Capítulo 3

1240 Words
Entre Profecias e Chamas O exército avançava como uma maré silenciosa antes da tempestade. O som dos passos ecoava pela terra úmida, misturado ao tilintar de armaduras, ao sopro dos ventos e ao peso invisível daquilo que estava por vir. O céu, antes claro, agora se tornava mais denso, como se o próprio mundo segurasse a respiração. Lia caminhava entre os guerreiros. Seu manto balançava suavemente, mas seu coração… não acompanhava aquele ritmo calmo. Havia algo inquieto dentro dela, algo que não vinha apenas da guerra. Era novo. Estranho. E, de certa forma… impossível de ignorar. Seus olhos, quase sem perceber, buscaram à frente. E encontraram Maphis. Ele caminhava ao lado das fileiras élficas, sua postura firme como uma árvore ancestral. Cada passo era seguro, cada movimento carregava séculos de experiência. Mas sua mente… não estava totalmente ali. Maphis lembrava. De algo distante. Muito distante. Uma caverna escondida entre montanhas esquecidas. O ar denso de magia antiga. O som de água ecoando em paredes de pedra. E, no centro de tudo… ela. A oráculo. Seus olhos eram brancos como a lua cheia, e sua voz… parecia vir de todos os lugares ao mesmo tempo. — Você viverá muito — ela havia dito. Maphis, mais jovem na época, apenas observava em silêncio. — Lutará guerras que outros sequer compreenderão. Ele não se impressionou. Aquilo já era esperado. Mas então… ela disse algo que ele nunca esqueceu. — E encontrará o amor. Maphis havia franzido o cenho. — Amor? — perguntou, quase com desdém. A oráculo sorriu. — Não como os outros. O silêncio se instalou. — Será diferente — continuou ela. — Inesperado. Desafiador. E impossível de ignorar. Maphis não respondeu. — Você reconhecerá no instante em que seus olhos encontrarem os dela. Ele cruzou os braços. — E isso mudará tudo? A oráculo inclinou a cabeça. — Não. Uma pausa. — Vai revelar quem você realmente é. Maphis fechou os olhos por um breve segundo enquanto caminhava. O som do exército ao redor retornou aos seus sentidos. E então… ele abriu os olhos. E olhou para trás. Diretamente para Lia. Ela já estava olhando para ele. E, por um instante… O mundo ao redor desapareceu. Não havia guerra. Não havia soldados. Não havia destino. Apenas aquele olhar. Profundo. Silencioso. Carregado de algo que nenhum dos dois conseguia explicar. Lia foi a primeira a desviar. Seu coração disparou. — O que foi isso…? — murmurou para si mesma. Ela levou a mão ao peito, como se pudesse acalmar o ritmo acelerado. Nunca havia sentido algo assim. Não era medo. Não era exatamente curiosidade. Era… conexão. Algo que puxava, que chamava, que despertava. Ela balançou a cabeça, tentando afastar o pensamento. — Não é hora pra isso — sussurrou. Mas seu coração… não parecia concordar. — Você também sentiu, não foi? A voz ao seu lado a fez se assustar levemente. Era Eleonor. Lia arregalou os olhos. — Sentir o quê? Ele a observou com um leve sorriso. — Eu sou seu pai. Ela desviou o olhar, corando levemente. — Não sei do que você está falando. Ele riu baixo. — Claro que não. Mas não insistiu. Apenas voltou a olhar para frente. — Só tome cuidado — disse ele, mais sério agora. — Com o quê? Ele demorou a responder. — Algumas conexões… podem ser tão fortes quanto perigosas. Lia franziu o cenho. Mas antes que pudesse perguntar mais, o som de um corno ecoou pelo vale. Alto. Grave. E ameaçador. — POSIÇÕES! — gritou um comandante. O exército parou. O ar mudou. A tensão se tornou palpável. À frente… o campo de batalha se revelava. E não era vazio. Exércitos de diversos reinos estavam reunidos. Guerreiros de armaduras negras. Criaturas de formas distorcidas. Magos envoltos em sombras. E, entre eles… bandeiras desconhecidas. — Eles vieram de todos os cantos… — murmurou Lia. Eleonor assentiu. — Os melhores. Maphis se aproximou. — E os mais perigosos. Seus olhos percorriam o campo com precisão. — Essa não será uma batalha comum. O primeiro impacto veio como um trovão. O som de espadas, magia e gritos explodiu pelo campo. Lia m*l teve tempo de reagir antes de ser puxada para o caos. Ela ergueu as mãos, canalizando energia. Um feixe de luz se formou, repelindo um grupo de inimigos que avançava. Seu coração batia forte. Seus sentidos estavam aguçados. E, ainda assim… Havia algo mais. Ela colocou a máscara. O mundo mudou instantaneamente. As intenções ficaram claras. Aliados brilhavam. Inimigos se distorciam. Mas o mais assustador… Era perceber que nem todos os inimigos estavam do outro lado. — Cuidado! — gritou Lia. Um guerreiro ao seu lado quase foi atingido por alguém que, até segundos atrás, parecia aliado. Ela lançou um feitiço, desviando o ataque. — Eles estão infiltrados! A informação se espalhou rapidamente. E o campo de batalha se tornou ainda mais caótico. Maphis lutava com precisão mortal. Seus movimentos eram fluidos, quase elegantes, mesmo em meio à violência. Mas seus olhos… buscavam. E sempre voltavam para ela. Lia. Ele a via lutando. Viva. Forte. Determinada. E, naquele momento… teve certeza. A oráculo estava certa. Era ela. Um inimigo avançou pelas costas de Lia. Rápido. Silencioso. Mortal. Mas antes que o golpe a alcançasse… Maphis apareceu. Interceptou o ataque com uma lâmina de luz. O impacto ecoou. Lia se virou, surpresa. — Você— — Fique atenta — disse ele, sem desviar o olhar do inimigo. Os dois lutaram lado a lado. Sincronizados. Como se já tivessem feito aquilo antes. Como se… se conhecessem há muito mais tempo do que apenas alguns dias. A batalha se intensificava. Magia explodia pelo campo. Criaturas caíam. Gritos ecoavam. Mas, no meio de tudo aquilo… Havia um ponto de equilíbrio. Eles. Lia e Maphis. — Você confia em mim? — perguntou ele, em meio à luta. Ela hesitou por um segundo. Mas respondeu: — Sim. Ele assentiu. — Então me diga onde atacar. Lia colocou a máscara novamente. Seus olhos percorreram o campo. E ela viu. — À esquerda — disse. — O mago de capa vermelha. Ele está controlando os outros. Maphis não hesitou. Avançou. Abrindo caminho com precisão. E, em poucos movimentos… O inimigo caiu. E, com ele… Parte do exército desmoronou. Quando o primeiro dia de batalha terminou, o campo estava em silêncio. Mas não era um silêncio de paz. Era o silêncio pesado daquilo que ainda não havia acabado. Lia estava exausta. Mas viva. Ela se sentou, respirando fundo. Maphis se aproximou. — Você lutou bem. Ela olhou para ele. — Você também. Um pequeno sorriso surgiu entre eles. E, novamente… Aquele silêncio. Diferente. Carregado. Real. — Isso… — começou Lia, hesitante — o que está acontecendo entre a gente? Maphis a observou por um longo momento. — Eu acho… — disse ele, com calma — que estamos descobrindo. Ela franziu levemente o cenho. — Descobrindo o quê? Ele deu um pequeno passo mais perto. — Algo que não pode ser explicado com palavras. O coração dela acelerou. Mas, dessa vez… Ela não desviou o olhar. Ao longe, o som de novos tambores ecoava. A guerra ainda não havia terminado. Na verdade… Estava apenas começando. Mas, em meio ao caos, à dor e à incerteza… Algo nascia. Algo inesperado. Algo forte. Algo que poderia mudar tudo. E enquanto as estrelas surgiam no céu, testemunhando o fim de mais um dia de batalha… Duas almas, de tempos tão diferentes… Começavam a se encontrar.
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