O Limiar da Tempestade
Os dias passaram como lâminas cortando o tempo.
Não havia mais distinção clara entre manhã e noite, descanso e luta, esperança e medo. Tudo se misturava em uma única realidade: sobreviver.
E então… eles chegaram.
O ponto crucial.
O lugar onde tudo seria decidido.
O campo diante deles era vasto e silencioso.
Uma planície cercada por montanhas escuras, como se a própria terra estivesse formando um círculo — uma arena antiga, esquecida pelo tempo, mas agora despertada para testemunhar mais uma guerra.
O céu estava pesado.
Carregado.
Nuvens densas se acumulavam, bloqueando a luz do sol, mergulhando tudo em uma penumbra inquietante.
Lia parou por um instante, observando o horizonte.
Seu coração bateu mais forte.
Ela sentiu.
Ali.
Era ali.
— Esse é o lugar… — murmurou.
Eleonor, ao lado dela, assentiu lentamente.
— Sim.
Sua expressão estava mais séria do que nunca.
Mais focada.
Mais… preocupada.
Ele caminhou alguns passos à frente, analisando o terreno com olhos experientes.
— Terreno aberto… pouca cobertura… — disse, mais para si mesmo do que para os outros.
Maphis se aproximou.
— Ideal para confronto direto.
Eleonor assentiu.
— E para grandes perdas.
O silêncio que se seguiu foi pesado.
Mas necessário.
— Comecem as marcações! — ordenou Eleonor, erguendo o cajado.
Os magos imediatamente se espalharam.
Runas começaram a ser desenhadas no chão.
Símbolos antigos, carregados de poder, brilhavam suavemente conforme eram ativados.
Lia observava tudo com atenção.
Ela reconhecia muitos daqueles símbolos.
Proteção.
Cura.
Barreiras.
— Essas áreas… — explicou Eleonor, aproximando-se dela — serão zonas seguras.
— Para os feridos? — perguntou Lia.
— Sim.
Ele a olhou com firmeza.
— E você vai ajudar a mantê-las.
Ela assentiu.
— Eu vou.
Mas, no fundo…
Ela sabia que não ficaria apenas ali.
Não dessa vez.
Maphis observava de longe.
Seus olhos percorriam cada movimento.
Cada detalhe.
Mas sempre…
Sempre voltavam para ela.
Lia.
Ela estava diferente.
Não apenas mais forte.
Mas mais… resoluta.
Havia algo em sua postura agora.
Algo que não estava lá antes.
Ela havia mudado.
A guerra havia mudado.
E, ainda assim…
Ela continuava sendo ela.
A chama.
— Você está pensando demais de novo.
A voz de Eleonor surgiu ao lado dele.
Maphis não desviou o olhar.
— Estou observando.
— Ela?
Maphis soltou um leve suspiro.
— Sempre.
Eleonor cruzou os braços.
— Ela vai estar na linha de frente.
Maphis assentiu.
— Eu sei.
— E isso não te deixa confortável.
Dessa vez, Maphis olhou para ele.
— Não.
Sem hesitação.
Sem disfarce.
Eleonor sustentou o olhar por alguns segundos.
— Ela precisa estar lá.
— Eu sei.
— Então confie nela.
Maphis permaneceu em silêncio.
Confiar não era o problema.
O problema era…
Perder.
Ele já havia perdido antes.
Mais vezes do que gostaria de lembrar.
E a ideia de perder Lia…
Antes mesmo de realmente tê-la…
Era algo que ele não estava preparado para enfrentar.
— Eu vou protegê-la — disse ele, finalmente.
Eleonor assentiu.
— Eu sei que vai.
Uma pausa.
— Mas não pode fazer isso sozinho.
Maphis desviou o olhar novamente.
— Eu não estou sozinho.
Eleonor sorriu de leve.
— Não… não está.
As marcações continuavam.
O chão agora estava coberto de símbolos brilhantes, formando um padrão complexo.
Um sistema de proteção.
Uma rede de esperança em meio ao caos que se aproximava.
Lia ajudava.
Desenhava.
Ativava.
Seu foco era total.
Mas sua mente… não parava completamente.
Ela sentia.
O peso daquele momento.
O peso do que estava por vir.
E… o olhar.
Ela não precisava olhar para saber.
Maphis.
Sempre ali.
Sempre atento.
Ela respirou fundo.
E continuou.
Quando o sol finalmente rompeu as nuvens, já era tarde demais para evitar o que viria.
O som.
Grave.
Profundo.
Inconfundível.
Tambores de guerra.
Vindos do outro lado da planície.
— Eles chegaram… — murmurou um dos guerreiros.
E então…
Eles apareceram.
Como uma sombra se espalhando pelo horizonte.
Exércitos.
Incontáveis.
De diferentes reinos.
Diferentes formas.
Diferentes forças.
Mas com um único objetivo.
Destruir.
— POSIÇÕES! — gritou um comandante.
O exército se moveu.
Rápido.
Organizado.
Preparado.
Lia se posicionou.
Na frente.
Como Eleonor havia dito.
Como ela sabia que aconteceria.
Seu coração batia forte.
Mas não havia hesitação.
Ela colocou a máscara.
O mundo mudou.
Como sempre.
Mas dessa vez…
Mais intenso.
Mais claro.
Mais… urgente.
Ela via tudo.
Os inimigos.
Suas intenções.
Seus pontos fracos.
Mas também via algo mais.
Algo que fez seu corpo gelar.
— Pai… — sussurrou.
Eleonor estava ao lado dela em um instante.
— O que foi?
— Eles… — ela engoliu em seco — não estão apenas atacando.
— O que quer dizer?
Ela olhou para o campo.
Seus olhos, através da máscara, captavam algo que ninguém mais via.
— Eles estão sendo guiados.
Eleonor franziu o cenho.
— Por quem?
Lia focou.
Mais longe.
Mais fundo.
E então…
Ela viu.
Uma figura.
Distante.
Envolta em energia sombria.
Controlando.
Manipulando.
— Lá… — disse ela, apontando.
Maphis se aproximou.
— Eu não vejo nada.
— Eu vejo — respondeu Lia.
E sua voz… não tremia.
— Então seguimos o seu olhar — disse Maphis.
Simples assim.
Sem questionar.
Sem duvidar.
Lia olhou para ele.
E, por um instante…
Tudo pareceu mais leve.
— AVANÇAR!
O grito ecoou.
E a batalha começou.
O impacto foi brutal.
Mais do que qualquer outro antes.
A terra tremeu.
O ar se rasgou com magia.
Gritos, aço, luz e sombra se misturaram em um caos absoluto.
Lia se movia com precisão.
Guiando.
Lutando.
Protegendo.
— À esquerda! — gritou.
— Atrás de você!
— Agora!
Sua voz se tornava um ponto de referência em meio à confusão.
E, sempre…
Maphis.
Próximo.
Lutando.
Abrindo caminho.
Protegendo sem prender.
Apoiando sem limitar.
— Precisamos chegar até lá! — disse Lia, apontando novamente.
Maphis assentiu.
— Então vamos.
Ele segurou levemente o braço dela.
— Fica comigo.
Ela assentiu.
— Sempre.
Os dois avançaram.
Juntos.
Contra a maré.
Contra o caos.
Contra tudo.
Atrás deles, Eleonor observava.
Seu coração apertado.
Mas seu olhar… orgulhoso.
— Vai, minha filha… — murmurou.
— Mostra quem você é.
A batalha atingia seu auge.
E, naquele ponto…
Não havia mais volta.
Não havia mais espera.
Apenas ação.
Decisão.
Destino.
E no centro de tudo…
Lia.
Cabelos vermelhos como fogo.
Olhos cheios de verdade.
Coração firme.
E ao seu lado…
Maphis.
O guardião do tempo.
O guerreiro que esperaria.
Mas que, naquele momento…
Lutava.
Por ela.
Com ela.
O fim ainda não havia chegado.
Mas uma coisa era certa.
Aquela batalha…
Mudaria tudo.
E eles…
Estavam exatamente onde deveriam estar.
No limiar da tempestade.