Olhos Antigos, Verdades Novas
O grande salão élfico estava mais silencioso naquela manhã.
A luz atravessava as janelas altas feitas de cristal vivo, espalhando reflexos dourados pelo chão de madeira antiga. O ar carregava uma tensão sutil — não de medo, mas de expectativa. A guerra se aproximava, e todos ali sabiam que aquele dia marcaria o início de algo irreversível.
Ao lado do trono, permanecia Maphis.
Imóvel.
Observador.
Ele não era como os outros elfos. Havia algo em sua presença que impunha respeito sem esforço — talvez fosse a postura firme, o olhar profundo ou a aura de alguém que já havia visto séculos passarem como estações.
Maphis tinha oitocentos anos.
E ainda assim… naquele momento, sentia algo incomum.
Curiosidade.
Seus olhos se voltaram para as grandes portas do salão.
— Ela ainda não apareceu? — perguntou, em tom calmo, mas atento.
O rei, sentado em seu trono de raízes entrelaçadas, respondeu sem desviar o olhar do horizonte visível além das janelas.
— Jovens carregam o peso das descobertas de forma diferente — disse ele. — Dê tempo a ela.
Maphis assentiu levemente.
— E Eleonor?
O rei sorriu de canto.
— Impaciente como sempre.
Isso arrancou um leve suspiro de Maphis, quase um riso contido.
— Mil anos… e nada muda.
— É por isso que ele ainda é ele — respondeu o rei.
O silêncio retornou por um momento.
Mas não era desconfortável.
Era o tipo de silêncio que existia entre aqueles que carregavam eras nas costas.
Do lado de fora, nos jardins elevados do reino, Lia caminhava lentamente.
A brisa suave tocava seu rosto, mas não era suficiente para acalmar seus pensamentos.
Ela ainda estava processando tudo o que havia visto.
As faces ocultas.
As intenções escondidas.
A verdade por trás da beleza.
Seus dedos tocaram, quase automaticamente, a bolsa onde a máscara estava guardada.
— Você não precisa dela o tempo todo.
A voz fez Lia se virar rapidamente.
Eleonor estava ali, apoiado em seu cajado, observando-a com aquele olhar atento que misturava orgulho e preocupação.
— Eu sei — respondeu Lia. — Mas é difícil ignorar o que eu senti.
Ele se aproximou.
— A máscara mostra a verdade… mas não ensina o que fazer com ela.
Lia franziu o cenho.
— Então como eu sei em quem confiar?
Eleonor ficou em silêncio por alguns segundos.
— Você aprende.
— E se eu errar?
Ele sorriu, levemente.
— Você vai errar.
Lia soltou um pequeno suspiro.
— Isso não ajuda muito.
— Ajuda mais do que você imagina.
Antes que ela pudesse responder, passos suaves ecoaram pelo jardim.
Ambos se viraram.
E então, Lia o viu pela primeira vez.
Maphis.
Ele se aproximava com elegância natural, seus longos cabelos prateados refletindo a luz do sol como fios de luar. Seus olhos, porém, eram o que mais chamavam atenção — antigos, profundos… e incrivelmente vivos.
Ele parou a alguns passos de distância.
Seus olhos passaram primeiro por Eleonor.
E, por um breve momento, o tempo pareceu parar.
— Ainda de pé, velho amigo? — disse Maphis, com um leve sorriso.
Eleonor ergueu uma sobrancelha.
— Com menos rugas que você, ao que parece.
Maphis soltou uma pequena risada.
— Oito séculos… e você continua insuportável.
— E você continua dramático.
Os dois se encararam por um segundo… e então, algo raro aconteceu.
Eles sorriram de verdade.
Era o tipo de sorriso que só nasce de histórias compartilhadas, batalhas vencidas e perdas superadas juntos.
— Quanto tempo — disse Maphis, mais baixo agora.
— Tempo demais — respondeu Eleonor.
E então, Maphis voltou seu olhar para Lia.
E tudo mudou.
Lia sentiu o peso daquele olhar imediatamente.
Não era julgamento.
Não era ameaça.
Era… análise.
Curiosidade.
E algo mais.
Algo que ela não conseguia definir.
— Então… — disse Maphis, com voz calma — você é a filha de Eleonor.
Lia assentiu.
— Lia.
Ele inclinou levemente a cabeça.
— Maphis.
Ela hesitou por um instante.
E então perguntou:
— Você já sabia de mim?
Um leve brilho passou pelos olhos dele.
— Ouvi histórias.
Eleonor cruzou os braços.
— Espero que as boas.
Maphis ignorou o comentário.
Seus olhos continuavam fixos em Lia.
— Dizem que você vê o que outros não veem.
O coração dela acelerou.
— Às vezes.
— E agora? — perguntou ele.
Lia hesitou.
Sua mão foi até a máscara.
Eleonor não a impediu dessa vez.
Maphis observava tudo, em silêncio.
Ela respirou fundo.
E colocou a máscara.
O mundo mudou novamente.
As cores se intensificaram.
As formas ganharam novos significados.
E então… ela olhou para Maphis.
E ficou sem reação.
O que viu… não era simples.
Não era apenas luz.
Nem sombra.
Era algo muito mais complexo.
Havia luz nele.
Muita.
Mas também havia marcas.
Cicatrizes invisíveis.
Dor antiga.
Perdas que nunca desapareceram completamente.
E, ainda assim…
Ele permanecia firme.
Equilibrado.
Escolhendo a luz, apesar de tudo.
Lia retirou a máscara lentamente.
Seus olhos ainda estavam presos nos dele.
— Você… — começou ela, mas não terminou.
Maphis inclinou levemente a cabeça.
— O que você viu?
Ela hesitou.
Mas decidiu ser honesta.
— Alguém que já sofreu muito… mas não deixou isso transformar quem é.
O silêncio caiu entre eles.
Eleonor observava atentamente.
E, pela primeira vez, Maphis pareceu… surpreso.
Não ofendido.
Não defensivo.
Surpreso.
— Interessante — disse ele, quase em um sussurro.
Ele deu mais um passo à frente.
— E você? — perguntou. — Sabe o que os outros veem quando olham para você?
Lia engoliu em seco.
— Não.
Maphis sorriu levemente.
— Nem todos estão preparados para enxergar a si mesmos.
Os três caminharam juntos pelos jardins.
A conversa fluía com uma naturalidade inesperada.
Maphis e Eleonor relembravam histórias antigas — batalhas, erros, vitórias e momentos que pareciam pertencer a outro mundo.
Lia ouvia, fascinada.
— Você ainda luta como antes? — perguntou Eleonor.
Maphis deu um leve sorriso.
— Melhor.
— Duvido.
— Podemos testar depois da guerra.
Eleonor riu.
— Se sobrevivermos.
O tom leve escondia uma verdade dura.
A guerra que se aproximava não seria simples.
Lia percebeu isso no olhar dos dois.
Eles já haviam enfrentado conflitos antes.
Mas algo naquele… era diferente.
Mais sombrio.
Mais incerto.
— Maphis — chamou o rei, surgindo ao longe.
Ele se aproximou com passos tranquilos.
— As tropas estão prontas.
Maphis assentiu.
— Então é hora.
Lia sentiu um frio percorrer sua espinha.
Era real agora.
Não havia mais preparação.
Nem espera.
A batalha estava ali.
Antes de partir, Maphis se voltou para Lia mais uma vez.
— Você vai estar na linha de frente? — perguntou.
Ela hesitou.
— Eu… não sei.
Ele olhou para Eleonor.
— Ela vai — respondeu o mago.
Lia arregalou os olhos.
— Pai—
— Você está pronta.
Ela não tinha certeza disso.
Mas não discutiu.
Maphis observou a troca em silêncio.
— Então ouça — disse ele, voltando-se para Lia.
Ela ergueu o olhar.
— Nem toda verdade deve ser dita no momento em que é descoberta.
Ela franziu a testa.
— O que quer dizer?
— Se você expuser tudo o que vê… pode destruir alianças antes da hora certa.
Lia ficou em silêncio.
— A verdade é uma arma — continuou ele. — Mas também pode ser uma ponte.
Ele deu um passo para trás.
— Cabe a você decidir como usá-la.
As trombetas ecoaram pelo reino.
O som atravessou as árvores, os céus e os corações de todos ali.
Era o chamado.
A guerra havia começado.
Lia segurou a máscara com força.
Seu coração batia rápido.
Mas, dessa vez…
Havia algo diferente.
Ela não estava mais sozinha.
Ela tinha seu pai.
Tinha aliados.
E agora…
Tinha Maphis.
Um guerreiro de oitocentos anos.
Um sobrevivente.
E alguém que, de alguma forma…
Parecia entender exatamente o peso que ela carregava.
Enquanto marchavam em direção ao desconhecido, Lia olhou para o horizonte.
O mundo estava prestes a mudar.
E ela…
Era parte disso.
A escolhida da máscara.
A portadora da verdade.
E, talvez…
A única capaz de impedir que aquela guerra destruísse tudo.
Ou…
A única que poderia revelar quem realmente deveria vencer.