Capítulo 4

1225 Words
Entre o Tempo e o Destino A noite havia caído sobre o acampamento como um manto pesado. As chamas das fogueiras dançavam sob o vento frio, lançando sombras que se moviam como fantasmas entre tendas, armaduras largadas e corpos exaustos. O cheiro de ervas, sangue e terra molhada preenchia o ar, lembrando a todos que a batalha daquele dia havia cobrado um preço alto. Lia estava sentada próxima a uma das fogueiras. Seus dedos se moviam com cuidado enquanto esmagava ervas em um pequeno recipiente de pedra. O som suave do pilão contrastava com os gemidos baixos dos feridos ao redor. Sua expressão era concentrada, mas seus olhos… estavam distantes. Ela preparava um emplasto. Mas sua mente estava em outro lugar. Em alguém. Maphis. Ela fechou os olhos por um instante, respirando fundo, tentando afastar aquela sensação estranha que insistia em permanecer dentro dela. Não era como nada que já havia sentido antes. Não era simples admiração. Não era apenas confiança. Era algo mais profundo. Algo que parecia… antigo. — Filha. A voz a trouxe de volta. Lia abriu os olhos e virou o rosto. Eleonor estava ali, aproximando-se lentamente. Sua expressão era calma, mas carregava um peso que Lia conhecia bem. Ele se sentou ao lado dela, próximo o suficiente para sentir o calor da fogueira. Por alguns segundos, nenhum dos dois disse nada. Apenas o som das chamas e da noite preenchia o espaço entre eles. — Senhor — respondeu Lia, retomando o movimento com as ervas. Eleonor observou as mãos dela trabalhando. — Você aprendeu bem. Ela deu um pequeno sorriso. — Você ensinou. Ele assentiu. Mas não era sobre isso que queria falar. O silêncio voltou, mas dessa vez… mais carregado. Mais intencional. — Você e Maphis. As mãos de Lia pararam. Por um instante. Só um instante. Mas foi o suficiente. Ela não levantou o olhar imediatamente. — O que tem? — perguntou, tentando manter a voz firme. Eleonor não respondeu de imediato. Apenas continuou observando. — Eu te conheço, Lia. Ela suspirou, deixando o pilão de lado. — Não temos nada. Agora ela olhou para ele. Seus olhos eram sinceros. Confusos. — Só uma sensação… — continuou — como se eu já o conhecesse. Eleonor não pareceu surpreso. Na verdade… parecia esperar exatamente aquela resposta. — Eu sei. Lia franziu levemente o cenho. — Sabe? Ele assentiu lentamente. — Isso não é algo comum. Ela abaixou o olhar novamente. — Eu sei. — E também não é algo que deva ser ignorado. Lia voltou a encará-lo. — Então o que eu faço? A pergunta não era simples. E Eleonor sabia disso. Ele respirou fundo antes de responder. — Nada… por enquanto. Ela piscou, surpresa. — Nada? — Você continua sendo quem você é. Lia ficou em silêncio. — E deixa o tempo fazer o resto — completou ele. O fogo estalou entre eles. Lia absorvia cada palavra. — Pai… — começou ela, hesitante — isso é errado? Eleonor a olhou com firmeza. — Não. Sem hesitação. Sem dúvida. — Mas… — ele continuou, com mais calma — precisa ser vivido no tempo certo. Ela engoliu em seco. — Você é jovem, Lia. Ela sabia disso. Sempre soube. Mas ouvir aquilo naquele momento… tinha um peso diferente. — E Maphis… — Eleonor fez uma pequena pausa — vive há oitocentos anos. Lia soltou um leve suspiro. — Eu sei. — Ele já viu o mundo mudar inúmeras vezes. — Eu sei — repetiu ela, mais baixo. — E você… ainda está começando. O silêncio caiu novamente. Mas dessa vez… não era desconfortável. Era compreensão. Lia assentiu lentamente. — Então… — disse ela — a gente espera. Eleonor sorriu de leve. — Se for verdadeiro… não há pressa. Lia olhou para o fogo. As chamas refletiam em seus olhos. — Eu não sei o que isso é ainda. — Nem precisa saber agora — respondeu ele. E, pela primeira vez naquela noite… Lia pareceu um pouco mais tranquila. Do outro lado do acampamento, Maphis permanecia de pé, observando o horizonte. A escuridão escondia o campo de batalha, mas ele sabia que, ao amanhecer, tudo voltaria a acontecer. Mais luta. Mais perdas. Mais decisões. Mas sua mente não estava apenas na guerra. Estava nela. Lia. Ele fechou os olhos por um instante. A lembrança da oráculo voltou com força. "Você reconhecerá no instante em que seus olhos encontrarem os dela." Ele havia reconhecido. Sem dúvida. Sem erro. Ela era. Mas também sabia… Que não era simples. Nem imediato. Nem fácil. — Pensando demais? A voz de Eleonor surgiu atrás dele. Maphis abriu os olhos. — Talvez. Ele se virou. Os dois se encararam por alguns segundos. Velhos amigos. Velhos guerreiros. — Sempre foi assim — disse Eleonor. — Você pensa demais. Maphis deu um leve sorriso. — E você continua direto demais. Eleonor cruzou os braços. — Vamos ao ponto. Maphis assentiu. — Lia. O nome pairou entre eles. — Eu imaginei — disse Maphis. — Claro que imaginou. O silêncio se instalou por um momento. Mas não era hostil. Era… necessário. — Você sabe — começou Eleonor — que ela ainda é muito jovem. — Eu sei. Sem hesitação. Sem defesa. A resposta veio firme. Isso fez Eleonor relaxar um pouco. — E sabe o que isso significa? Maphis assentiu lentamente. — Que não é o momento. Eleonor o observou com atenção. Buscando qualquer sinal de dúvida. Mas não encontrou. — Eu não sou imprudente — continuou Maphis. — Nem inconsequente. — Eu sei — respondeu Eleonor. — Eu já vi o que acontece quando o tempo é ignorado. Seus olhos ficaram mais sombrios por um instante. Memórias. Perdas. Erros. Eleonor percebeu. — Então você entende. — Mais do que gostaria. O vento passou entre eles, carregando o som distante do acampamento. — Ela é importante — disse Eleonor. — Não só pra mim. — Eu sei — respondeu Maphis. — Ela é importante para todos nós. Ele deu um pequeno passo à frente. — E para mim… — sua voz baixou levemente — de uma forma que ainda estou tentando entender. Eleonor não disse nada. Apenas ouviu. — Mas eu não vou apressar isso. Havia sinceridade ali. Profunda. Inquestionável. — Eu vou protegê-la — continuou Maphis. — Não porque ela é a escolhida. Uma pausa. — Mas porque… ela é ela. O silêncio se prolongou. E então… Eleonor assentiu. — Isso é o suficiente. Na fogueira, Lia terminava de aplicar o emplasto em um dos feridos. Suas mãos eram gentis. Cuidadosas. Mas seus pensamentos… ainda estavam longe. Ela olhou para o céu. As estrelas brilhavam intensamente. E, por um instante… Ela sentiu algo. Uma presença. Virou o rosto. E o viu. Maphis. Do outro lado do acampamento. Observando. Não de forma invasiva. Mas… presente. Constante. Ela não desviou dessa vez. E ele também não. Não houve palavras. Não houve gestos. Mas algo foi dito. Silenciosamente. Claramente. O destino havia se movido. Mas o tempo… Ainda tinha seu próprio ritmo. E eles… Precisariam respeitá-lo. Naquela noite, enquanto o mundo descansava entre batalhas… Três corações carregavam o peso do futuro. Um pai, que sabia que precisava deixar a filha crescer. Uma jovem, que começava a entender sentimentos maiores do que si mesma. E um homem, que esperaria o tempo necessário… Porque, pela primeira vez em séculos… Algo realmente valia a pena esperar.
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