequena.
Mas cresceu.
Se espalhou.
A energia de Lia fluiu.
Natural.
Instintiva.
Direta.
Maphis fechou os olhos.
Um suspiro escapou.
A dor…
Começou a ceder.
— Fica comigo… — murmurou ela.
Mais para ele.
Mais para si.
Mais para o momento.
As runas começaram a reagir.
Brilharam mais forte.
Como se resistissem.
Mas Lia não recuou.
Ela aumentou a energia.
Mais intensa.
Mais profunda.
— Você não está sozinho — disse ela.
E, naquela frase…
Havia mais do que palavras.
Havia vínculo.
Havia verdade.
Havia… escolha.
As runas começaram a se quebrar.
Uma a uma.
Como vidro sob pressão.
Maphis sentiu.
Não apenas o alívio físico.
Mas algo mais.
Algo que ia além da dor.
Conexão.
Ele abriu os olhos.
E a viu.
Ali.
Por ele.
— Você não devia… — começou.
— Eu sempre vou — interrompeu ela.
Sem hesitação.
A última runa se quebrou.
E a energia explodiu em luz.
Silêncio.
Maphis caiu levemente para frente.
Mas Lia o segurou.
Com cuidado.
Com firmeza.
— Tá tudo bem… — disse ela.
Mesmo com a respiração acelerada.
Mesmo com o esforço.
Ele encostou a testa na dela.
Por um instante.
Sem palavras.
Sem necessidade.
— Você me encontrou… — disse ele, baixo.
— Eu sempre vou encontrar.
O vento passou pela clareira.
Levando embora o peso.
Deixando apenas…
Eles.
Maphis abriu os olhos novamente.
Mais claros.
Mais vivos.
— Eu fui expulso — disse ele.
Direto.
Simples.
Lia não pareceu surpresa.
— Eu senti.
— Eu não tenho mais—
— Tem sim.
Ela o interrompeu.
Ele a olhou.
Confuso.
— Tem a mim.
O silêncio que se seguiu…
Não era vazio.
Era cheio.
Completo.
Real.
Ela sorriu.
Mesmo cansada.
Mesmo com o corpo ainda doendo.
— E agora… — disse ela — você vem comigo.
Maphis observou.
E, pela primeira vez desde que deixou o reino…
Sentiu algo que não vinha de dever.
Nem de passado.
Mas de escolha.
Ele assentiu.
— Eu vou.
E, juntos…
Eles se levantaram.
A clareira ficou para trás.
O passado também.
E, pela primeira vez…
O futuro não parecia incerto.
Parecia…
Possível.