Capítulo 23

1202 Words
E, nesses dias… Ela fazia o que podia. Ficava em casa. Cuidava das coisas mais simples. Organizava. Cozinhava. Lavava roupas. Inclusive as dele. Mas nunca ia além. Eram suas regras. Não porque alguém impôs. Mas porque ela escolheu. Porque conhecia seus limites. E os respeitava. Maphis percebeu. Ele sempre percebia. No primeiro dia, achou que fosse apenas cansaço. No segundo… Notou o padrão. Lia não saía. Ficava mais quieta. Mais recolhida. E, mesmo assim… Continuava fazendo coisas. — Ela devia descansar mais… — murmurou ele certa vez. Mas não disse nada diretamente. Até aquele dia. Ele bateu levemente na porta antes de entrar. — Posso? — Sempre. A voz dela veio da cozinha. Ele entrou. E imediatamente sentiu o cheiro. — Chocolate… Ela sorriu de leve. Sem olhar diretamente. — Eu tava com vontade. Maphis se aproximou. Observando. — Tá bonito. — Espero que esteja bom também. Ele ficou ao lado dela. E, por um momento… Apenas observou. Mas não era só o que ela fazia. Era como ela estava. Os movimentos mais lentos. O jeito como, vez ou outra, parava por um segundo. A mão que, discretamente, pressionava o abdômen. Ele franziu levemente o cenho. — Lia… Ela continuou mexendo. — Hm? — Você tá bem? A pergunta veio direta. Mas suave. Ela hesitou. Apenas um instante. — Tô. Ele não acreditou. — Você não saiu de casa esses dias. Ela deu de ombros. — Só quis ficar um pouco mais tranquila. — E isso acontece todo mês? Ela parou. Por um segundo… Ficou completamente imóvel. O silêncio mudou. Lia sentiu o rosto esquentar. — Você… percebeu isso? — Percebi. Ele não parecia incomodado. Nem confuso. Apenas… atento. — E você fica assim… Uma pausa. — Sempre? Lia desviou o olhar. — É só alguns dias. — E dói? A pergunta foi direta demais. Ela ficou vermelha. De verdade. Não era vergonha dele. Era… do assunto. — Maphis… Ele inclinou levemente a cabeça. — O que foi? Ela respirou fundo. — É… coisa de mulher. Ele ficou em silêncio por um segundo. — Eu imaginei. Ela olhou para ele. Surpresa. — Imaginou? — Sim. — E você ainda assim tá perguntando? — Porque eu quero entender. A sinceridade desarmou qualquer defesa. Lia desviou o olhar novamente. — É só… meu corpo. — O que tem seu corpo? Ela respirou fundo. — Todo mês… eu fico assim. Uma pausa. — Mais sensível. Outra pausa. — Com dor. Ele permaneceu em silêncio. Mas não recuou. — Que tipo de dor? Ela apertou levemente os dedos. — Cólicas. A palavra saiu mais baixa. Maphis não demonstrou desconforto. Nem surpresa exagerada. Apenas absorveu. — E você passa por isso sozinha? Lia deu de ombros. — Sempre passei. — E não pediu ajuda? — Pra quê? Ela olhou para ele. — Isso não tem muito o que fazer. Ele franziu o cenho. — Sempre tem algo. Ela soltou uma pequena risada. — Nem tudo você resolve, Maphis. Ele se aproximou um pouco mais. — Eu não quero resolver tudo. Uma pausa. — Eu quero cuidar. O silêncio que veio depois… Foi diferente. Mais íntimo. Mais profundo. Lia sentiu o coração apertar. — Eu não sei explicar direito… — Não precisa explicar tudo. — Mas eu fico estranha nesses dias. — Eu já percebi. Ela riu baixo. — Ótimo… — Não é r**m. Ela olhou para ele. — Não? — Não. Ele respondeu com calma. — Só é… diferente. Lia ficou em silêncio. — Eu não gosto de sair. — Então não saia. — Eu prefiro ficar aqui. — Então fique. Ela respirou fundo. — Eu cuido das coisas… — E eu cuido de você. A resposta veio tão natural… Que ela não soube o que dizer. Ficou apenas olhando. — Você não precisa fazer tudo sozinha — continuou ele. — Eu sei… Mas a voz dela já não era tão firme. — Só que eu sempre fiz assim. — Agora não precisa mais ser só você. O silêncio caiu novamente. Mas, dessa vez… Não era pesado. Era acolhedor. Lia desviou o olhar. Mas um pequeno sorriso surgiu. — Você fala como se fosse simples. — Pra mim, é. Ela balançou a cabeça. — Pra mim ainda é estranho. — Então a gente aprende. Ela olhou para ele. — Juntos? — Sempre. Lia respirou fundo. E, pela primeira vez… Não sentiu vergonha. Sentiu… cuidado. — Tá bom. Maphis olhou para a panela. — Posso provar? Ela riu. — Pode. Ele pegou um pouco. Provou. E assentiu. — Tá bom. — Eu falei. Eles ficaram ali. Simples. Mas mais próximos do que antes. Porque, às vezes… Não é sobre grandes momentos. Mas sobre entender… E escolher ficar. Maphis já havia enfrentado batalhas que atravessavam séculos. Já havia visto reinos caírem, alianças se desfazerem, magia antiga surgir e desaparecer como vento. Sabia lutar. Sabia liderar. Sabia sobreviver. Mas havia coisas… Que ele não sabia. E, pela primeira vez em muito tempo… Ele reconhecia isso com clareza. Lia. Ela não era um mistério no sentido comum. Ele a entendia. Ou, pelo menos… achava que entendia. Mas havia partes dela… Que ele ainda não conhecia. E aquilo o incomodava. Não por orgulho. Mas por cuidado. Depois da conversa na cozinha, algo ficou na mente dele. O jeito como ela ficou vermelha. O jeito como hesitou. A forma como disse que sempre lidava sozinha. Aquilo não parecia certo. Não para ele. — Ela não devia passar por isso sozinha… — murmurou, enquanto caminhava pelo reino. O sol já estava alto. As pessoas seguiam suas rotinas. Mas Maphis estava… distante. Pensando. Se queria estar ao lado dela. Se queria cuidar dela. Precisava entender. E não apenas superficialmente. Precisava saber de verdade. Ele sabia com quem falar. Eleonor. Encontrou o mago próximo à área de cultivo, orientando algumas pessoas. — Eleonor. O homem levantou o olhar. — Maphis. Ele percebeu imediatamente o tom. — Aconteceu algo? — Não. Uma pausa. — Mas eu preciso falar com você. Eleonor assentiu. — Vamos. Eles caminharam até um lugar mais afastado. Mais silencioso. — É sobre Lia. Eleonor cruzou os braços. — Sempre é. Maphis não negou. — Eu percebi algo. — O quê? Ele respirou fundo. — Ela tem dias em que não sai. Eleonor assentiu. — Tem. — Ela sente dor. — Sente. — E… ela disse que é algo do corpo dela. Eleonor o observou com mais atenção agora. — Disse. Maphis hesitou por um instante. Mas não recuou. — Eu não entendo isso. O silêncio caiu. Mas não foi julgamento. Foi… compreensão. — Você quer entender. — Quero. — Por quê? Maphis respondeu sem hesitar. — Porque eu quero cuidar dela. Eleonor manteve o olhar. — Você já cuida. — Não o suficiente. Uma pausa. — Não se eu não sei o que está acontecendo. Eleonor soltou um leve suspiro. — Isso não é algo que você aprenda em batalhas. — Eu sei. — Nem em livros de magia. — Eu sei. — E nem todos os homens se preocupam em saber. Maphis inclinou levemente a cabeça. — Mas eu me preocupo. O silêncio voltou. E, pela primeira vez… Eleonor sorriu de leve. — Eu percebi. Ele se encostou levemente em uma árvore.
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