Capítulo 13

1699 Words
Entre Sombras e Proteção A noite avançava silenciosa entre as montanhas. Do lado de fora da caverna, o vento continuava forte, uivando entre as rochas como um lembrete constante de que aquele não era um lugar feito para descanso. Mas, ali dentro… havia calor suficiente, abrigo suficiente. E, mais importante… Lia. Ela dormia profundamente. Depois de horas lutando contra o próprio corpo, finalmente havia cedido ao cansaço. Sua respiração era calma agora, estável, e o rosto, antes tenso, carregava uma serenidade rara. Os cabelos vermelhos estavam espalhados sobre a capa de Maphis, refletindo a luz da fogueira como pequenas chamas vivas. Maphis a observava em silêncio. Sentado próximo à entrada da caverna, atento ao ambiente, mas sempre com parte de sua atenção voltada para ela. Ela precisava daquele descanso. Mais do que ele havia imaginado. Ele olhou para fora. A noite ainda estava longe de acabar. Mas havia algo que precisava fazer. Maphis conhecia aquelas terras. Mesmo depois de tanto tempo longe de certas rotas, sua memória não falhava. Havia uma taverna. Não muito distante dali. Um ponto de parada para viajantes, mercadores… e homens que buscavam mais do que apenas descanso. Ele franziu levemente o cenho. Não era um lugar que ele escolheria em circunstâncias normais. Mas agora… Eles precisavam de suprimentos. Roupas mais quentes. Comida melhor. Talvez algo para reforçar as forças de Lia. E, principalmente… Um meio mais seguro de continuar a viagem. Seus olhos voltaram para ela. Dormindo. Vulnerável. E completamente alheia ao que existia além daquela caverna. — Eu não vou te levar lá… — murmurou, baixo. Não havia dúvida. Nem possibilidade. Maphis conhecia o tipo de lugar que aquela taverna era. Homens rudes. Bêbados. Olhares invasivos. Intenções erradas. E Lia… Ela era luz demais para aquele tipo de escuridão. — Nunca. A palavra saiu firme, mesmo que apenas para si. Ele se levantou devagar. Caminhou até ela. E se ajoelhou ao seu lado. Observou por um momento. Como se quisesse garantir que ela realmente estava bem. Que o descanso estava funcionando. Que o corpo dela estava, de fato, se recuperando. Com cuidado, ajeitou melhor a capa sobre ela. Protegendo do frio. Sem acordá-la. Por um breve instante… Sua mão pairou próxima ao rosto dela. Mas ele não tocou. Apenas ficou ali. Próximo. — Eu volto rápido… — disse, em um sussurro. Mais para ele do que para ela. Ele se levantou. Pegou o saquinho de moedas que ela havia lhe dado. E saiu da caverna. O frio o atingiu imediatamente. Mas ele ignorou. Seus passos eram firmes. Rápidos. Diretos. A trilha até a taverna não era longa. Mas era perigosa. Caminhos estreitos. Pedras soltas. E a constante sensação de que não estavam completamente sozinhos naquela região. Mas Maphis não hesitou. Depois de algum tempo… As luzes surgiram. Fracas. Amareladas. Mas visíveis. A taverna estava ali. Como ele lembrava. Isolada. Barulhenta. Viva de um jeito… bruto. O som de risadas altas, copos batendo e vozes alteradas escapava pelas janelas. Maphis parou por um instante antes de entrar. Avaliando. Observando. E então… Entrou. O ambiente era exatamente como esperado. Homens espalhados por mesas. Alguns jogando. Outros bebendo. Outros apenas observando. Quando Maphis entrou… Alguns olhares se voltaram. Mas não demoraram. Ele não era novidade ali. Apenas mais um viajante. Ele caminhou até o balcão. — Comida. Roupas quentes. E o que tiver de útil para viagem. A voz dele era direta. Sem espaço para conversa desnecessária. O homem atrás do balcão o analisou por um momento. — Vai custar caro. Maphis colocou o saquinho sobre a mesa. — Então pega o suficiente. A negociação foi rápida. Sem complicações. Enquanto esperava, Maphis observava o ambiente. Sempre atento. Sempre avaliando. E, por um breve instante… Pensou. Se Lia estivesse ali… A ideia foi interrompida imediatamente. Não. Ela nunca pisaria naquele lugar. Não com ele. Não sob sua proteção. Quando os itens ficaram prontos, ele pegou tudo. Sem demora. Sem prolongar a estadia. E saiu. O ar frio foi quase um alívio. O caminho de volta parecia mais longo. Mas não por dificuldade. Por pressa. Ele queria voltar. Garantir. Ver. Quando finalmente alcançou a caverna… O silêncio ainda estava lá. Maphis entrou devagar. E a viu. Lia ainda dormia. Na mesma posição. Tranquila. Ele soltou o ar lentamente. Sem perceber que estava prendendo. Se aproximou. Colocou os itens com cuidado ao lado. E reacendeu levemente a fogueira. Depois, pegou uma das roupas que havia conseguido. Mais grossa. Mais quente. Com cuidado… A cobriu melhor. Ela se mexeu levemente. Mas não acordou. Maphis sentou novamente próximo à entrada. Mas, dessa vez… Mais perto dela. O cansaço também o alcançava. Mas ele não dormiria. Não completamente. Seus olhos permaneceram atentos. Mas, vez ou outra… Voltavam para ela. E, naquele silêncio… Naquela pausa entre batalhas… Ele percebeu algo. Proteger não era apenas lutar. Não era apenas enfrentar inimigos. Era isso. Garantir que ela pudesse descansar. Sem medo. Sem dor. Mesmo que por poucas horas. E, naquela caverna simples… No meio das montanhas frias… Maphis encontrou algo que nunca teve, nem mesmo em séculos de vida. Um propósito que não vinha de dever. Nem de destino imposto. Mas de escolha. E ele escolheria isso. De novo. E de novo. Quantas vezes fosse preciso. O silêncio da montanha havia mudado. Não era mais apenas o vento cortando as pedras ou o eco distante da noite. Havia algo novo ali, algo que tornava tudo mais denso… mais fechado. Lia abriu os olhos devagar. Seu corpo ainda doía, mas já não era aquela dor incapacitante. Era uma lembrança constante — de tudo o que havia enfrentado, de tudo o que ainda precisava enfrentar. Ela piscou algumas vezes, ajustando a visão. E então percebeu. A luz. Diferente. Mais clara. Mais fria. Maphis estava sentado próximo à entrada da caverna. Imóvel. Observando. Lia virou o rosto com mais atenção. E viu. A neve. Lá fora, o mundo havia se transformado. A montanha agora estava coberta por um manto branco. Flocos caíam lentamente, mas constantes, preenchendo o ar com um silêncio ainda mais profundo. Era bonito. Mas também… Perigoso. — Tá nevando… — murmurou Lia, com a voz ainda baixa pelo sono. Maphis não se virou imediatamente. Mas respondeu. — Desde pouco antes do amanhecer. Ela se sentou devagar. Dessa vez, sem a mesma dor intensa de antes. — A gente não pode sair assim… — Não. A resposta veio simples. Direta. Mas havia algo por trás. Cansaço. Lia observou melhor. E percebeu. Os ombros dele estavam tensos. O olhar fixo, mas mais pesado. A respiração… mais lenta. — Você não dormiu… — disse ela. Agora, mais desperta. Maphis ficou em silêncio por um segundo. — Dormi o suficiente. Ela estreitou levemente os olhos. — Isso não é verdade. Ele soltou um pequeno suspiro. Mas não respondeu. Lia se levantou. Com cuidado. Testando o corpo. Um passo. Depois outro. Ainda doía. Mas ela conseguia. Ela caminhou até ele. Devagar. E parou ao lado. O frio vindo de fora tocou seu rosto. Mas ela não recuou. — Posso? A pergunta foi simples. Mas carregava intenção. Maphis virou o rosto. Os olhos encontraram os dela. E, por um instante… Ele entendeu. — Claro. Lia se sentou ao lado dele. Mais próxima da entrada. Tomando o lugar de vigia. O vento soprou mais forte. Flocos de neve entraram levemente na caverna. — Você precisa descansar — disse ela. — Eu estou bem. — Não tá. Sem acusação. Sem confronto. Apenas verdade. Ele a observou. Em silêncio. — Eu fico — continuou ela. — Lia— — Eu consigo. Ela o interrompeu. Seus olhos eram firmes agora. Determinados. — Você confia em mim? A pergunta ficou no ar. Simples. Direta. Mas profunda. Maphis não respondeu imediatamente. Mas não por dúvida. Ele já confiava. Desde antes. Desde o primeiro momento em que percebeu que ela não era apenas alguém forte… Mas alguém que escolheria ficar. — Confio. Lia assentiu. Um pequeno sorriso surgiu. — Então descansa. Ele ainda hesitou. Por hábito. Por instinto. Por anos de nunca baixar a guarda. Mas, dessa vez… Era diferente. — Eu cuido — disse ela. Mais baixo agora. Mais suave. — Ninguém passa por aqui. Uma pausa. — Eu prometo. A promessa não era grandiosa. Não era carregada de poder. Mas era real. E, por algum motivo… Isso foi suficiente. Maphis a observou por mais alguns segundos. Como se estivesse gravando aquele momento. E então… Assentiu. — Só me chama se precisar. — Eu chamo. Ele se levantou. Devagar. O cansaço finalmente mostrando sinais. Caminhou até mais ao fundo da caverna. Mas não muito longe. Sempre perto. Antes de deitar, olhou mais uma vez. Lia estava ali. Sentada. Olhando para fora. Atenta. Ele deitou. E, pela primeira vez em dias… Fechou os olhos sem resistência. O sono veio rápido. Profundo. Lia permaneceu em silêncio. Olhando a neve cair. O mundo parecia mais calmo agora. Como se a guerra estivesse distante. Como se fosse apenas uma memória. Mas ela sabia. Nada tinha acabado de verdade. Mesmo assim… Aquele momento… Era deles. Ela puxou a capa um pouco mais sobre os ombros. Sentindo o frio. Mas ignorando. Seus olhos percorriam o exterior. Atentos. Mas, de vez em quando… Ela olhava para trás. Para ele. Dormindo. Uma cena rara. Maphis. O guerreiro. O guardião. O que nunca parava. Agora… Em descanso. Ela sorriu levemente. — Você precisava disso… — murmurou. O vento soprou mais forte. Mas a caverna permanecia firme. Lia levou a mão até o chão. Sentiu a energia. A magia. E, instintivamente… Fortaleceu. Criou uma pequena barreira. Sutil. Quase invisível. Não para impedir o mundo. Mas para proteger o momento. As horas passaram. Lentamente. A neve continuava. Mas mais leve agora. Lia não se moveu muito. Permaneceu ali. Atenta. Firme. Mas tranquila. Porque, pela primeira vez… Ela não estava reagindo. Ela estava… cuidando. E, naquele silêncio… Ela entendeu algo. Proteger não era só lutar. Não era só enfrentar. Era isso. Ficar. Guardar. Permitir que o outro descansasse. Quando o sol começou a surgir, fraco entre as nuvens… Lia ainda estava ali. E Maphis… Ainda dormia. Mas, dessa vez… Sem tensão. Sem peso. Porque alguém estava de vigia. E ela havia prometido. E Lia… Sempre cumpria o que prometia.
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