Capítulo 12

957 Words
Abrigo Entre as Montanhas O caminho de volta não seria simples. Maphis sabia disso desde o momento em que deixaram a clareira. A floresta ficou para trás rápido demais, e o terreno começou a mudar. As árvores diminuíram, o vento ficou mais cortante, e o ar… mais frio, mais rarefeito. As montanhas surgiam à frente como gigantes silenciosos, cobertas por névoa e um presságio de dificuldade. E, ao seu lado… Lia. Ela caminhava. Mas não como antes. Seus passos eram mais lentos, mais pesados. A energia que havia usado para encontrá-lo, para quebrar as runas, para sustentá-lo… cobrava seu preço agora. Maphis observava. Em silêncio. Mas atento a cada detalhe. O jeito como ela respirava. A leve instabilidade nos passos. A forma como, vez ou outra, levava a mão ao braço… ou ao peito. Ela estava se esforçando além do limite. — A gente precisa parar. A voz dele veio firme, mas sem dureza. Lia continuou andando por mais dois passos antes de responder. — A gente tá perto? Maphis olhou ao redor. As montanhas ainda dominavam o horizonte. — Não. Ela soltou um pequeno suspiro. — Então a gente continua. Ele parou. E, dessa vez… Segurou levemente o braço dela. — Lia. Ela virou o rosto. — Você precisa descansar. — Eu posso continuar. — Não pode. O tom não era autoritário. Mas era definitivo. Ela tentou argumentar. Mas o corpo respondeu antes. Um leve desequilíbrio. Um passo em falso. Maphis a segurou antes que ela caísse. — Chega. Agora não havia espaço para discussão. Lia fechou os olhos por um instante. E, dessa vez… Não insistiu. — Tá… A voz saiu mais fraca do que ela gostaria. Maphis a apoiou com cuidado. — Vamos encontrar um lugar. O frio aumentava conforme subiam. O vento cortava. E a noite começava a se aproximar. Eles não podiam continuar muito mais. Depois de algum tempo… Ele encontrou. Uma a******a entre as rochas. Discreta. Mas suficiente. — Aqui. Ele ajudou Lia a entrar. A caverna era simples. Mas protegida. E, ao fundo… O som de água. — Tem uma fonte… — murmurou ele. Um bom sinal. Maphis a acomodou com cuidado próximo à parede mais protegida do vento. Retirou a própria capa. E colocou sobre os ombros dela. — Você precisa se manter aquecida. Lia tentou protestar. — E você? Ele apenas respondeu: — Eu me viro. Ele começou a se mover rapidamente. Como alguém que já havia feito aquilo muitas vezes. Recolheu madeira seca. Montou uma pequena fogueira. Usou magia sutil para acendê-la. Nada exagerado. Apenas o suficiente. O calor começou a se espalhar. Devagar. Mas constante. Depois, foi até a fonte. A água era limpa. Fria. Ele encheu um pequeno recipiente improvisado e voltou. — Bebe. Lia se sentou com esforço. Aceitou. As mãos tremiam levemente. — Obrigada… — Não precisa agradecer. Ele observava. Sempre observando. — Você usou muita energia — disse ele. — Eu sei. — Mais do que deveria. Ela deu um pequeno sorriso cansado. — Eu precisava. Maphis não respondeu. Porque sabia. O silêncio voltou. Mas não era desconfortável. Lia se encostou na pedra. O calor da fogueira ajudava. Mas o cansaço… Era maior. — A gente vai demorar pra chegar, né? — Vamos. — Por minha causa… — Por nossa causa. Ele corrigiu. Ela olhou para ele. E, mesmo cansada… Sorriu. — Sempre assim… — Sempre. Maphis se levantou novamente. Olhou para fora. O vento aumentava. — Eu vou dar uma olhada. — Tá. Ele saiu da caverna por alguns minutos. O frio era mais intenso lá fora. Mas ele ignorou. Precisava garantir. Depois de algum tempo… Encontrou um cavalo. Abandonado. Mas vivo. Provavelmente de algum grupo disperso pela guerra. Ele se aproximou devagar. Com cuidado. Falou baixo. Tranquilizou. E conseguiu. Quando voltou à caverna, o animal o seguia. — Você conseguiu um cavalo… — disse Lia, surpresa. — Vai ajudar. — Muito. Ele prendeu o cavalo em uma área protegida. E voltou para dentro. — Amanhã a gente avança melhor. — Se eu conseguir andar… — Você vai montar. — Eu não gosto muito de— — Vai montar. Ela riu baixo. Mesmo cansada. — Tá bom. O silêncio voltou. Mas, dessa vez… Mais leve. Depois de alguns minutos, Lia mexeu na pequena bolsa ao lado. E retirou algo. Um pequeno saquinho. — Toma. Maphis olhou. — O que é isso? — Moedas. Ele franziu o cenho. — Lia… — Você vai precisar. — Eu não preciso disso. Ela insistiu. — Agora precisa. Ele hesitou. Mas ela não recuou. — Você não tem mais o reino. A frase foi dita com cuidado. Sem peso. Mas com verdade. — E a gente ainda vai precisar de muita coisa. — A gente… — repetiu ele, baixo. Ela assentiu. — A gente. Maphis pegou o saquinho. Devagar. Como se aquilo significasse mais do que apenas moedas. — Obrigado. — Agora você pode agradecer. Ele sorriu de leve. O cansaço finalmente venceu. Lia se deitou. Com cuidado. A cabeça apoiada na capa dele. — Descansa — disse Maphis. — Tô tentando… A voz já saía mais baixa. Mais distante. — Eu fico de vigia. — Você sempre fica… — Sempre. Lia fechou os olhos. E, dessa vez… O corpo cedeu. A respiração ficou mais calma. Mais profunda. Ela dormiu. Maphis permaneceu ali. Sentado próximo à entrada. Observando. Protegendo. O vento continuava forte lá fora. Mas ali dentro… Havia calor. Havia abrigo. E havia algo mais. Algo que não dependia de reinos. Nem de títulos. Nem de passado. Escolha. Ele olhou para Lia. Dormindo. Cansada. Mas em paz. E soube. Sem dúvida. Sem medo. Que aquela jornada… Valia cada passo. Mesmo os mais difíceis. Porque, às vezes… O verdadeiro lar… Não é um lugar. É alguém.
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