Depois da Tempestade
O silêncio.
Foi isso que veio primeiro.
Depois de dias de batalha, gritos, magia e destruição… o silêncio parecia estranho. Quase errado. Como se o mundo ainda não tivesse entendido que tudo havia terminado.
A grande batalha havia acabado.
O m*l… havia sido selado.
Mas o preço…
O preço estava espalhado por todo o campo.
A terra estava marcada.
Queimada em alguns pontos, manchada em outros. Armas quebradas, bandeiras caídas, corpos imóveis. O vento agora soprava mais suave, mas carregava consigo a memória do que havia acontecido ali.
Lia estava de pé no meio daquele cenário.
Ou… tentando estar.
Seu corpo doía.
Cada movimento parecia exigir mais do que ela tinha para dar. Seu braço esquerdo estava coberto por um corte profundo, já parcialmente estancado, mas ainda sangrando. Sua perna estava instável, e havia marcas de impacto por todo o corpo.
Mas ela ainda estava ali.
Respirando.
Viva.
Ela levou a mão até o peito, sentindo o coração bater forte.
— Acabou… — murmurou, com a voz baixa e cansada.
Mas, mesmo dizendo aquilo… não parecia real.
— Lia!
A voz de Eleonor atravessou o campo.
Ela virou o rosto com esforço.
Seu pai vinha em sua direção, acompanhado por outros magos. Sua expressão, normalmente controlada, agora estava carregada de algo mais intenso.
Preocupação.
Quando chegou até ela, seus olhos percorreram rapidamente cada ferimento.
— Você está ferida.
Lia soltou um leve sorriso, apesar da dor.
— Nada que eu já não tenha passado antes.
Ele não achou graça.
— Não brinque com isso.
Ela abaixou o olhar por um instante.
— Desculpa.
Ele respirou fundo, tentando se recompor.
— Senta.
Ela obedeceu sem discutir.
O que, por si só, já mostrava o quanto estava cansada.
Enquanto Eleonor começava a examinar os ferimentos, outros magos ativavam as áreas de cura que haviam sido marcadas antes da batalha.
As runas no chão começaram a brilhar novamente.
Agora não como preparação.
Mas como salvação.
Feridos eram levados para dentro dos círculos.
Magia de cura fluía.
Mas não era suficiente para todos.
Nunca era.
Lia fechou os olhos por um momento enquanto Eleonor limpava o ferimento em seu braço.
A dor veio forte.
Ela respirou fundo, tentando não reagir.
— Isso vai arder — disse ele.
— Já está ardendo — respondeu ela, com um pequeno esforço para sorrir.
Ele não respondeu.
Mas seus movimentos eram mais cuidadosos agora.
Mais suaves.
— Ela precisa de mais ajuda.
A voz de Maphis surgiu ao lado deles.
Lia abriu os olhos.
E o viu.
Ali.
Vivo.
Inteiro.
E, naquele instante… algo dentro dela relaxou.
— Você tá bem… — disse ela, quase em um sussurro.
Maphis a observava com intensidade.
— Estou.
Seus olhos desceram para os ferimentos dela.
E algo mudou.
Algo mais escuro.
Mais… contido.
— Isso não está bom — disse ele.
Eleonor assentiu.
— Ela perdeu sangue.
— Mas não o suficiente para—
Lia tentou falar, mas a voz falhou.
A tontura veio de repente.
O mundo girou levemente.
Maphis se ajoelhou ao lado dela em um instante.
— Ei… olha pra mim.
Ela tentou focar.
— Eu tô bem…
— Não está.
A voz dele era firme.
Mas não dura.
Preocupada.
Profundamente.
Eleonor terminou de aplicar um unguento no braço dela e começou a trabalhar em outro ferimento.
— Ela vai ficar bem — disse ele, mais para Maphis do que para Lia.
Maphis não respondeu.
Mas permaneceu ali.
Próximo.
Como se sair fosse uma opção impossível.
— O selo… — murmurou Lia, ainda tentando se manter consciente — deu certo?
Eleonor olhou para ela.
— Deu.
Uma pausa.
— Você conseguiu.
Lia soltou um pequeno suspiro.
— A gente conseguiu…
Ele assentiu.
— Sim.
Mas, por dentro…
Ele sabia.
Sem Lia…
Nada daquilo teria sido possível.
As memórias da batalha ainda estavam vivas na mente dela.
O momento final.
A energia acumulada.
Os magos reunidos.
Eleonor guiando.
E ela…
No centro.
A máscara brilhando como nunca.
Mostrando não apenas a verdade…
Mas o ponto exato onde o m*l poderia ser selado.
Ela havia sentido aquilo.
Como se fosse parte dela.
Como se sempre tivesse sido.
E então…
Tudo explodiu em luz.
Lia piscou lentamente, voltando ao presente.
O cansaço agora era mais forte.
Mais pesado.
— Eu só… — murmurou — preciso descansar um pouco.
— Vai descansar — disse Eleonor.
— Agora.
Maphis ajudou a apoiá-la.
Com cuidado.
Como se qualquer movimento errado pudesse quebrá-la.
Eles a levaram até uma das áreas de cura.
O chão brilhava suavemente sob ela.
A energia ali era mais tranquila.
Mais estável.
Ela foi deitada com cuidado.
E, pela primeira vez desde o fim da batalha…
Ela se permitiu relaxar.
Maphis permaneceu ao lado dela.
Mesmo depois que Eleonor se afastou para ajudar outros.
Ele apenas… ficou.
Observando.
Garantindo.
Esperando.
Lia abriu os olhos novamente.
Mais devagar dessa vez.
— Você ainda tá aqui…
Maphis inclinou levemente a cabeça.
— Eu disse que ficaria.
Ela sorriu de leve.
— Você sempre cumpre o que diz?
— Sempre.
Uma pequena pausa.
— Principalmente quando se trata de você.
O coração dela bateu um pouco mais forte.
Mesmo cansado.
— A gente conseguiu… — disse ela novamente.
— Sim.
— Mas… — seus olhos ficaram mais pesados — doeu.
Maphis assentiu.
— Eu sei.
Ela olhou para o céu, visível entre as árvores.
— Muita gente…
Ele não completou.
Não precisava.
O silêncio entre eles não era vazio.
Era compartilhado.
Cheio de tudo o que não precisava ser dito.
— Eu achei que não ia conseguir… — confessou Lia, mais baixo agora.
Maphis se inclinou levemente.
— Mas conseguiu.
Ela fechou os olhos por um instante.
— Porque você tava lá.
Ele não respondeu de imediato.
Mas algo em seu olhar mudou novamente.
Mais profundo.
Mais… real.
— E você tava lá por mim também — disse ele.
Lia abriu os olhos lentamente.
E o encarou.
— Sempre.
O cansaço finalmente venceu.
Os olhos dela começaram a se fechar.
Sua respiração ficou mais calma.
Mais estável.
Maphis permaneceu ali.
Sem se mover.
Sem desviar o olhar.
Como uma sentinela.
Como alguém que… não iria embora.
Eleonor observava de longe.
E, pela primeira vez desde o fim da batalha…
Ele permitiu um pequeno sorriso.
Ela estava viva.
Eles estavam vivos.
E o m*l…
Estava selado.
Mas ele também sabia.
Aquilo não era o fim.
Era apenas…
Um novo começo.
Enquanto o sol finalmente rompia as nuvens, iluminando o campo marcado pela guerra…
Lia descansava.
Se recuperando.
Sobrevivendo.
E ao lado dela…
Maphis.
Esperando.
Guardando.
Protegendo.
Porque algumas batalhas terminam.
Mas algumas histórias…
Apenas começam depois delas.