Capítulo 7

1074 Words
Antes do Último Amanhecer O céu ainda não havia decidido se permitiria o nascer do sol. Nuvens densas cobriam tudo, pesadas como o destino que pairava sobre aquele campo. O vento soprava com força, levantando poeira e fazendo as bandeiras tremularem como se estivessem vivas — como se também sentissem o que estava por vir. A grande batalha. Não havia mais volta. Lia estava parada no limite da linha de frente. Seus dedos estavam entrelaçados com força, quase sem perceber. Sua respiração era mais curta do que o normal, e o coração… acelerado, pesado, inquieto. Ela nunca havia sentido aquilo com tanta intensidade. Não era apenas medo. Era consciência. Consciência de que aquela batalha poderia ser a última. Para muitos. Talvez… para ela. Lia fechou os olhos por um instante. Tentando organizar os pensamentos. Mas havia um que insistia. Maphis. Ela precisava falar com ele. Antes. Antes que fosse tarde. — Lia! A voz de um dos guerreiros a chamou, mas ela apenas assentiu rapidamente e se afastou, caminhando pelo acampamento improvisado. Seus passos eram rápidos, decididos. Mas, por dentro… Ela estava tremendo. Não de fraqueza. Mas de urgência. Ela precisava encontrá-lo. Precisava dizer algo. Mesmo que não soubesse exatamente o quê. Maphis estava mais afastado, próximo a uma elevação de pedra que permitia uma visão ampla do campo. Ele observava. Sempre observando. Mas, naquele momento… não era estratégia que ocupava sua mente. Era ela. Lia. Ele sabia. Sentia. Aquela batalha não seria como as outras. Algo dentro dele… antigo, instintivo… dizia que aquele era um ponto de ruptura. E isso o incomodava. Porque, pela primeira vez em séculos… Havia algo que ele não queria perder. — Maphis. A voz dela. Ele se virou imediatamente. E ali estava. Cabelos vermelhos dançando com o vento. Olhos intensos. E algo mais. Algo que ele reconheceu na hora. Medo. Mas não o tipo que paralisa. O tipo que faz agir. — Lia — respondeu ele, aproximando-se. Por um momento, nenhum dos dois falou. Apenas se olharam. Como se estivessem tentando memorizar aquele instante. — Eu… — começou ela, mas parou. Ele esperou. Sem pressionar. Sem interromper. — Eu precisava falar com você. — Eu estou aqui. Simples. Direto. Presente. Lia respirou fundo. — Essa batalha… — ela hesitou — eu sinto que vai ser diferente. Maphis não negou. — Vai. Ela engoliu em seco. — E se… — sua voz falhou por um segundo — se alguma coisa acontecer… Ele deu um passo mais perto. — Não vai acontecer. Mas ela balançou a cabeça. — Você não pode garantir isso. O silêncio caiu entre eles. Pesado. Real. — Ninguém pode. Maphis a observava com atenção agora. Mais sério. Mais… presente do que nunca. — Então me escuta — continuou ela. Sua voz tremia, mas não recuava. — Se algo acontecer comigo… — Lia— — Me deixa terminar. Ele parou. E assentiu. Ela respirou fundo novamente. — Eu quero que você se lembre de mim. Aquilo o atingiu. Forte. Direto. — Eu vou — respondeu ele, sem hesitar. — Não… — ela balançou a cabeça — não como uma guerreira. Uma pausa. — Mas como… eu. O vento passou entre eles, levando embora qualquer som distante. — Como alguém que… — ela hesitou, buscando palavras — que sentiu algo verdadeiro. Os olhos de Maphis não saíam dos dela. — Porque eu senti — disse Lia, mais baixo agora. — E não quero que isso… simplesmente desapareça. O silêncio que se seguiu não era vazio. Era cheio. Carregado. Vivo. Maphis respirou fundo. E, pela primeira vez em muito tempo… Ele não respondeu como um guerreiro. Nem como um estrategista. Mas como alguém que… sentia. — Lia — disse ele, com calma — eu esperei séculos por muitas coisas. Ela o observava, sem piscar. — Batalhas. Vitórias. Respostas. Ele deu mais um passo à frente. — Mas nada… — sua voz suavizou — nada se compara a isso. Ela sentiu o coração apertar. — Ao que eu sinto quando estou perto de você. O mundo ao redor pareceu desaparecer. — Eu não preciso de uma promessa para lembrar de você — continuou ele. — Porque eu não vou esquecer. Nunca. As palavras não foram ditas em voz alta. Mas estavam lá. Em cada olhar. Em cada pausa. — Mas eu também não vou aceitar te perder — completou ele, agora mais firme. — Não hoje. — Não nessa batalha. Lia sentiu os olhos arderem levemente. Mas não chorou. — Você não pode controlar isso — disse ela, suave. — Não posso. Ele concordou. — Mas posso lutar contra. Ela deu um pequeno sorriso. — Isso você faz bem. Ele retribuiu. Mas havia algo mais agora. Mais profundo. Mais verdadeiro. Por impulso — ou talvez por algo maior — Lia deu um pequeno passo à frente. A distância entre eles diminuiu. E, por um instante… Nada mais importava. Ela não sabia exatamente o que estava fazendo. Mas sabia que precisava. Lentamente, levantou a mão. E tocou o rosto dele. Um gesto simples. Mas carregado de tudo o que não havia sido dito. Maphis não se moveu. Apenas sentiu. Memorizou. Guardou. — Agora você não esquece — disse ela, quase em um sussurro. Ele fechou os olhos por um segundo. E, quando abriu… Havia algo diferente ali. Mais intenso. Mais decidido. — Eu nunca esqueceria. O som das trombetas cortou o momento. Alto. Implacável. Chamando. A batalha havia começado. Lia abaixou a mão lentamente. O mundo voltou. A guerra voltou. A realidade voltou. Mas algo… permaneceu. Ela deu um passo para trás. — É hora. Maphis assentiu. Mas não desviou o olhar. — Fica perto de mim. Ela sorriu de leve. — Eu sempre fico. Eles se viraram. E correram. Em direção ao campo. Em direção ao destino. A grande batalha começou como um estrondo. Mais violenta do que qualquer outra. Mais intensa. Mais… final. Lia colocou a máscara. E o mundo se abriu diante dela. Ela via tudo. Mas, dessa vez… Seu coração não estava dividido. Ela sabia por quem lutava. Sabia o que precisava proteger. Maphis estava ao lado dela. Como prometido. Como sempre. E, em meio ao caos… Entre luz e sombra… Entre vida e morte… Duas almas lutavam não apenas para vencer. Mas para continuar. Para ter um amanhã. Para ter… tempo. Porque, às vezes… O mais importante não é apenas sobreviver à batalha. Mas garantir que aquilo que começou… Tenha a chance de existir depois dela.
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