Capítulo 5

1187 Words
A Chama que Não se Apaga O amanhecer chegou tímido, como se até o sol hesitasse em iluminar aquele campo marcado pela guerra. A névoa ainda cobria o chão, misturando-se com a poeira, o cheiro metálico do sangue seco e o silêncio pesado que vinha depois de uma noite difícil. Alguns guerreiros ainda dormiam, outros apenas fingiam descansar, e muitos… já não estavam mais ali para ver o novo dia nascer. Mas, no meio daquele cenário de dor e resistência, havia movimento. Lia. Seus cabelos vermelhos chamavam atenção mesmo sob a luz suave da manhã. Não era um vermelho comum — era intenso, vivo, quase como uma chama que se recusava a se apagar. E, de certa forma… era exatamente isso que ela era. Uma chama. Enquanto muitos ainda tentavam reunir forças para se levantar, Lia já estava de pé. Seus passos eram rápidos, mas cuidadosos. Em uma mão, carregava pequenas bolsas com ervas; na outra, tiras de tecido limpo que havia preparado durante a noite. Ela não esperava ser chamada. Ela via. Sentia. E agia. — Você de novo… — murmurou um guerreiro, com um sorriso fraco ao vê-la se aproximar. Lia se ajoelhou ao lado dele. — Não reclame — disse ela, com leveza. — Se eu não vier, você piora. Ele soltou uma pequena risada, que logo virou um gemido. — Justo. Lia abriu uma das bolsas e começou a preparar um emplasto ali mesmo, misturando ervas com movimentos precisos. — Isso vai arder um pouco. — Só um pouco? Ela ergueu uma sobrancelha. — Tá… talvez mais que isso. Ele respirou fundo. — Manda. Lia aplicou o preparado com cuidado, mesmo sabendo que o processo não era agradável. — Você é corajoso — comentou ela. — Não tanto quanto você. Ela não respondeu. Apenas terminou o curativo e se levantou. — Troque isso mais tarde. — Se eu sobreviver até lá. Lia olhou para ele, séria. — Vai sobreviver. E seguiu. Ao longo do acampamento, a cena se repetia. Lia passava de pessoa em pessoa, oferecendo ajuda sem hesitar. Uma bandagem aqui. Uma poção ali. Palavras simples, mas firmes. Presença. E, pouco a pouco… algo mudava. Não no campo de batalha. Mas nas pessoas. Ela trazia algo que muitos já estavam perdendo. Esperança. — Ela não para. Maphis observava de longe, encostado em uma árvore. Seus olhos seguiam cada movimento de Lia. Cada gesto. Cada cuidado. Eleonor surgiu ao lado dele. — Nunca parou. Maphis cruzou os braços. — Mesmo depois de ontem? — Principalmente depois de ontem. Maphis soltou um leve suspiro. — Ela carrega mais do que deveria. Eleonor olhou para a filha. — Talvez. Uma pausa. — Mas também é isso que a torna quem ela é. Maphis permaneceu em silêncio. Seus olhos ainda fixos nela. — Os cabelos dela… — disse ele, quase distraído. Eleonor sorriu de leve. — Vieram da mãe. Maphis assentiu. — São… difíceis de ignorar. — Ela também. Isso fez Maphis esboçar um pequeno sorriso. Lia se aproximou de um grupo mais afastado. Ali estavam os casos mais graves. Ela respirou fundo antes de se ajoelhar ao lado de um jovem guerreiro, quase inconsciente. Sua respiração era fraca. Irregular. Lia abriu sua bolsa com mais urgência dessa vez. Misturou ervas raras. Preparou uma poção mais forte. — Fica comigo… — murmurou, enquanto levantava levemente a cabeça dele. Com cuidado, fez com que ele bebesse. Alguns segundos se passaram. Nada. O coração dela apertou. — Por favor… Então… Uma reação. Leve. Mas real. A respiração dele se estabilizou um pouco. Lia soltou o ar que nem sabia que estava prendendo. — Isso… — sussurrou. Ela aplicou uma bandagem no ferimento mais profundo, com mãos firmes apesar da tensão. Quando terminou, permaneceu ali por um instante. Observando. Garantindo. E então… seguiu. O dia avançava. E, com ele, a guerra retornava. O som dos cornos ecoou mais uma vez. Chamando. Convocando. Exigindo. Lia fechou os olhos por um breve momento. — De novo… — murmurou. Ela se levantou. Seu corpo estava cansado. Mas sua determinação… não. Maphis se aproximou. — Você deveria descansar. Ela negou com a cabeça. — Depois. Ele a observou por um instante. — Você não é invencível. Ela deu um pequeno sorriso. — Nunca disse que era. — Então aja como alguém que precisa se preservar. Lia inclinou a cabeça. — E você? Ele não respondeu de imediato. — Eu já tive tempo suficiente — disse por fim. Ela franziu levemente o cenho. — Isso não faz sentido. — Faz… pra mim. O olhar deles se encontrou. E, novamente… Aquela conexão. Forte. Silenciosa. Presente. — Só… toma cuidado — disse ele. Lia assentiu. — Você também. O campo de batalha os engoliu mais uma vez. Dessa vez… mais brutal. Os inimigos estavam mais organizados. Mais agressivos. Mais perigosos. Lia colocou a máscara. E o mundo mudou. Ela via. Além. Sempre além. — À direita! — gritou, desviando um grupo de aliados de um ataque surpresa. Seus movimentos eram rápidos. Precisos. Ela lutava. Mas também guiava. Protegia. Cuidava. Mesmo em meio ao caos. Maphis lutava próximo. Sempre próximo. Não por acaso. Nunca por acaso. Ele a observava. Protegia sem invadir. Ajudava sem limitar. E, em vários momentos… Eles lutavam juntos. Como se compartilhassem um mesmo ritmo. Uma mesma intenção. Uma mesma… chama. A batalha parecia não ter fim. Mas, eventualmente… O som de retirada ecoou. Mais uma vez. Mais um dia sobrevivido. Mas a que custo? De volta ao acampamento, o cansaço era visível. Lia voltou ao que fazia melhor. Cuidar. Mesmo ferida. Mesmo exausta. Mesmo com o corpo pedindo descanso. — Você precisa parar. Maphis estava novamente ao lado dela. Dessa vez, mais firme. Ela não olhou para ele. — Só mais esse. — Você disse isso três vezes. Ela suspirou. — E vou dizer de novo. Ele segurou levemente o pulso dela. Não com força. Mas o suficiente. Ela finalmente olhou. — Chega por hoje. O tom dele não era autoritário. Era… preocupado. Genuinamente. Lia hesitou. E então… Cedeu. — Tá bom. Ele soltou o pulso dela lentamente. Mas não se afastou. — Senta. Ela obedeceu. Algo raro. Mas naquele momento… necessário. Os dois ficaram em silêncio por um tempo. A fogueira crepitava entre eles. — Você não precisa salvar todo mundo sozinha — disse Maphis. Lia olhou para o fogo. — Eu sei. — Então por que tenta? Ela demorou a responder. — Porque… alguém tem que tentar. Maphis a observou. — E quando você precisar de alguém? Ela deu um pequeno sorriso. — Eu tenho. Ela olhou para ele. Diretamente. Sem desviar. E, naquele momento… Não havia dúvida. Os cabelos vermelhos de Lia refletiam a luz da fogueira. Como uma chama viva. Indomável. E Maphis… percebeu. Que não importava o quão difícil a guerra se tornasse… Ela não iria apagar. E talvez… Fosse exatamente isso que o mundo precisava. Uma chama que se recusava a desaparecer. Mesmo no meio da escuridão. Mesmo no meio da guerra. Mesmo no meio de tudo. Lia continuava. E continuaria. Porque cuidar… Também era uma forma de lutar. E ela… Era uma guerreira à sua maneira.
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